Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Violência de género: quando uma novela gráfica abre a conversa que algumas escolas evitam

Uma história sobre aborto disfarçada de extração de um dente do siso. Relatos de assédio que as raparigas reconheceram imediatamente e alguns rapazes consideraram exagerados. E escolas que recuaram perante o receio da reação das famílias em abordar temas conotados com a sexualidade. O projeto Genteel — Novelas Gráficas Contra a Violência de Género levou cinco obras a alunos do ensino secundário.

Texto de Cátia Vilaça

Edição de Tiago Sigorelho

Fotografia cedida por Nicoletta Mandolini

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Na sala de aula, rapazes e raparigas discutiram masculinidade tóxica e assédio na rua. Perante as mesmas histórias, alguns rapazes identificavam exageros, enquanto que as raparigas reconheciam situações que faziam parte da realidade. A história é relatada por Nicoletta Mandolini, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, que acrescenta que “uma dessas conversas foi longa, de cerca de duas horas, o que diz muito sobre a vontade que eles têm de falar sobre estas questões”.

Estas e outras conversas partiram de novelas gráficas, a base do Genteel — Novelas Gráficas Contra a Violência de Género, de que Nicoletta é investigadora principal.

Quando o projeto arrancou, o objetivo era levar um conjunto de novelas gráficas em língua portuguesa a três escolas do norte de Portugal - Braga, Porto e Vila Verde, informação que ainda consta do site do projeto - como forma de suscitar debates sobre violência de género entre os alunos. Mas “quando a escola de Braga viu as novelas gráficas, comunicou que tinha de desistir do projeto”, descreve Nicoletta ao Gerador.

Entre o início do projeto e as visitas às escolas, deu-se também a retirada da Educação Sexual das Aprendizagens Essenciais da disciplina de Cidadania e, numa fase inicial, Nicoletta achou que o projeto seria uma forma de proporcionar a alguns alunos contacto com o assunto, ainda que por outra via. Mas recebeu um rotundo não de uma docente: “Foi-me dito, por exemplo, que essa não é a língua que se ensina, o português que se ensina em Portugal, foi-me dito que os alunos e as alunas de 16 anos são crianças, num claro processo de infantilização de pessoas que já são jovens adultos, e que são novelas gráficas pornográficas”. Depois, havia medo da reação dos pais. Face a esta recusa, a equipa contactou uma escola da zona de Barcelos, que após um primeiro momento de aceitação, acabaria por declinar participar no estudo, não só porque o tempo disponível já era mais reduzido, mas também pelo motivo apresentado em Braga: “o medo das reações que estas abordagens e as questões de género e sexualidade podem causar nos alunos e, sobretudo, nos pais dos alunos”, descreve a investigadora. 

O projeto avançaria, assim, com 20 alunos (10 rapazes e 10 raparigas) de uma escola secundária do Porto e outra de Vila Verde. Feito o mapeamento das novelas com potencial interesse, a equipa de investigação, composta por Nicoletta Mandolini e Cristina Álvares, Ece Canli e Alice Balbé, da Universidade do Minho, além de Daniel Cardoso, da Universidade Lusófona de Lisboa, selecionou cinco obras para serem lidas pelos estudantes. A equipa conduziu entrevistas individuais com os alunos para recolher dados sobre as reações e a consciencialização estimulada pelas obras, tendo depois sido promovidas discussões de grupo.

Para além do assédio e da masculinidade tóxica, também se debateu a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), ainda que o pretexto não fosse óbvio: a novela gráfica “Juízo” apresenta o tema como se se tratasse da extração de um dente do siso. “Não há muitas diferenças, só que uma é extremamente estigmatizada e a outra não. Por uma, tu podes morrer, pela outra, muito provavelmente, não”, compara a investigadora. Muitos alunos não captaram o tema subjacente, posteriormente explicado durante as entrevistas individuais. Nas discussões de grupo, falou-se sobre o assunto, embora as perspetivas não divergissem substancialmente. Rapazes e raparigas mostraram-se alinhados no levantamento de problemas éticos em torno da IVG, algo que Nicoletta Mandolini atribui ao grau de estigmatização sobre o assunto, que se faz sentir sobretudo nas mulheres, mais “doutrinadas” sobre o seu papel na sociedade e sobre o simbolismo de uma gravidez. Ainda assim, a investigadora sublinha que se tratou de uma discussão entre um reduzido número de alunos, pelo que não é possível, a partir daqui, tirar conclusões generalizadas sobre o posicionamento dos jovens acerca deste assunto.

