Em 1968, o ecologista Garret Hardin popularizou o conceito da tragédia dos comuns, a partir de um artigo escrito para a revista Science. Nele, Hardin desenvolve uma elaborada alegoria que envolve um pasto comunitário e vários criadores de gado que fazem uso dele. No hipotético cenário, enquanto o equilíbrio for assegurado, todos tiram partido do bem comum que o pasto representa. Mas como cada indivíduo procura maximizar, de forma independente, os seus benefícios, os criadores de gado terão tendência a explorá-lo acima da quota que lhes cabe. Um processo que se auto-alimenta e dificilmente regride: a partir do momento em que um indivíduo se adianta, os outros serão impelidos a igualar ou a aumentar a parada, e assim sucessivamente. Desta forma, a sustentabilidade do pasto é, claro, colocada em causa. O desfecho previsível, esse, é trágico: esgota-se o recurso partilhado. No fim, todos acabam por perder.

Sem surpresa, esta alegoria tem eco sonante em áreas em que os recursos são finitos e a sobreexploração de uns coloca em causa o interesse de todos. A ecologia é, naturalmente, dos casos mais evidentes, mas o princípio moral é extrapolável para situações mais abstractas: da corrida ao armamento à evolução da densidade populacional, e por aí adiante. Com um pouco de atenção, encontramos o mesmo efeito também em contextos mais mundanos. Pensemos, por exemplo, nas séries de televisão bem sucedidas: à medida que os índices de popularidade sobem, os actores são tentados a renegociar progressivamente os seus salários, até que, não raras vezes, a folha salarial acaba por ultrapassar o limite da rentabilidade. O resultado é o que conhecemos: as séries são canceladas prematuramente e todos saem a perder, actores incluídos.

Como se percebe, a sequência trágica de Hardin é mais comum do que aquilo que, na nossa autopercepção altruísta racionalizada, gostaríamos de acreditar. Mas a razão pela qual aqui a evoco não se resume a uma simples curiosidade prosaica. De um modo profundo, vejo na alegórica tragédia dos comuns um vislumbre inquietante dos perigos do desenvolvimento desinteressado e insensível que a aceleração capitalista produz. Não apenas nas dinâmicas circunscritas ao processo económico, mas sobretudo na reverberação que projecta, irremissivelmente, na sociedade.

A aritmética do progresso

Com a devida cautela, sou da opinião de que as economias de mercado têm, em muitas dimensões, um papel determinante, e nada menosprezável, no aumento contínuo e consistente da qualidade da vida humana, bem como na salvaguarda do ideal democrático. Um papel que deve não só ser reconhecido, como, mais importante, preservado.

Porém, tal como sugeriu Hardin, o equilíbrio idealista de benefícios partilhados é uma conjuntura de sustento frágil. Um estado de graça permanentemente ameaçado pela inevitabilidade humana do impulso egoísta. Ora, quando olhamos com distância crítica para a evolução da formulação capitalista, da era industrial aos dias de hoje, torna-se evidente que foram os desígnios mais individualistas — a maximização do lucro, por um lado, a privatização do consumo, por outro — aqueles que mais se aprofundaram. O egoísmo imediatista prevaleceu, suportado, em grande parte, por uma interpretação abusiva e interesseira da função do interesse próprio com que Adam Smith arquitectava o bem comum. No processo, o interesse colectivo foi progressivamente sufocado por um mercantilismo extractivo e acumulador, tão centrado em si mesmo, quanto desinteressado do outro. E em vez de um progresso partilhado — ou soma positiva —, como projectava Smith, caímos numa indisfarçável espiral de soma nula: para uns ganharem, outros têm de perder.

Já naquela que é a sua mutação mais recente, precipitada pelo inevitável potencial da economia digital, o ímpeto capitalista tem apenas confirmado essa tendência individualista extractiva. Bem para lá das amarras do mundo material, o capitalismo da vigilância — como lhe chama, muito certeiramente, Shoshana Zuboff — inaugurou a era da transacção comportamental: a era em que o hábito, a atitude, a idiossincrasia humana, são matéria-prima mercantilizável e altamente rentável. A promessa de conhecimento positivo que legitimava a big data transformou-se num novo mercado compulsivo de privacidade obliterada. Aos efeitos perversos de longo prazo, colocou-se o muito convenientemente rótulo da inevitabilidade. Como resultado, entre a inconsciência, a inércia e a impotência, renunciámos, colectivamente, quotas da nossa soberania intelectual individual que deviam ser inegociáveis, em nome de pouco mais do que conveniência. Novamente, para uns ganharem, outros têm de perder.

Como já aqui o sugeri, acredito que o esforço para contrariar a espiral descente que o ímpeto capitalista tende a desenhar começa na educação do consumidor-cidadão. E isso implica, como tenho defendido, um investimento colectivo nas áreas que melhor desenvolvem e alimentam o pensamento crítico: da cultura à educação de largo espectro, do jornalismo independente à produção científica autónoma.

Mas o que Hardin nos mostra, com simplicidade cruel, é o que acontece se não o fizermos a tempo e com determinação. Independentemente dos méritos ímpares do mercado livre, os seus benefícios só serão verdadeiramente positivos enquanto o equilíbrio do pasto comunitário for assegurado. Enquanto se preservar o bem comum. Ora, para não hipotecarmos irreversivelmente o nosso futuro colectivo, temos de reflectir, com urgência, se o imperativo do crescimento perpétuo que empurra o ímpeto capitalista para uma demanda desenfreada pela maximização do lucro — e com o qual somos todos coniventes — não será, de facto, a espiral que nos conduz a uma tragédia real. Porque a democracia sobreexplorada, seja pela desigualdade material ou pela submissão intelectual, é, também ela, um recurso partilhado finito. O abuso de uns coloca em causa o interesse de todos. E esse, não tenhamos ilusões, é um jogo de soma negativa. No fim, todos acabaremos por perder.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

– Sobre João Campos –

É director criativo do Estúdio João Campos, onde colabora com marcas comerciais e instituições culturais, e autor do livro Marca Positiva (Influência, 2019). Dá aulas de branding no ISCSP-ULisboa e no IADE. Acredita que a Cultura, pelo seu potencial humano e social, é um dos melhores companheiros de viagem para as marcas de hoje e, sobretudo, para as marcas do futuro. É sobre isso que escreve no Gerador.

Texto de João Campos
Fotografia de Carlos Rocha
gerador-a-dois-tempos