Não há uma explicação exata para este fenómeno mas, de há uns anos para cá, o Porto é cada vez mais visto como epicentro do design em Portugal. Seja pelo aglomerado de pequenos estúdios e designers a trabalhar em nome próprio para projetos locais ou pela existência num número visivelmente menor de agências de publicidade na cidade, o design e os designer do Porto afirmam-se em Portugal e além-fronteiras e agora têm uma bienal para pôr o seu trabalho em perspetiva.

A Porto Design Biennale chegou este ano ao Porto e a Matosinhos pelas mãos da esad—idea e propõe não só uma mostra do que se tem feito nacional e internacionalmente, mas também um questionamento do papel do design no mundo.  Até ao dia 8 de dezembro galerias e outros espaços expositivos das duas cidades-mãe destes projetos criam diálogos com novos e velhos públicos, subordinados ao grande tema “Post Millennium Tension” — mais a questioná-los do que a dar-lhes respostas.

Depois de conversarmos com José Bártolo, curador da exposição Millenials – Design do Novo Milénio, patente na Galeria Municipal do Porto, percebemos que, a seu ver, “os designers millenials revelam uma capacidade muito grande de trabalhar com a esfera local e global”. Mas quais são, afinal, os desafios de ser um designer millenial, para os próprios designers millenials?

Enviámos um formulário para três designers do Porto, que trabalham no (e para o) novo milénio e que expõem trabalhos seus na Porto Design Biennale, em Millenials – Design do Novo Milénio. João Miranda (Walking Fearless), Oupas! Design e Serafim Mendes são vozes ativas da sua geração e desconstroem este novo milénio através do design.

João Miranda (Walking Fearless), 30 anos | Big Kitchen 2.0

“A Big Kitchen 2.0 nasce da pergunta “O que fica por ver quando olhamos para as letras que nos rodeiam?” A partir da exploração exaustiva de uma única família tipográfica, pretendeu-se criar uma experiência interactiva que explora a anatomia do tipo de letra, abrindo as portas de uma “cozinha tipográfica”, para tornar a compreensão desta actividade mais acessível a todas as pessoas. O corpo de trabalho que define a exposição explora diferentes métodos de produção gráfica, questionando e reinterpretando formatos tradicionais como o poster ou o type specimen.”

Gerador (G.). — Quais são os desafios de ser designer no novo milénio?
João Miranda (J.M.) — O ritmo alucinante com que tudo acontece e que está reflectido no estado de impermanência e constante actualização, define muitos dos trabalhos que cresceram e nasceram com a emergência e consolidação das novas tecnologias. Muitos desafios advêm deste ritmo, quer seja através de um mercado super competitivo ou do consumidor exacerbado dos dias de hoje. Em contraponto, é interessante ver como nascem oportunidades que se distanciam deste sentimento e abordagem futurista. Pessoalmente, o grande desafio de ser designer no novo milénio é ter a capacidade de abraçar esta mudança de paradigma em que a própria génese da profissão que está tão ligada a um capitalismo insustentável pode e deve ser questionada. O estado de emergência climática e o impacto social do nosso trabalho atribuem-nos uma responsabilidade que não podemos ignorar.

G. — Em entrevista ao Gerador, José Bartolo dizia que “os designers millenials revelam uma capacidade muito grande de trabalhar com a esfera local e global”. Revês-te nesta afirmação?
J.M. — Completamente. Esta exposição nasceu de uma colaboração muito próxima com o estúdio Desisto e mais para a frente com o Serafim Mendes, a FICA – Oficina Criativa e o IADE. Algumas conversas por skype, e-mail, WhatsApp permitiram esta colaboração entre as diferentes cidades em que nos encontramos. É certo que há dificuldades que advêm desta dinâmica de trabalho, no entanto torna um projecto como a Big Kitchen completamente viável.

G. — De que forma é que a tua peça exposta na Millenials reflete o caminho que pretendes seguir enquanto designer do novo milénio?
J.M. — Esta exposição tem dois elementos cruciais que, de um certo modo, reflectem a minha abordagem no design: a especificidade do tema abordado, tipografia, e a colaboração entre pessoas com diferentes valências. Embora a minha especialização seja o type design, defendo a necessidade de uma visão holística que permite compreender o contexto dos trabalhos e actividades em que estou envolvido. Não há tempo para saber tudo de tudo, mas há tempo para saber um pouco de muita coisa — o que a meu ver permite um diálogo mais informado entre pessoas com valências diferentes, potenciando resultados que nunca seriam possíveis sem este sentido de colaboração.

