Há algumas centenas de anos, quando Alexandria era o epicentro do conhecimento humano, Ptolomeu I terá perguntado a Euclides se não existia uma forma simples de aprender geometria. O então rei do Egipto procurava evitar a leitura completa de Os Elementos, um extraordinário compêndio organizado pelo matemático grego que sistematizava, em treze volumes, tudo o que, à época, se sabia sobre matemática. Porém, a resposta foi impassível: «Não existe estrada real para a geometria». Com uma astuta referência à ilustre Estrada Real — construída por Dario I, séculos antes, para facilitar a comunicação ao longo do vasto Império Persa —, Euclides explicava ao Rei que o conhecimento não podia ser atalhado. Não era uma jornada possível de se desenhar sobre caminhos fáceis e distâncias curtas. Ora, tivesse Ptolomeu feito a pergunta hoje e ter-lhe-iam sido sugeridas aplicações de telemóvel que resumem, em quinze minutos, todo o género de livros, cursos que formam especialistas em apenas quatro horas de aulas e muitos clips de sabedoria absoluta, condensada em escassos minutos de vídeo. Contrariando o melhor discernimento de Euclides, o que não faltam aos nossos dias são estradas reais. Porém, a corrida desenfreada pelo instantâneo — a corrida em que, com maior ou menor intenção, grande parte da actividade humana parece estar hoje inscrita — compreende perigos que, apesar de pouco evidentes, são profundos e efectivos. É que na urgência de chegar mais rápido, corremos o risco de saltar as etapas que nos permitem ir mais longe. Euclides, pai da geometria, sabia-o bem.

O desejo de vencer o tempo, não sendo uma aspiração humana propriamente nova, surge agora reforçado — e incentivado — pela lógica utilitarista em que opera o mercado. Tempo é dinheiro, diz-se com prontidão e ligeireza, alastrando a medida do material muito para lá do estritamente económico. É verdade que são vários os argumentos a favor de um presente apoiado na enérgica dinâmica do mercado. Afinal, experimentamos confortos sem precedentes, impossíveis de desconsiderar sem hipocrisia, que, de outra forma, seriam improváveis. Porém, é também prudente questionar, atentamente, até onde pode esta medida do tempo útil ser aplicada e dilatada, antes de começar a corroer as potencialidades únicas do espírito humano. O humano-máquina, eficiente e inteligível, expande o presente com diligência reconhecível — não há disso dúvida. Mas, como diria André Barata, não constrói futuros. Essas sementes são plantadas nos intervalos do mercado, quando o resultado instantâneo não asfixia a imaginação e a criatividade. Quando o atalho não fragiliza o engenho e o conhecimento. Enfim, quando a corrida contra o tempo pára e há tempo para ser, novamente, humano.

A utilidade para lá da estrada real: argumentos em nome da Cultura

Não pode surpreender que, numa sociedade iludida pelo atalho útil, a actividade cultural assuma um papel secundário, quando não de figurante. Para lá do imediatismo tangível do entretenimento, as provas da função edificadora da Cultura não gozam de objectividade semelhante à promessa utilitária que se espera de qualquer investimento. Na azáfama contemporânea, o tempo cultural é, pois, o tempo do inútil e do supérfluo, do capricho e da indulgência. É o tempo que se coloca à margem das estimadas estradas reais.

Porém, ainda que o mercado não o reconheça, e que a sociedade se permita esquecer, o desenvolvimento humano, biológico e social, é produto único de inúmeros compassos de espera. E esses compassos de espera, apesar de imateriais, são peça fundamental no crescimento individual e no progresso colectivo.

Recordemos, por exemplo, que comparativamente a outras espécies animais, o ser humano requer um longo período de maturação. Trata-se de um tempo indispensável para o cérebro estabelecer e consolidar as ligações neurais que alicerçam as nossas funções mais complexas — da desenvoltura motora às capacidades cognitivas. A maior curiosidade aqui é que a actividade lúdica das crianças é providencial neste processo de estabilização neural. Por outras palavras, brincar de forma não estruturada é das primeiras actividades de inutilidade aparente, mas de utilidade imprescindível. Não se pode pesar em unidade certa, mas não há dúvida quanto à sua importância absoluta: sem ela, o potencial humano ficaria por revelar.

No mesmo sentido, também a educação — sobretudo aquela a que temos acesso nas duas primeiras décadas de vida — cumpre um papel substantivo no desenvolvimento humano, sendo, contudo, uma jornada maioritariamente invisível aos olhos do mercado. Além da aquisição formal de competências — essas de retorno fácil de mapear —, a educação informal, responsável pela formação do carácter cívico e humano, não tem métrica evidente, não gera lucro material, mas é nela que se apoia a espessa teia social com que todos contamos. Mercado incluído. Mas para que tal demanda possa vingar, não pode também ela ser erguida com recurso às tentadoras estradas reais, de distâncias curtas e materialidades instantâneas. Afinal, este é o tempo do aprender para ser, não do aprender para ter — outra utilidade aparentemente inútil.

Ora, a Cultura, no seu desígnio mais profundo de edificação do espírito humano, inscreve-se, precisamente, nesta lógica paralela — mas não avessa — ao mercado, que começa nas brincadeiras de criança e prossegue com a educação na adolescência. Aquilo a que podemos chamar de tempo da utilidade invisível. É neste tempo, para lá da dimensão do entretenimento, que o propósito maior da Cultura se cumpre. É neste tempo que se desafiam visões do mundo, que se combatem preconceitos e que se constroem pluralidades. É neste tempo que se alimenta a curiosidade humana, que se fomenta o espírito crítico e que se expandem os horizontes da criatividade. É neste tempo que se combate a infantilização da sociedade, que se contraria a superficialidade das relações humanas e que se consolida o sentido do projecto comum. É neste tempo que, enfim, voltamos a (re)encontrar todos os recursos fundamentais para a construção de uma sociedade próspera e saudável. Recursos que a urgência utilitarista é pródiga em fazer-nos saltar, como se de um dispensável genérico de uma série se tratasse.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

– Sobre João Campos –

É director criativo do Estúdio João Campos, onde colabora com marcas comerciais e instituições culturais, e autor do livro Marca Positiva (Influência, 2019). Dá aulas de branding no ISCSP-ULisboa e no IADE. Acredita que a Cultura, pelo seu potencial humano e social, é um dos melhores companheiros de viagem para as marcas de hoje e, sobretudo, para as marcas do futuro. É sobre isso que escreve no Gerador.

Texto de João Campos
Fotografia de Carlos Rocha
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