Ao longo dos próximos anos, são várias as mudanças esperadas nos diferentes setores económicos, por força das metas ambientais definidas pelos diversos países, mas também pelo Acordo de Paris, celebrado em 2016. Um dos principais setores impactado por estas mudanças será o dos transportes, com vista à transição energética e o atingir da desejada neutralidade carbónica até 2050.

É neste panorama que a ferrovia tem vindo a ganhar um olhar renovado por parte dos diferentes países, uma vez que no campo da mobilidade, os comboios surgem, cada vez mais, como alternativa importante e robusta, no diz respeito à sustentabilidade e ao consumo de combustíveis fosseis. No caso português é esperado, até ao final da presente década, que todas as linhas de comboio nacionais sejam eletrificadas.

A proposta consta do programa de investimentos para 2030 (PNI2030) e implica um investimento público próximo dos mil milhões de euros, que se incluí nos 12,6 milhões em investimentos, recentemente anunciados pela Governo, e que prometem mudar a face da ferrovia em Portugal.

Já este ano, para além dos investimentos anunciados, o atual Ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, apresentou, na Comissão dos Transportes e do Turismo do Parlamento Europeu, as prioridades da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE). De acordo com o governante, o país deverá “apostar nos caminhos de ferro”, começando já este ano, designado simbolicamente como Ano Europeu do Transporte Ferroviário.

Em entrevista recente ao Gerador, Francisco Furtado, autor do ensaio A ferrovia em Portugal – Passado, presente e futuro, publicado em 2020 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, defendeu que esta aposta irá também corresponder a uma mudança de geracional a que se tem vindo a assistir, nomeadamente na forma como os mais jovens olham para as diversas alternativas no campo da mobilidade.

“Isto é uma questão de alterações climáticas, mas também de independência energética e de redução da dependência dos combustíveis fósseis. Portugal é um país em que os combustíveis fósseis têm o maior peso negativo na balança comercial, pelas importações. E não é só Portugal. A Alemanha, França, Itália e Espanha não produzem praticamente combustíveis fósseis. Se a Europa faz uma transição para as renováveis, isso pode ser uma mais valia quer a nível económico e financeiro, quer até de independência geoestratégica da Europa face a outras partes do mundo”, realça.

Para o autor, estão reunidas condições para que a ferrovia seja uma alternativa fundamental no futuro dos transportes, mas também para que a Europa e Portugal possam ter uma posição de destaque no que concerne à criação de soluções que melhorem ainda a oferta disponível.

“Se a energia vai ser renovável, há necessidade de fazer esta transformação. A própria Europa vai orientar-se nesse sentido. A área ferroviária em termos de indústria vai ser importante no futuro e é fundamental que Portugal esteja neste barco e que também desenvolva soluções. Obviamente não quer dizer que Portugal vai ser o país número um em termos de produção de comboios no mundo, mas tem de ter um papel e uma posição nisso. Um dos desafios importantes deste investimento é gerar precisamente esse cluster ferroviário em Portugal”, acrescenta.

Neste âmbito, começam desde já a vislumbrar-se soluções que terão um impacto decisivo nos serviços que os operadores deste setor podem utilizar. Recentemente, a empresa italiana Greenrail Group, através de uma nova tecnologia de reaproveitamento de energia solar, começou a transformar pneus velhos em trilhos ferroviários sustentáveis.

O projeto Greenrail Solar, consiste na construção de caminhos de ferro sustentáveis, através da utilização de com pneus velhos reciclados e de energia solar. Aproveitando o plástico e borracha de pneus antigos, os caminhos são semelhantes aos tradicionais, mas com um fator de diferenciação: têm painéis fotovoltaicos, que visam produzir energia elétrica para a locomoção dos comboios de passageiros e de carga.

Em Portugal, foi lançado, em 2016, o projeto Eco Sustainable Rail (Portugal 2020), que visava o reaproveitamento dos resíduos plásticos, com um grande potencial de transformação, para serem aproveitados nas novas infraestruturas ferroviárias.

“O projeto responde ao mesmo tempo à necessidade de se encontrar uma alternativa à travessa de madeira, com a proibição da utilização de biocidas (creosoto)”, conforme determinado em Diretiva da Comissão Europeia. Desta forma, com a valência de diferentes entidades, o objetivo passava por, desenvolver uma travessa que, por um lado cumpra as exigências técnicas especificas do caminho de ferro, e por outro, inicie um processo produtivo adaptado à industria da reciclagem e reaproveitamento de resíduos plásticos.

Por sua vez, Carlos Vasconcelos, administrador da Medway, uma das empresas que opera na área das mercadorias em Portugal, adiantou, num artigo de opinião do Dinheiro Vivo, publicado em maio de 2020, o lançamento de um Certificado de Transporte Sustentável. De acordo com o responsável, o certificado funciona como “um selo a que as empresas que optam pelo comboio para transportar as suas mercadorias podem ter acesso. Para além deste Certificado, as empresas poderão ainda receber a informação relevante para ajudar no cumprimento das suas metas ambientais, nomeadamente, na redução das emissões de CO2 ao longo do ano com a utilização do transporte ferroviário em detrimento do transporte rodoviário”, explica.

Nestas alternativas e soluções reside o objetivo principal de achatar a curva da poluição e demonstrar como a ferrovia pode desempenhar um papel decisivo, ao longo das próximas décadas, no campo da mobilidade. É também nos próximos anos que se espera a implementação de impostos de carbono, que poderão ter um impacto significativo na aviação. Esse mesmo impacto encontra-se expresso no plano European Sustainable and Smart Mobility Strategy, lançado no final de 2020 pela Comissão Europeia, no qual se adianta que até 2030 viagens com menos de 500 quilômetros em meios de transporte públicos tenham que ser carbono zero, ou seja, não podem ser realizados se tiverem emissões de carbono.

Questionado sobre estas mudanças em curso, Manuel Tão, geografo, sublinha, por exemplo, o papel de Greta Thunberg, que em 2019, optando por fazer as suas viagens de comboio, colocando em evidência uma necessária alteração de estilo de vida, em que o caminho de ferro recupera o papel que teve no passado. “Se a emergência pela sustentabilidade for traduzida por um princípio do poluidor pagador, acredito que o cenário pode mudar. Quando nós sentirmos o que vão ser as taxas aplicadas aos camiões e que podemos ficar sem linhas aéreas até 600 quilómetros, isso terá impacto sobre nós e sobre a Europa”, sintetiza.

Francisco Furtado, perspetivando os próximos anos em termos de mobilidade, vai ainda mais longe: “mais do que as distâncias, é preciso perceber que 100 cidades na Europa terão que ser neutras em termos de carbono. Se pensarmos em tudo isto, obviamente que há aqui um conjunto de oportunidades. Os carros elétricos, as novas formas de mobilidade partilhada, modos suaves como a bicicleta, tudo isto integra-se no conjunto de redensificação da própria ocupação do território, que não significa concentração num único polo urbano, mas termos múltiplos polos densos no território que se organizam em torno das estações de caminho de ferro. Neste contexto, a ferrovia, mesmo que não tenha a principal quota do mercado em termos de números de viagens, pode ser a coluna vertebral da mobilidade elétrica no futuro”.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Claudio Schwarz via Unsplash

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