G. — Quão distantes (ou próximos) estão o design e as artes visuais?
J.M. — Já não debatia este assunto há bastante tempo e nunca consegui dar uma resposta simples e directa, mas diria que estão muito próximos e vão estar cada vez mais. São duas atividades distintas cuja génese e finalidade são diferentes, mas que no seu caminho, o processo criativo, acabam por partilhar muita coisa. A finalidade do objecto criado é talvez o elemento que melhor ajuda a compreender a que campo pertence. A finalidade das artes visuais pode residir em si mesmo, ao passo que o design procura responder a um problema — ou até criar um problema — cuja solução tenha um impacto mais tangível e com um propósito concreto.

G. — Há quem veja o Porto como o grande epicentro do design em Portugal. Por que é que achas que isto acontece?
J.M. — Diria que a escala da cidade possibilita um mercado competitivo e ao mesmo tempo uma comunidade de design bastante forte, proativa e interessada em elevar a qualidade do trabalho. É também uma cidade que tem feito muito pela cultura, o que permite oportunidades para abordar o design de um modo mais experimental, tornando possível descobrir novos caminhos que levam a que o panorama gráfico da cidade seja mais rico, contribuindo para a literacia visual dos habitantes da mesma. Este contributo possivelmente reflete-se em oportunidades propostas por clientes que já estão dispostos a arriscar mais e que compreendem melhor o valor do design.

G. — Que lugar é que uma bienal como a Porto Design Biennale ocupa na cidade? Que importância pensas que tem para o design e os designers?
J.M. — A PDB é um marco bastante importante pela sua capacidade de comunicar a relevância do design para um público mais abrangente. Nesta última década escreveu-se muito sobre a importância do design e como este finalmente ocupa “um lugar na sala de reuniões”; igualmente importante é reconhecer o impacto que o design tem nas nossas vidas e a necessidade da sociedade tomar conhecimento de que a grande maioria das coisas que nos rodeiam foram projectadas pelo ser humano, ficando também apta a um questionamento mais informado. E esta posição de demiurgo atribuída aos designers deve, sem qualquer dúvida, ser questionada, repensada e debatida em momentos como a PDB.

Oupas! Design, criado em 2010 | The Ocean Claw: Save the last fish from the sea!

“Abordando o tema proposto “Post-Millennium Tension”, pretendíamos refletir sobre uma das preocupações que se intensificou neste milénio: a poluição dos oceanos. Para materializarmos esta intenção partimos da imagética dos objectos da infância dos Millennials, em particular da “Claw machine”. Dentro desta caixa colorida e cheia de luzes, feita de papel e cartão, onde normalmente habitam peluches e outros objectos sem grande valor material, passam a habitar garrafas e objectos de plástico, e o objectivo do jogo é agora encontrar um peixe entre tanto lixo.”

Fotografia de ©Daniel Sommer

Gerador (G.). — Quais são os desafios de ser designer no novo milénio?
Oupas! (O.) — Nós crescemos nos anos 90 com objectos como as cassetes VHS ou os telemóveis de teclas, e acompanhámos uma evolução tecnológica muito grande e rápida — quando, de repente, estes objectos se tornaram obsoletos e vimos nascer smartphones e tablets, e com eles as apps, as redes sociais e, no geral, a evolução da internet. Isso fez com que nos adaptássemos muito rapidamente às novas ferramentas tecnológicas e, através delas, explorássemos infinitas possibilidades a uma velocidade muito maior. Com a internet, além de acedermos muito mais facilmente à informação e conseguirmos de uma forma autodidata alargar as nossas competências, também conseguimos muito mais facilmente saber o que se passa do outro lado mundo, sem ser preciso fazer uma pesquisa intensiva para encontrar trabalhos de designers que não estejam representados numa exposição, livro ou publicação, como acontecia no início do milénio.
Agora, com alguns cliques, podemos ver o trabalho de milhares de estúdios, designers e artistas, e também nós somos mais facilmente notados noutra parte do mundo. Isso à partida é ótimo, porque abre horizontes e potencia novas formas de comunicar, mas ao mesmo tempo pode ser muito constrangedor, pois há tanta coisa a acontecer e a mudar que há um pressão grande em fazer diferente e em estar em constante actualização e mutação. Inevitavelmente, há também alguma saturação; parece que toda a gente é incrível e que sabem fazer tudo, o que nem sempre é verdade, mas temos que fazer um esforço maior para nos destacarmos, pois assim como é fácil mostrar o nosso trabalho a uma escala global, ainda mais fácil é diluirmo-nos em tanta informação.

