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Em Beco sem Saída, a arte de um grupo de mulheres mistura-se com as suas dores

Residência artística desenvolvida pela cantora Marisa Oliveira no bairro da Atouguia, em Guimarães, culminou num espetáculo apresentado a 16 de maio, onde as histórias de vida das mulheres que o habitam se cruzam com o canto coral

Texto de Cátia Vilaça

Edição de Tiago Sigorelho

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Os cravos de papel que enchem a mesa de jantar dizem-nos ao que vimos. Beco sem Saída, o espetáculo musical que estamos prestes a presenciar na Associação C.A.S.A - Centro de Atividades Sociais da Atouguia, insere-se na programação de “Abril com Cantigas do Maio”, promovida pela Câmara de Guimarães para celebrar os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, os 50 anos das primeiras eleições livres e o centenário do nascimento de Eduardo Ribeiro, vimaranense opositor do regime ditatorial.

À volta da mesa, as mulheres que compõem o grupo coral “As Renascidas” vão ajeitando os cravos.

O repertório evoca, de facto, Abril e resistência. “A Formiga no Carreiro”, “Menino do Bairro Negro”, “Venham Mais Cinco”, “Somos Livres” ou “As Sete Mulheres do Minho”, homenagem à destemida Maria da Fonte, que no século XIX liderou uma revolta camponesa contra as políticas do então ministro Costa Cabral. Nos intervalos do alinhamento musical, são os testemunhos destas mulheres do Minho que enchem o ecrã, ao fundo da sala.

Apresentação Beco sem saída. Fotografia de João Novais

Começar a trabalhar aos 13 anos para um patrão que não fazia descontos.

Trabalhar a servir, para ser despedida quando a patroa descobriu que estava separada.

Começar a trabalhar aos 13 anos, outra vez. “As pessoas eram escravas. Os filhos e netos que não sofram o que nós sofremos”.

Os testemunhos reproduzidos em vídeo vão desde a vida antes da construção do bairro, num contexto essencialmente rural, marcado pelo trabalho no campo, “de sol a sol”, até à vida no complexo da Atouguia, situado à entrada de Guimarães e construído no final da década de 70 como solução para pessoas oriundas de contextos de vulnerabilidade habitacional.

Nascida no Porto, Marisa Oliveira viveu sempre em Guimarães, mas a sua relação com este bairro era inexistente até ao início do projeto. Enquanto crescia, sempre lhe disseram para se manter longe daquele aglomerado estigmatizado. Mas o seu percurso, que tem girado em torno da formação musical, levou-a a trabalhar com comunidades e ao desejo de concretizar um projeto aqui. Além disso, o atual presidente da Junta de Freguesia de Oliveira, São Paio e São Sebastião, Diogo Lopes, falava-lhe do bairro com “muito amor e carinho”. A participação de Marisa no ciclo de conversas “Singularidades de Guimarães”, promovido pelo Gerador, haveria de desbloquear algumas ideias, e quando soube que até já havia um grupo musical a ensaiar na C.A.S.A, criaram-se as bases para o nascimento do projeto.

O espetáculo apresentado a 16 de maio foi o culminar de um processo, iniciado ainda em março, de aproximação gradual, mas vivido de forma emotiva pela diretora artística, que escutou histórias difíceis, como o alívio de uma viuvez libertadora de 30 anos de anos de violência doméstica. Histórias como esta foram sendo partilhadas por vezes “com algum pudor”, conta Marisa, mas também com o otimismo de quem conseguiu recomeçar. Com “As Renascidas”, estreou-se também o coro Vozes d’Elas, formado por antigas alunas de Marisa.

Marisa Oliveira, na apresentação Beco sem saída. Fotografia de João Novais

A C.A.S.A é um projeto recente, com cerca de um ano de existência, embora a ideia já existisse há mais tempo, como conta Diogo Lopes ao Gerador. Reunidas as condições para a aquisição do espaço, foram-se recrutando voluntários para os necessários arranjos. Agora, o espaço serve não só para os ensaios d’As Renascidas, mas também para aulas de boxe e de informática, e sempre com o objetivo de fomentar mais parcerias, conforme sublinha o autarca.

O início d'As Renascidas

A ideia de formar um grupo musical partiu de Antónia Silva, moradora “acidental” da Atouguia há 42 anos. Acidental porque não queria deixar os pais para ir para o bairro, mas o marido, a trabalhar em França há 19 anos, candidatou-se a uma habitação e Antónia veio com ele. Não é a sua estreia em andanças musicais: Antónia toca cavaquinho, concertina, pandeireta e tambor, e já cantou noutros grupos. Ainda não convenceu as companheiras a partilhar outros instrumentos que não a voz, mas Pedro, o afilhado que acolheu como um neto, segue-lhe os passos na música. Prestes a ir para o quarto ano de escolaridade, “sabe tudo de ouvido”, garante Antónia. De resto, o domínio da concertina já ficara evidente durante o espetáculo, onde participou ao lado dos músicos Mário Gonçalves (percussão) e João Ferreira (acordeão).

Apresentação Beco sem saída. Fotografia de João Novais

Ecos de Abril

Os fragmentos partilhados em Beco sem Saída são, maioritariamente, histórias duras. Mas também há espaço para o otimismo, ou para vislumbrar uma saída dessa dureza, o que levou Marisa a optar por apresentar o nome assim mesmo, rasurado.

Belém Ribeiro não é moradora da Atouguia, mas o interesse em aprender e manter-se ocupada trouxe-a às Renascidas. Uma semente plantada pela mãe, que obrigava os filhos “a saber o porquê das coisas”, e cujo analfabetismo não a impedia de saber a história de Guimarães “de fio a pavio”, recorda Belém. É também da mãe que guarda a memória do entusiasmo sentido na cidade com a campanha de Humberto Delgado: “Penduraram um bacalhau fininho num pau e diziam, ‘É Delgado, mas é bom’”. O subterfúgio não evitou, contudo, polícia e prisões.

Quando o 25 de Abril chegou, já Belém trabalhava como telefonista e rececionista. Só quando os estudantes vieram para a rua, ao início da tarde, se soube que algo tinha acontecido. “As pessoas também ainda estavam com aquele medo de falar, porque a gente não sabia para que lado é que ia cair”, conta Belém ao Gerador.

Consumada a revolução, Belém recorda as campanhas de dinamização do Movimento das Forças Armadas nas freguesias vimaranenses, que os militares percorriam “a explicar o que era a democracia”, como conta no seu testemunho em vídeo. Apesar de ter de se levantar muito cedo, Belém não faltava às sessões, incentivada pela mãe, que no pós-revolução continuava a obrigar os filhos “a saber o porquê das coisas”. Chegada a hora de votar, o momento era de grande solenidade: “Andava com a esferográfica na mão como se fosse um tesouro”, ouvimo-la dizer no ecrã.

A democracia começava ali, e para muitas destas mulheres, começaria alguns anos depois uma nova vida no bairro da Atouguia. Nem tudo foi fácil. No início, faltava eletricidade, água, elevadores, recorda Marisa dos testemunhos recolhidos durante o processo. E a vida continua a não ser fácil, mas ainda há lugar para o otimismo, como o de Antónia, a quem, apesar das dificuldades, ainda sobra uma vista sobre o monte da Penha.

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