A Rádio Gerador é a nova voz do Gerador. Todos os meses, na última noite do mês, emitimos um programa de rádio, resultado de uma conversa à mesa com convidados de honra.

Na edição deste mês conversámos com o chef Hugo Brito, do restaurante Boi Cavalo, a ilustradora Ana Gil, Manuel Luar, crítico gastronómico e autor da crónica Bem Comer, publicada semanalmente aqui em gerador.eu e, ainda, Alaa Al Hariri, fundadora da Associação Pão a Pão, um projecto para integração de refugiados do Médio Oriente que abriu recentemente o restaurante Mezze, no Mercado de Arroios.

No final, deixamos-te ainda o décimo e último capítulo do romance colectivo Modernista Tradicionalista, com texto de Nuno Camarneiro e interpretação do actor Miguel Nunes.

“Eu vivi uns quantos anos em Amsterdão, e a coisa da qual eu tinha mais saudades (e que quando era adolescente não comia e não gostava) era o bacalhau cozido, com ovo, com batata e com couves. É engraçado perceberes que às tantas tu mudas e muda também a tua relação afectiva com a comida. E o facto de estar apartado da comida portuguesa fez com que eu começasse a gostar de uma coisa de que não gostava.”

“A minha avó fazia um arroz de bacalhau, com imensos coentros. E a minha mãe nunca conseguiu fazer igual à minha avó. E eu já há muito tempo, desde que me tornei cozinheiro, que perseguia aquele sabor. E só há pouco tempo é que finalmente percebi. É que a minha avó não se limitava a comprar um molho de coentros qualquer. Ela tinha de ir à praça comprar, cheirar os coentrinhos e depois escolhia aqueles.”

“Lá no restaurante nós temos uma regra: se não conheces, compra.”

Hugo Brito, chef

“Tudo o que me põem à frente em termos de comida vai ser desenhado. Porque também é uma óptima maneira de registar aquilo que vou saboreando. Utilizo este método para ir registando aquilo que vou comendo. Assim trago para casa aquilo que experienciei nesse sítio.”

“Uma das coisas que mais me impressionou foi ter chegado a Hong Kong e ver uma coisa parecida com o pastel de nata. Ou quando chego a Goa e vejo um letreiro que diz ‘Doces’. Isto quer dizer que existe algo nestes países que é muito nosso.”

“Um prato típico é um prato que não nos deixa com fome e que faz sentir felizes!”

Ana Gil, ilustradora

“A tipicidade de um prato é a função de três variáveis: oportunidade, necessidade e criatividade. Portanto, se estás longe do mar, não vais apresentar peixe fresco. Se não há cabras, não fazes chanfana. A um estrangeiro que nos visita, daria peixe fresco da nossa costa.”

“O meu pai fazia cozido em casa, nos dias de inverno, e era uma coisa que ocupava a família toda. Almoçávamos ali em nossa casa 10 ou 11 pessoas. E o cheiro do cozido hoje em dia ainda me leva para essas memórias do meu pai.”

“Para mim o prato típico é um prato que se pode fazer em casa. Porque a maior parte dos pratos típicos que conheço começaram a ser feitos em casa.”

Manuel Luar, crítico gastronómico

“O pão é o alimento essencial para se comer seja na nossa cultura ou na vossa cultura.”

“Eu prefiro a comida da minha avó. Quando as pessoas passam mais anos a cozinhar elas sabem bem quais as especiarias, têm mais experiência. Nós não temos a mesma experiência que uma avó ou uma mãe.”

“Quando eu como polvo, salada de polvo, o sabor do limão ou vinagre nos vegetais é faz-me lembrar várias comidas da Síria.”

Alaa Al Ahriri, fundadora do projecto Pão a Pão

Convidados desta conversa

Hugo Brito, chef

Ana Gil, ilustradora

Manuel Luar, crítico gastronómico

Alaa Al Hariri, fundadora do projecto Pão a Pão

Locutor – Pedro Saavedra

Captação de Som – Jorge Cabanelas

Sonoplastia – Rui Miguel/Dizplay

Fotografia – Andreia Mayer

Décimo Capítulo do Modernista Tradicionalista

Texto de Nuno Camarneiro

Interpretação de Miguel Nunes

Captação de som e sonoplastia – Telmo Gomes

Co-produção ZOV e Gerador