G. — Em entrevista ao Gerador, José Bartolo dizia que “os designers millenials revelam uma capacidade muito grande de trabalhar com a esfera local e global”. Revêem-se nesta afirmação?
O. — Sim, tal como referido na resposta anterior, o facto de termos tantas ferramentas digitais, nomeadamente as redes sociais e os portfolios online, que chegam muito mais facilmente aos outros — quer seja a nível local como global —, torna-se mais fácil para nós responder a desafios. Somos versáteis e rapidamente nos adaptamos a diferentes contextos, pois automaticamente pensamos nas coisas numa escala global, ou seja, à partida já são destinadas a todos, mesmo que se concretizem apenas localmente.

G. — De que forma é que a tua peça exposta na Millenials reflete o caminho que pretendes seguir enquanto designer do novo milénio?
O. — A nossa abordagem é muito analógica, como aliás é todo o nosso trabalho. Queremos contrariar esta “digitalização” das coisas, não porque somos contra a evolução tecnológica — até porque nos servimos de ferramentas digitais para desenvolver o nosso processo de trabalho — mas porque achamos que num mundo que se tornou tão digital e bidimensional, e em que é tão fácil criar com estas ferramentas, o que é manual e analógico acabou por se tornar mais especial e é a forma que encontrámos para nos diferenciarmos, quer seja num projecto encomendado pelo cliente ou num projecto como este, em que temos total liberdade para escolher a temática e abordamos problemáticas atuais. É muito bom ter oportunidades como esta.

G. — Quão distantes (ou próximos) estão o design e as artes visuais?
O. — Falando no nosso trabalho especificamente, as duas disciplinas diluem-se muito. À partida, o que distinguiria o design das artes visuais seria a necessidade de o designer criar para transmitir determinada mensagem, pré-concebida. Nós somos formadas em Design, e os nossos projectos partem sempre de uma premissa, quer seja uma necessidade do cliente, quer seja uma intenção nossa. A forma como materializamos essas mensagens já se aproxima muito das artes visuais, pela forma como trabalhamos o papel e o cartão, que se poderia considerar mais artística e por se caracterizar por uma habilidade manual. No entanto, não faria sentido desenvolvermos peças artísticas se depois não transmitissem a mensagem certa, pois tanto desenvolvemos peças de criação livre, como é o caso, mas também para clientes que efetivamente querem comunicar através das nossas peças.

G. — Há quem veja o Porto como o grande epicentro do design em Portugal. Por que é que acham que isto acontece?
O. — Talvez porque a cidade é mais pequena, e o mercado não é tão denso. A cidade não é marcada pelo trabalho mais comercial, como é comum nas cidades com grandes agências, e há mais espaço para trabalhar para projetos com relevância cultural e social. Não querendo desvalorizar a prática de design mais comum, que também é necessária, mas os projectos com dimensão cultural e social acabam por ser mais facilmente distinguidos daqueles que têm um propósito comercial e precisam de obedecer a muitos requisitos. Além disso, temos boas instituições de ensino e grandes exemplos de sucesso de designers/ estúdios portuenses.

G. — Que lugar é que uma bienal como a Porto Design Biennale ocupa na cidade? Que importância pensam que tem para o design e os designers?
O. — É uma excelente iniciativa na divulgação do panorama actual do design, não só para a comunidade de designers mas também para o público em geral e para o público mais jovem que começa a enveredar por esta área. Como portuenses temos um enorme orgulho em que a bienal se realize aqui, depois do fim anunciado da experimentadesign, em Lisboa, que tinha um papel fundamental na divulgação e discussão pública do design nacional e internacional.

Serafim Mendes, 24 anos | Post-print

“Post-print consiste numa exposição de cartazes que exploram o formato de realidade aumentada. Através de uma aplicação criada para este projeto, no contexto da tese do Mestrado em Design de Comunicação da ESAD Matosinhos, é possível apontar para os cartazes e dar-lhes vida, transformando-os em peças tridimensionais animadas. É uma fusão entre o analógico — pois os cartazes estão dispostos em caixas de luz, integrantes de um expositor físico feito de metal — com o digital, que é acedido através do smartphone ou tablet. Para acedermos à camada digital necessitamos do suporte físico, e vice-versa. Com a realidade aumentada, o utilizador deixa de ser passivo e passa a ter um papel mais ativo, pois tem controlo do ângulo e proximidade com que visualiza o conteúdo 3D, que está constantemente calibrado com o mundo físico. Desta forma, consegue desvendar uma segunda camada de informação que não é visível na versão impressa.”

