Portugal teve 52 dias com os estabelecimentos de ensino encerrados. Foi no dia 21 de janeiro que ficou aprovado, em reunião de Conselho de Ministros, o encerramento de todos os estabelecimentos de ensino, do pré-escolar às universidades. 50 dias depois, anunciou-se a reabertura destes estabelecimentos, a começar pelas creches, pré-escolar, 1º ciclo e estabelecimentos de ATL para as mesmas idades, seguidas, mais recentemente, pelos 2.º e 3º ciclos.

Se, por um lado, o encerramento dos estabelecimentos de ensino permitiu evitar e reduzir a incidência de novos casos provocados pela Covid-19, por outro, potenciou graves problemas no desenvolvimento educacional, realçando as desigualdades de oportunidades de aprendizagem, e prejudicou a saúde mental das crianças e dos jovens, como demonstra, por exemplo, um estudo realizado por uma equipa da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, que verificou um aumento de emoções negativas, como tristeza, medo e raiva, e de sintomas de ansiedade e uma descida da felicidade, em adolescentes, antes e depois da pandemia de Covid-19. Decerto que ainda é cedo para determinar qual o impacto desta abstenção nas crianças e jovens, mas já se falam em problemas de ansiedade, humor e depressão e o futuro ainda nem chegou.

Adaptar o ensino presencial para o online é uma tarefa, embora pareça simples, muito complicada, uma vez que além de mobilizar muitos alunos e professores, exigem-se recursos que muitas vezes não existem ou são limitados, como computadores e o acesso à internet. Ora, as escolas, além de locais de aprendizagem, são locais de socialização onde as crianças interagem umas com as outras, potenciando o desenvolvimento psicomotor de competências básicas. No online, esta socialização não é possível e, num futuro próximo, vamos vislumbrar estas consequências. Contudo, é aqui que as atividades extracurriculares podem desempenhar um papel fulcral e falo, mais especificamente, naquelas que estão ligadas à música.

São vários os estudos que destacam os benefícios da música na educação e desenvolvimento das crianças e dos jovens. A música estimula o desenvolvimento cognitivo, nomeadamente na inteligência espacial, na confiança, no sucesso escolar e na criatividade, o desenvolvimento físico e motor, onde há a promoção de saúde e bem-estar, e o desenvolvimento relacional, social e emocional, com o aumento da auto-estima, coesão social e sociabilidade.

A audição de música, e em especial a prática musical, ativa múltiplas áreas cerebrais em simultâneo, em especial o córtex motor, visual e auditivo, criando ligações entre os dois hemisférios de uma forma muito mais rápida. A música de conjunto, como praticada na Orquestra Geração, sincroniza as nossas ações e emoções, torna-nos parte de um contexto, faz-nos ouvir os outros e sermos ouvidos, contribui para a coesão social, integra-nos e acolhe-nos, um sentimento essencial ao desenvolvimento de qualquer criança e que contribui enormemente para o seu crescimento e bem-estar, físico e emocional. Mesmo quando praticada em online, a música de conjunto promove um sentimento regenerador para o estudante e comunidade, contribuindo para a sua auto-estima e bem-estar. Como prática social, é encarada como um veículo importante para a formação de cidadania e de inclusão social, uma vez que promove o sentimento de pertença e o desenvolvimento da identidade de grupo.

A reabertura das escolas marca o início de uma luta contra os problemas de saúde mental das crianças e jovens, provocados pelo fecho dos estabelecimentos de ensino. O futuro avizinha-se desafiador, mas com uma luz ao fundo do túnel. Uma das soluções para este problema poderá muito bem ser a integração do ensino musical de conjunto nas áreas curriculares do ensino, uma vez que está provada como aliada no desenvolvimento pessoal e comunitário das crianças. Assim, se algum dia tivermos de voltar a integrar o ensino à distância, temos a garantia de que a música servirá como apoio pessoal e comunitário, minimizando o impacto que a distância física impõe. Como garantimos este apoio? Prosseguindo com as ferramentas que já construímos para enfrentar o trabalho e o ensino à distância, como continuar a formar professores para uma metodologia de ensino musical enquanto ação social, trabalhar em plataformas digitais fornecendo material pedagógico, para que os conteúdos possam estar sempre disponíveis para as crianças, e, claro, através do trabalho conjunto entre professores e alunos, de forma a garantir que além dos benefícios cognitivos são atingidos os benefícios relacionais e sociais.

-António Wagner Diniz-

António Wagner Diniz nasceu em 1954, em Lisboa. É licenciado em Economia pelo ISE (atual ISEG), detém um curso superior de canto, do Conservatório Nacional em Lisboa, e, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, obteve o diploma superior de canto de concerto e ópera da Academia de Música de Basileia (Suíça), posteriormente equiparado a licenciatura pela Universidade de Évora. Prosseguiu a sua carreira como cantor tendo atuado em praticamente todos os palcos portugueses, de concerto e de ópera, e em grandes salas internacionais como a Filarmonia, em Berlim, Teatro de la Monnaie, em Bruxelas, Teatro Municipal de Lausanne e Teatro de Ópera de Bienne na Suíça, Festival de la Granja, em Espanha, Festival de Ischia, em Itália, Fundação Menezes Braganza, em Goa, Istman Budaya, na Malásia e Tokyo Opera City Hall, no Japão. Foi diretor da Juventude Musical Portuguesa, membro do Bureau Internacional da Federação Internacional  das Juventudes Musicais, em Bruxelas, um dos fundadores do mítico Festival dos Capuchos, na Costa da Caparica, diretor do Conservatório Nacional, de 2000 a 2009, e, desde 2007, fundador e diretor do projeto Orquestra Geração. Colaborou com os cineastas Manoel de Oliveira, João Botelho, Paulo Rocha e Jorge Silva Mello e foi autor de diversas bandas sonoras para as peças de teatro da Cornucópia.

Texto de António Wagner Diniz