Sou um ateu empedernido e defendo a ideia, alicerçada em pilhas de observação antropológica e reflexão filosófica, que foi a humanidade que criou as divindades e não o contrário. Vulnerável perante a finitude, o homem inventa a religião para lidar com uma angústia insuportável e com as agruras materiais de uma vida dura. Simpatizo com a convicção marxiana de que a religião é o ópio do povo, anestésico para o sofrimento da exploração quotidiana, ingrediente, pois, da docilização e do conformismo. Não tive a graça, ao contrário de Byung-Chul Han, de celebrar uma epifania que, na contemplação e silêncio da Igreja dos Congregados, no Porto, o colocou, há três anos, na senda do divino.
Contudo, não sinto nenhuma superioridade moral, nem pretendo ser proselitista do ateísmo e defendo acerrimamente o direito à prática religiosa. Não se percebem, por isso, as dificuldades levantadas às populações islâmicas que residem no Porto (cerca de sete mil pessoas). Na minha cidade existem duas mesquitas (até porque a comunidade muçulmana, ao contrário da simplificação estigmatizante, está longe de ser homogénea, como os católicos ou os protestantes são diversos): o Centro Cultural Islâmico do Porto, na Rua do Heroísmo e a Mesquita da Associação Comunidade do Bangladesh do Porto, na Travessa do Loureiro, ambos espaços exíguos perante a massa de fiéis. Esta última está mesmo ameaçada de encerramento pelos interesses imobiliários que detêm o espaço (a cidade especulativa não conhece outro valor além do lucro, mesmo que os poderosos se benzam nas homilias dominicais com fervor de hipócritas diplomados).
Sem coragem para enfrentar a vaga xenófoba, Rui Moreira recuou na cedência, em direito de superfície, de dois imóveis municipais para a construção de duas mesquitas: uma destinada ao já referido Centro Cultural Islâmico do Porto e outra à tal Associação da Comunidade do Bangladesh do Porto. Pedro Duarte, sob uma retórica laica, recusa facilitar o uso de património municipal para o efeito, igualmente receoso da hegemonia do pensamento de ódio. Nem um nem outro com a fibra para enfrentar o preconceito reinante.
Vão estas pessoas espalhar-se por garagens ou espaços ínfimos e indignos, numa urbe que os chama para os trabalhos duros e mal pagos, mas que desiste de facilitar a sua integração, único processo capaz de gerar inclusão, respeito e dignidade.
Tem o Porto inúmeras igrejas católicas, protestantes, de todos os credos, uma bela sinagoga. Professassem uma destas religiões e mil portas se abririam. São muçulmanos e um mar de dificuldades sobre eles se abate, o anátema de imigrantes pobres, infiéis e perigosos. A laicidade do Estado não implica indiferença perante a liberdade religiosa,exige precisamente igualdade de tratamento entre confissões.
Merecia este tema um movimento, um protesto amplo, unindo religiosos e ateus, numa cidade que gosta de se representar como aberta e calorosa. Para todos os que acreditam, a cidade dos homens deveria poder comunicar com a cidade de Deus, qualquer que seja o seu nome e imagem.