Fotografia de ©Nuno Vieira

Gerador (G.). — Quais são os desafios de ser designer no novo milénio?
Serafim Mendes (S.M.) — Ser designer no novo milénio pode tornar-se bastante competitivo. Para além de haver um número muito superior de pessoas formadas na área, quem deseja seguir o caminho de freelancer (o que eu acho cada vez mais comum na minha geração) muitas das vezes tem de se especializar. No meu caso, foquei-me em juntar ilustração e animação 3D à minha prática de design gráfico. Entretanto, juntei o útil ao agradável e dei um passo em frente para um meio mais interativo — a realidade aumentada — que junta todas elas.
Do que conheço, acredito que há cada vez menos pessoas interessadas em trabalhar a full-time numa empresa. Por norma prefiro trabalhar sozinho, por conta própria, e poder assim colaborar com várias pessoas dependendo da necessidade de cada projeto. Isto, claro, para não falar da possibilidade de escolher os projetos que aceito. Gosto dessa liberdade, mesmo que implique trabalhar mais horas.

G. — Em entrevista ao Gerador, José Bartolo dizia que “os designers millenials revelam uma capacidade muito grande de trabalhar com a esfera local e global”. Revês-te nesta afirmação?
S.M. — Sim. O meu percurso como freelancer consiste, acima de tudo, em trabalhos realizados para o estrangeiro. Tive sorte em 2014/2015, quando finalmente comecei a publicar trabalho 3D, em ser destacado em inúmeros sites e blogs da área. Com isto consegui atingir um público mais global. Curiosamente, o trabalho em Portugal veio mais tarde, quando já tinha sido “reconhecido” lá fora. A forma como nós partilhamos trabalho nas plataformas ou redes sociais faz com que pessoas de todo o mundo o consigam alcançar. Foi assim que consegui projetos para os EUA, Reino Unido, Bélgica, Finlândia, Ucrânia, Espanha, etc.

G. — De que forma é que a tua peça exposta na Millenials reflete o caminho que pretendes seguir enquanto designer do novo milénio?
S.M. — O Post-print demonstra a minha vontade de aliar as novas tecnologias ao design, sempre que fizer sentido, se conseguir comunicar a minha mensagem melhor com isso. Acho que é preciso sairmos da zona de conforto para conseguirmos inovar, e o Post-print é um reflexo disso. Quando comecei o projeto nunca tinha trabalhado com realidade aumentada, muito menos criado uma aplicação. Foi um desafio enorme mas muito gratificante, que me trouxe oportunidades de trabalho que não teria tido se não passasse por isso.

G. — Quão distantes (ou próximos) estão o design e as artes visuais?
S.M. — Para mim são áreas distintas, mas cuja divisão está cada vez menos definida. A meu ver, em projetos para clientes, com um briefing específico, está mais distante das artes visuais porque temos um propósito a cumprir. No entanto, em projetos de intuito não comercial, como o Post-print, a divisão fica menos notória uma vez que se encontra entre as duas vertentes. Os meus cartazes não têm um propósito a cumprir senão o de levantar a questão de como poderá ser o futuro do design, sobretudo a nível tecnológico.
Imagino um futuro em que a realidade aumentada vai estar muito presente na vida das pessoas, apesar de já estar, com os filtros AR do Instagram e afins, mesmo que as pessoas muitas das vezes não estejam conscientes que isso é realidade aumentada. Mas imagino algo mais integrado no mundo real, através de óculos ou lentes de contacto que nos vão permitir sobrepor informação digital sobre o mundo físico a qualquer momento.

G. — Há quem veja o Porto como o grande epicentro do design em Portugal. Por que é que achas que isto acontece?
S.M. — Acredito que se deve ao facto de termos uma grande concentração de estúdios de pequena e média escala, e menos agências de publicidade. Em Lisboa isto inverte-se, havendo uma abundância de agências em relação a estúdios de design pequenos. Acho que conseguimos uma prática mais criativa numa escala menor e com clientes menores, ou então no setor cultural. Talvez seja por isso que o Porto é considerado o grande epicentro do design em Portugal.

G. — Que lugar é que uma bienal como a Porto Design Biennale ocupa na cidade? Que importância pensas que tem para o design e os designers?
S.M. — Penso que a PDB é um bom momento de reflexão do estado atual do design, permitindo dar a conhecer às pessoas as práticas mais recentes e relevantes. Claro que não é o suficiente para mostrar tudo o que há de importante, mas é uma iniciativa, a meu ver, muito importante para a nossa área.

Se a mudança de milénio trouxe consigo uma série de ferramentas capazes de mudar paradigmas a um ritmo alucinante e por vezes difícil de acompanhar, também trouxe mecanismos para que os profissionais de hoje e do futuro saibam lidar com os constrangimentos. João Miranda (Walking Fearless), Cidália, Joana e Sofia (Oupas! Design) e Serafim Mendes são três desses exemplos e partilham com o público as suas respostas a estes desafios até ao dia 17 de novembro em Millenials — Design do Novo Milénio, na Galeria Municipal do Porto.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de ©Inês D’Orey
A Porto Design Biennale e o Gerador são parceiros

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