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Caderno de encargos: Homem branco

Na Revista Gerador 38, na crónica Cadernos de encargos, que agora partilhamos contigo, Carlos Manuel Pereira fala-nos do homem branco.
“O homem branco acha que há refugiados do bem e os do mal. O homem branco mobiliza-se e abre a porta das suas casas para receber os refugiados que são iguais a si, mas o homem branco gosta de se justificar, por isso escreve nas suas redes sociais que se sente mais próximo de quem partilha o continente consigo, no fundo, de quem é também um homem branco. Para o homem branco, a empatia é como colunas bluetooth, tem um raio de ação.”

Texto de Redação

©portuguesegravity

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O homem branco é homem branco desde que se lembra. Nunca questionou, nunca duvidou, apenas aceitou. É branco e pronto. O homem branco disse aos outros homens brancos que foi ele que deu novos mundos ao mundo, chamou-lhe descobrimentos. Os outros homens brancos construíram-lhe estátuas, monumentos e fizeram-lhe louvores. Escreveram em manuais de histórias e ensinaram aos meninos brancos, os homens brancos do futuro. Os meninos brancos, hoje homens brancos, dizem não ter culpa das ações dos homens brancos do passado. E não têm. O homem branco é privilegiado, mas não gosta que lhe chamem privilegiado. O homem branco é sensato e moderado, por isso gosta dos que são sensatos e moderados como ele. O homem branco, no fundo, só não gosta que o aborreçam enquanto come uma quiche ou o seu pão de deus acompanhado de café. O homem branco adora cafés. O homem branco odeia generalizações, mesmo sendo ele, por vezes, um grande fã de generalizações. Para o homem branco é preciso ter calma, é preciso ter paciência, é preciso ver o contexto. O homem branco chateia-se com quem vê o mundo a preto e branco, mesmo que ele só veja o mundo a preto ou a branco. Melhor: o homem branco não vê cores. O homem branco distingue entre os de bem e os do mal. Distingue tanto que até expõe isso em outdoors. Sendo que os do bem normalmente são iguais a ele, homens brancos. Porque o homem branco não quer um mundo diverso, quer um mundo diver-assim-assim. O homem branco gosta de falar da diversidade quando contrata uma pessoa que seja diferente de si. Basta uma para ser notícia. E o homem branco adora ser notícia quando pratica o bem. O homem branco é inclusivo, mas escreve livros, novelas, anúncios e filmes, nos quais perpetua a narrativa que os outros homens brancos lhe meteram na cabeça. Na ficção escrita pelo homem branco, os outros homens brancos sofrem de amores, aqueles que não são como o homem branco só servem para falar de como é difícil não ser um homem branco. O homem branco acha que todos querem ser iguais a ele. O homem branco até reconhece que precisa de se desconstruir, mas não ao fim de semana porque há futebol. O homem branco imita símios nos estádios de futebol. O homem branco canta que foi o Eder que os fodeu. O homem branco canta, grita e chora, enaltece atletas, mas só quando estes vencem.

O homem branco, quando vai de férias, fica triste se não encontrar crianças diferentes dos seus filhos para tirar fotografias. O homem branco adora os que são felizes com pouco porque ele só sabe ser feliz com muito. O homem branco adora a hospitalidade de quem o recebe sem reconhecer que isso são consequências dos resquícios dos outros homens brancos que por lá passaram. O homem branco faz terapia, mas acha que quem lhe cede tudo apenas porque é branco não tem traumas, é simpatia.

O homem branco não gosta que o chamem burguês, mesmo que faça parte da burguesia. O homem branco gosta dos que sabem se comportar, dos que falam baixo, mas de preferência que saibam dançar. Porque a música aproxima as pessoas. O homem branco não gosta que o deixem desconfortável por ser um homem branco, mas gosta de poemas que o faça refletir enquanto homem branco. O homem branco nunca refletiu sobre a sua condição e não gosta que lhe peçam isso. O homem branco adora ficar arrepiado com obras de arte que façam refletir. O homem branco acha-se o mais forte e o mais inteligente, mas fica vermelho se exposto muito tempo ao sol e rapa o cabelo como prova do seu amor à pátria. O homem branco gosta de ser ele a decidir o que pode ou não ofender os que são diferentes de si. O homem branco não é aquela coisa má porque até tem amigos que são. O homem branco diz que não é, mesmo que as suas palavras e os seus comportamentos mostrem que é. O homem branco é contra quotas. Prefere mérito mesmo que ele, o homem branco, não se sente à mesa por mérito. Apenas por ser branco. O homem branco gosta de criar regras para ele e outras para os outros. O homem branco é condescendente, pedante. Mas também é gentil, simpático, disponível. O homem branco fala sobre o que sabe e o que não sabe inventa porque pode. O homem branco adora guerras, mas acha que não. O homem branco teve duas grandes guerras no seu continente, mas acha que é civilizado e os bárbaros são os outros. Aqueles que já nascem bélicos, prontos para morrer como se essa fosse a sua condição. Os que não se sabem comportar. O homem branco invade países, destrói monumentos, extermina vidas só porque pode. O homem branco fica triste quando vê os outros homens brancos com olhos azuis ou verdes, como ele, a morrer porque este tipo de fim é para os outros, os que não são homens brancos. O homem branco, mesmo em momento de guerra, faz a distinção e dá prioridade aos outros homens brancos. O homem branco acha que há refugiados do bem e os do mal. O homem branco mobiliza-se e abre a porta das suas casas para receber os refugiados que são iguais a si, mas o homem branco gosta de se justificar, por isso escreve nas suas redes sociais que se sente mais próximo de quem partilha o continente consigo, no fundo, de quem é também um homem branco. Para o homem branco, a empatia é como colunas bluetooth, tem um raio de ação. O homem branco não gosta que o acusem de coisas. Muito menos de falta de empatia. O homem branco não vai gostar deste texto porque o homem branco não gosta que lhe chamem homem branco mesmo que ele adore relembrar os outros que não são homens brancos.

-Sobre o Carlos Manuel Pereira-

É um estafeta do humor. Entrega piadas em forma de texto, vídeo e áudio. Tem uma rubrica de humor na RDP África - "Na corda bamba" -, faz coisas para o 5 para a meia-noite, já atuou no palco comédia do NOS ALIVE enquanto o AGIR fazia soundcheck no palco principal. E agora escreve aqui.
Tem 29 anos e assina com três nomes para fingir ser, entre os amigos, um pequeno burguês. É o autor da crónica "Caderno de encargos".

Texto de Carlos Manuel Pereira
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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