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«A Albânia não está à venda» — como a Revolução dos Flamingos deu à juventude albanesa uma razão para ficar

Quando os planos para desenvolver uma ilha albanesa protegida, apoiados por Ivanka Trump e Jared Kushner — filha e genro do Presidente dos Estados Unidos — desencadearam protestos em massa, aconteceu algo inesperado: uma geração que planeava emigrar decidiu, em vez disso, ficar e lutar.

Texto de Michael Angelos Konstantopoulos - Efimerida ton Syntakton (Atenas)

Foto de Adventure Albania no Unsplash

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A 23 de maio de 2026, eclodiram na Albânia protestos que ficariam conhecidos como a «Revolução dos Flamingos», evoluindo rapidamente para um movimento muito mais amplo. O catalisador foi o plano de desenvolvimento em grande escala da ilha desabitada de Sazan, bem como os projetos previstos para a zona costeira de Narta–Zvernets. Estes projetos eram apoiados sobretudo pelo investidor norte-americano Jared Kushner, genro do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Sem qualquer envolvimento partidário e impulsionado principalmente por jovens nascidos após a queda do regime, o movimento uniu pessoas de diferentes sensibilidades políticas, tanto dentro como fora da Albânia, em torno de uma convicção comum: o desenvolvimento não pode significar emigração permanente, nepotismo político e decisões tomadas sem a participação da sociedade.

O caso do investimento em Sazan resume todas as contradições da Albânia contemporânea. Por um lado, existe a imagem de um país promovido como a nova Riviera Adriática. Por outro, há uma sociedade que continua a enfrentar elevadas taxas de emigração jovem, uma crise habitacional nos principais centros urbanos e profundas desigualdades regionais.

Tirana encontra-se num equilíbrio delicado: tem de demonstrar que consegue proteger o ambiente, garantir consultas públicas e combater a corrupção generalizada, ao mesmo tempo que enfrenta pressão — e manifesta vontade — para abrir as portas, sem grandes condições, ao investimento estrangeiro.

Este conflito entre os supostos valores europeus e um desenvolvimento capitalista agressivo, enquadrado pela realidade dos Balcãs, é um dos principais fatores da crise política que se está a instalar no país.

Queda do Governo?

Ervin Goçi é ativista e docente do Departamento de Comunicação e Jornalismo da Universidade de Tirana: «Os protestos começaram como uma reação à perda de centenas de hectares de áreas protegidas devido ao plano de desenvolvimento, mas aquilo que os sustenta e alimenta é a exigência da demissão do Governo», enfatiza à Efsyn.

Referindo-se ao processo de adesão da Albânia à União Europeia, Goçi acrescenta: «Estamos numa encruzilhada e num estado de incerteza, mas isso não é culpa do povo albanês, que sabe muito bem o que quer. O problema é que determinados interesses políticos, económicos e criminosos não querem verdadeiramente a Albânia na União Europeia.

Ou então querem-na da forma como o primeiro-ministro Edi Rama a tem apresentado — juntamente com o seu homólogo sérvio, Aleksandar Vučić — como se fosse um acordo que dissesse aos europeus: "Deixem-nos entrar na União Europeia, mas não nos responsabilizem pelo cumprimento do Estado de direito europeu e nós também não vos exigiremos nada."»

Segundo o professor, esta vaga de protestos não teria começado nem alcançado tal dimensão se não tivesse ocorrido uma mudança estrutural: uma minoria social, até há pouco passiva e silenciosa, transformou-se numa cidadania organizada e solidária, mobilizada longe do olhar do Governo.

«O flamingo representa a internacionalização de uma nova Albânia, mas com uma imagem completamente renovada, alternativa, moderna e atrativa, totalmente diferente daquela que o Governo procura vender através de cartazes turísticos brilhantes. «Com este movimento», explica Goçi, «estamos a dizer ao mundo que não somos meros espectadores dos negócios obscuros da oligarquia e do crime organizado; somos os verdadeiros donos da nossa riqueza. Não o afirmamos apenas através de uma bandeira, porque a bandeira é um símbolo distintivo que nos separa dos outros, enquanto o flamingo possui uma dimensão mais universal e cria pontes de comunicação social e política que ultrapassam as fronteiras nacionais. Representa um albanês do século XXI, inserido numa realidade global, à procura do seu lugar no mundo.»

As vozes dos protestos

Besiana Guri é fundadora e diretora da organização ambiental Lumi, na Albânia, e participa nos protestos desde o primeiro dia. Falámos com ela numa tarde, pouco antes de seguir para mais uma manifestação no centro de Tirana.

«A "Revolução dos Flamingos" nasceu da iniciativa dos cidadãos. Escolhemos os flamingos porque são uma das espécies que ficariam ameaçadas por estes projetos. Depois, o movimento acabou por reunir pessoas preocupadas com muitas outras questões, incluindo aqueles que exigem uma mudança do sistema político e um corte com o velho regime.»