Nicoletta Mandolini. Fotografia cedida pela própria

A abordagem desafiante da novela gráfica

A banda desenhada e as novelas gráficas não foram sempre objeto de estudo para Nicoletta Mandolini, mas a violência de género e outras formas de discriminação de género são os principais tópicos sobre os quais a investigadora em Estudos Culturais e de Media se tem debruçado. Em 2019, a italiana doutorou-se pela University College Cork, da Irlanda, com a tese "Femminicidio Narratives: The Italian Narrative Discourse on Lethal Gender Violence between Journalism and Literature. O objetivo era perceber de que forma a literatura e o jornalismo italianos desafiavam, ou pelo menos representavam, a questão do feminicídio. Embora trabalhasse sobre textos literários e jornalísticos, a pesquisa levou-a a cruzar-se com duas novelas gráficas sobre o tema. Na altura, ficaram na gaveta, mas o pós-doutoramento foi a oportunidade para as retomar. Percebeu que, num país onde o tema do feminicídio está muito presente nos discursos mediáticos - algo que explora na sua tese - não havia apenas duas novelas gráficas sobre o tema, havia muito mais novelas e banda desenhada. E isso traz novas perspetivas, porque enquanto nos livros ilustrados, palavra e imagem se descrevem mutuamente, neste tipo de obras isso pode acontecer, mas também pode haver uma contradição. “Acho isso muito interessante quando se trata da representação da violência de género”, afirma a investigadora, sobre o potencial para desconstruir simplificações normalmente rígidas na representação da mulher apenas enquanto vítima.

Fotografia cedida por Nicoletta Mandolini

De facto, o problema é complexo e estrutural, com custos quantificados. Só em Portugal, estima-se que a violência de género represente um encargo para o Estado de 8,4 milhões de euros, de acordo com um estudo de 2021 do European Institute for Gender Equality. Estes custos, que à escala dos 27 países da União Europeia ascendem a mais de 366 milhões de euros, estão relacionados com despesas de saúde, legais e em serviços especializados de apoio.

Por outro lado, o aumento do consumo de novelas gráficas e de banda desenhada cria oportunidades acrescidas de abordar a questão por esta via. Como notam Nicoletta Mandolini e Cristina Álvares no artigo Quadrinhos Resistentes — Novelas Gráficas Contra a Violência de Género no Mundo Lusófono: Um Mapeamento, publicado este ano na Revista Lusófona de Estudos Culturais, Portugal mostrou um aumento das vendas de 73% em 2021. 

A escolha das obras para o estudo teve em conta dois critérios principais: conformidade com a definição de novela gráfica adotada e relevância da violência de género na narrativa. E aqui, importa distinguir banda desenhada de novela gráfica. Conforme Nicoletta explicou ao Gerador, há quem considere a novela gráfica apenas um formato editorial de mercado, mas há quem a considere um meio distinto da banda desenhada. A equipa optou por uma definição abrangente, mas fez uma distinção entre a produção em vários volumes associada à banda desenhada e o caráter mais conclusivo da novela gráfica (ainda que possa existir mais de um volume), necessário para um projeto com uma duração total de 18 meses. Outra distinção é o caráter autoral mais evidente da novela gráfica, por contraste com a banda desenhada, onde a autoria está associada a uma equipa. 

Depois, o contexto lusófono era importante pela proximidade linguística, e a produção significativa deste tipo de obra no Brasil fez-se sentir na escolha final, com quatro novelas do Brasil e uma de Portugal (Manda Mensagem Quando Chegares, da autoria de R.G.B). O escasso tempo disponível não permitiu uma exploração geográfica mais ampla, tendo os PALOP ficado de fora. 

Apesar do foco na lusofonia, Nicoletta Mandolini faz questão de evidenciar uma visão crítica sobre o termo, que se estende ao seu centro de investigação, onde o conceito não é visto de forma desligada da herança colonial que o atravessa. Não se trata, por isso, de o encarar enquanto unidade linguística e cultural acrítica, mas de compreender o espaço para o conflito que lhe está implícito.

Durante o evento final do projeto, que aconteceu em julho na Universidade do Minho, foi lançado o “Graphic Handbook”, de Marco D’Alessandro e Antonio Mirizzi, que reúne boas práticas para utilizar as novelas gráficas na sensibilização contra a violência de género. O recurso, em banda desenhada, ainda está a ser trabalhado (embora já haja uma versão preliminar disponível no site do projeto), e vai conter orientações para implementar a introdução de novelas gráficas sobre violência de género nas escolas portuguesas.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

21 Agosto 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

19 Agosto 2026

Eliana Alves Cruz, Mynda Guevara, Hilda de Paulo, Alberto Manguel e muito mais na Festa do Livro da Amadora

18 Agosto 2026

Porque desistimos de pensar no futuro?

17 Agosto 2026

Julian Peschel: «Um aspeto muito importante de trabalhar com dados de satélite é compreender que se trata, de facto, de dados, e não de imagens»

14 Agosto 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

10 Agosto 2026

Marcha Gualteriana: 120 anos a levar Guimarães para a rua

7 Agosto 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

4 Agosto 2026

A regularização extraordinária de imigrantes em Espanha

3 Agosto 2026

Lançada petição para romper o silêncio sobre a Exposição Colonial do Porto de 1934

31 Julho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0