Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de João Teixeira Lopes

Uma mesquita digna para o Porto

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Teixeira Lopes defende que o Porto deve garantir espaços de culto dignos para a comunidade muçulmana, criticando os recuos políticos que impediram a construção de novas mesquitas.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Sou um ateu empedernido e defendo a ideia, alicerçada em pilhas de observação antropológica e reflexão filosófica, que foi a humanidade que criou as divindades e não o contrário. Vulnerável perante a finitude, o homem inventa a religião para lidar com uma angústia insuportável e com as agruras materiais de uma vida dura. Simpatizo com a convicção marxiana de que a religião é o ópio do povo, anestésico para o sofrimento da exploração quotidiana, ingrediente, pois, da docilização e do conformismo. Não tive a graça, ao contrário de Byung-Chul Han, de celebrar uma epifania que, na contemplação e silêncio da Igreja dos Congregados, no Porto, o colocou, há três anos, na senda do divino. 

Contudo, não sinto nenhuma superioridade moral, nem pretendo ser proselitista do ateísmo e defendo acerrimamente o direito à prática religiosa. Não se percebem, por isso, as dificuldades levantadas às populações islâmicas que residem no Porto (cerca de sete mil pessoas). Na minha cidade existem duas mesquitas (até porque a comunidade muçulmana, ao contrário da simplificação estigmatizante, está longe de ser homogénea, como os católicos ou os protestantes são diversos): o Centro Cultural Islâmico do Porto, na Rua do Heroísmo e a Mesquita da Associação Comunidade do Bangladesh do Porto, na Travessa do Loureiro, ambos espaços exíguos perante a massa de fiéis. Esta última está mesmo ameaçada de encerramento pelos interesses imobiliários que detêm o espaço (a cidade especulativa não conhece outro valor além do lucro, mesmo que os poderosos se benzam nas homilias dominicais com fervor de hipócritas diplomados). 

Sem coragem para enfrentar a vaga xenófoba, Rui Moreira recuou na cedência, em direito de superfície, de dois imóveis municipais para a construção de duas mesquitas: uma destinada ao já referido Centro Cultural Islâmico do Porto e outra à tal Associação da Comunidade do Bangladesh do Porto. Pedro Duarte, sob uma retórica laica, recusa facilitar o uso de património municipal para o efeito, igualmente receoso da hegemonia do pensamento de ódio. Nem um nem outro com a fibra para enfrentar o preconceito reinante.

Vão estas pessoas espalhar-se por garagens ou espaços ínfimos e indignos, numa urbe que os chama para os trabalhos duros e mal pagos, mas que desiste de facilitar a sua integração, único processo capaz de gerar inclusão, respeito e dignidade. 

Tem o Porto inúmeras igrejas católicas, protestantes, de todos os credos, uma bela sinagoga. Professassem uma destas religiões e mil portas se abririam. São muçulmanos e um mar de dificuldades sobre eles se abate, o anátema de imigrantes pobres, infiéis e perigosos. A laicidade do Estado não implica indiferença perante a liberdade religiosa,exige precisamente igualdade de tratamento entre confissões.

Merecia este tema um movimento, um protesto amplo, unindo religiosos e ateus, numa cidade que gosta de se representar como aberta e calorosa. Para todos os que acreditam, a cidade dos homens deveria poder comunicar com a cidade de Deus, qualquer que seja o seu nome e imagem.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

29 Junho 2026

Em Beco sem Saída, a arte de um grupo de mulheres mistura-se com as suas dores

26 Junho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

22 Junho 2026

Diogo Vasconcelos: “Quando as pessoas sentem medo, começam a procurar respostas simples para problemas muito complexos”

19 Junho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

12 Junho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

8 Junho 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Luz Venceslau sobre o ensino superior

5 Junho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

2 Junho 2026

Do livro

29 Maio 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Luz Venceslau sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0