Mas, afinal, o que querem os «Flamingos»? «Querem ver uma nova forma de governar. Querem transparência e ter uma palavra a dizer na tomada de decisões. Querem que a sua voz seja ouvida. A maioria das pessoas que protestam são jovens. São estudantes ou jovens trabalhadores que, nos últimos anos, pensavam sobretudo em encontrar uma forma de abandonar a Albânia. Por muitas razões. Agora, porém, encontraram esperança nestes protestos», continua Besiana Guri, que tinha apenas três anos quando o regime socialista colapsou. 

Para ela, existe uma possibilidade real de que estas manifestações produzam algo de positivo e esperançoso: «De uma forma geral, a população quer ver novos rostos, sem ligações à corrupção e à criminalidade dos últimos 30 anos. Falo como indivíduo, como cidadã, não como especialista, mas acredito que surgirão novas forças políticas como resultado destes protestos. Neste momento, existe um entendimento comum entre os manifestantes: não precisamos de um líder nem de um partido para nos conduzir. O protesto nasce do povo e será o próprio povo a determinar os seus resultados.»

Dinheiro não declarado, corrupção e evasão fiscal

Um estudo da Global Initiative Against Transnational Organized Crime revelou que quase seis em cada dez empresas (59 %) que obtiveram licenças para construir edifícios de grande altura na Albânia entre 2017 e 2019 foram financiadas com capitais não declarados ou de origem ilícita.

No mesmo período, estima-se que cerca de 1,6 mil milhões de euros em dinheiro não declarado tenham sido canalizados para o setor imobiliário.

Um relatório da Fundação Friedrich Ebert, baseado num estudo recente sobre Tirana, calcula que a corrupção e a evasão fiscal poderão ter gerado mais de 8 mil milhões de euros em fundos não declarados entre 2015 e 2024, sendo uma parte significativa desse montante associada ao setor da construção.

A Procuradoria Especial Anticorrupção da Albânia (SPAK), criada em 2016 e amplamente respeitada pelos manifestantes, está atualmente a investigar o caso relacionado com o investimento em terrenos a norte de Zvernets. Os bancos congelaram os fundos utilizados nas transações imobiliárias.

Os «Flamingos» não ficaram apenas em Tirana. Em poucas semanas, o símbolo de um protesto que começou como oposição a um investimento controverso em áreas protegidas da Albânia atravessou fronteiras e continentes. Na Europa, membros da diáspora albanesa saíram à rua em Atenas, Berlim, Viena, Munique, Colónia, Estugarda, Haia, Estrasburgo, Oslo, Odense, Bolonha, Génova e Faenza, entoando o mesmo slogan: «A Albânia não está à venda.»

Movimentos nos Balcãs travam megaprojetos imobiliários

Na Croácia, registou-se um caso semelhante na colina de Srđ, em Dubrovnik, onde estava previsto um grande empreendimento turístico centrado num complexo de golfe. O projeto era promovido pelo investidor israelita Aaron Frenkel, através da empresa Razvoj Golf, e previa a construção de dois campos de golfe, dois hotéis, 240 moradias e 400 apartamentos numa área de 310 hectares, num investimento estimado em cerca de mil milhões de euros.

Anunciado pela primeira vez em 2006, o projeto acabou por ser abandonado após uma forte contestação da população local e o envolvimento de organizações ambientalistas nacionais na campanha Srđ je naš («Srđ é nosso»), iniciada em 2010. Um exemplo ainda mais marcante encontra-se na Sérvia, onde os movimentos que se opõem ao projeto da empresa Rio Tinto para explorar lítio conseguiram unir residentes locais, nacionalistas de direita e ativistas ambientais numa causa comum. Um ambiente semelhante pode ser observado, com frequência, nos movimentos que lutam pela proteção dos rios na Bósnia e Herzegovina.

Na Roménia, um projeto imobiliário denominado Trump Tower, na cidade de Cluj-Napoca, recebeu recentemente aprovação urbanística para a segunda fase da sua construção. O empreendimento prevê complexos residenciais, uma torre hoteleira com até 30 andares e um campo de golfe. Eric Trump participa no projeto através da Trump Organization. O The New York Times assinalou que este desenvolvimento associará a marca «Trump» a apartamentos de luxo e a um campo de golfe situados nas proximidades de um bairro informal onde comunidades ciganas foram, na prática, deslocadas e obrigadas a viver junto de resíduos tóxicos.

Este projeto reacendeu as preocupações relativamente aos custos sociais dos grandes investimentos estrangeiros de elevado perfil quando são realizados sem salvaguardas suficientes para proteger as comunidades mais vulneráveis e o ambiente.

Este artigo foi originalmente publicado na Efsyn, no contexto do PULSE, uma iniciativa europeia de apoio a colaborações jornalísticas transfronteiriças. Contou com a colaboração de Giovanni Vale, Nicola Pedrazzi, Ines Martinez Velasco, and Jackie Berger (OBCT - Itália).

Esta é uma versão mais curta, traduzida de Voxeurop.

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