Maria Luísa Bliebernicht Ducla Soares de Sottomayor Cardia é uma escritora portuguesa de referência na literatura infantojuvenil. Vive das crianças, para as crianças, com as crianças e da criança interior que, no feliz patamar dos seus oitenta anos, ainda não perdeu. Só ganhou. E com ela, ganhamos nós, crianças, adolescentes, adultos, adultas, porque temos o talento e a sensibilidade ao serviço da geração que precisa de sonhar muito, pois serão os futuros inventores e inventoras do mundo que lhes entregamos fora da bandeja.

Atravessamos uma crise mundial profunda, com um vírus que se propaga numa velocidade galopante e invisível. Falámos à distância, e Luísa Ducla Soares passou-me um único vírus: o de escrever para crianças. Porque antes desta pandemia, já Luísa se apresentava publicamente como a escritora a quem lhe tinha sido tocado o vírus (bom) da literatura infantil, do qual nunca se curou e do qual não se curará por vontade própria e alheia. A proposta de mais uma crónica d’a palavra doutro é viajar, também numa velocidade galopante e invisível, entre a infância e a idade adulta, entre escritores e personagens, com as crianças ao leme, pois serão elas as estrelas guias deste caminho.

A voz de Luísa Ducla Soares é doce, confessou que também canta enquanto escreve, mas ao telefone Luísa não cantou. “Eu tenho uma voz de cana rachada, de forma alguma eu cantá-las [as coisas que escreve], mas gosto de cantar enquanto escrevo porque acho que a poesia nasceu com a música, por isso é que ela tem um ritmo, ela tem uma melodia, ela tem uma cadência. Eu gosto que a poesia volte às suas origens. Quando [Bob] Dylan recebeu o Prémio Nobel, eu fiquei muito contente. Não só porque o apreciava, como porque realmente foi uma maneira, mesmo para os jovens, que gostam tanto de canções, de verem que uma canção não é só música. Uma canção é também a poesia que a integra, aquilo é tudo um conjunto. É uma vivência que se sente, não só numa mensagem, mas através da música das palavras.” A sua ligação genuína com a música já valeu vários discos com letras suas. Um deles feito por uma escola de música do Porto, Os Gambuzinos, que se chama 25, com música de Susana Ralha, na altura da celebração dos vinte e cinco anos da escola, com vinte cinco canções, perto de uma comemoração do 25 de abril. Mais dez discos resultaram de uma parceria com o Daniel Completo, com temas como a ecologia, o corpo humano, lendas e romances ou figuras da história.

Não é por isso de estranhar que uma das obras escolhidas como referência por Luísa Ducla Soares tenha sido as Nursery Rhymes, poesia infantil em canção. Foi através das Nursery Rhymes que Luísa se aproximou da simplicidade da língua, da construção elementar, mas essencial. E fez o paralelismo com a realidade desta tradição no nosso país. “Nós não temos ligado, ao longo do tempo, às nossas tradições populares. Não serão tantas ou, pelo menos, não terão sido tão apreciadas como as dos ingleses porque nós não ligávamos à literatura infantil. A primeira pessoa que, em Portugal, ligou à literatura infantil foi o Eça de Queirós. Ele era diplomata, esteve vários anos em Inglaterra e, nas Cartas de Inglaterra (1905), ele tem uma carta em que fala das livrarias inglesas no Natal e da quantidade de livros maravilhosos que havia para crianças em Inglaterra, quando em Portugal não havia nada de semelhante. Ele dizia que, se realmente as nossas crianças tivessem acesso a algo parecido, elas seriam completamente diferentes.”

Perante a dificuldade de eleger uma obra de referência, porque foram várias, talvez na mesma medida dos cento e oitenta livros que já leva editados, Luísa Ducla Soares foi extraordinária na forma como apresentou várias personalidades ao longo da conversa. Senti-me paisagem de um conto, a observar a vida das personagens. “Foi o Antero de Quental que fez o Tesouro Poético da Infância (1883), o Guerra Junqueiro que escreveu Tragédia Infantil (1878), a Maria Amália Vaz de Carvalho e o Gonçalves Crespo que escreveram uma série de contos, alguns são adaptações do [Hans Christian] Andersen e outros originais, para crianças. Houve toda essa geração do Eça, que começou a escrever para crianças justamente por essa indicação dele. Ele nunca escreveu.”

“Eu sou uma maluca do Eça. Comecei a lê-lo logo no início da adolescência porque já não tinha livros suficientes para ler, também não havia bibliotecas municipais, pelo menos na minha zona. E lia-os [os livros do Eça], levava-os para a cama às escondidas, porque me proibiam de ler aquele género literário, levava uma lanterna, assim a luzinha estava apagada, ninguém via luz por baixo da frincha da minha porta. Eu li o Eça todo com uma lanterna debaixo dos lençóis, e li-o assim todo de seguida. Acho que me fez muitíssimo bem.” Das Nursery Rhymes, o tema abriu-se para Eça de Queirós – “palavra puxa palavra, não é?” – porque a vida de Luísa Ducla Soares se fez marcar fortemente pela obra do escritor, quer na biografia que fez sobre o autor português, quer na trilogia que lhe dedicou nas comemorações do centenário da sua morte, em 2000: Com Eça de Queirós à Roda do Chiado (1999), Com Eça de Queirós nos Olivais no Ano 2000 (2000) e Seis Contos de Eça de Queirós (2000). “Tive a pouca sorte de ter uma ciática, nunca tive mais nenhuma na vida a não ser naquela altura, então tive de ficar dezassete dias em casa e nessa altura pensei: Tenho cá o Eça em casa, vou relendo! Realmente, eu devo tanto a este homem, que ele merece que eu faça umas coisinhas por ele!”

Na mesma casa de onde Luísa não pôde sair durante dezassete dias estão oitenta mil livros, num peso que já abalou as vigas do prédio. Na sua vida, por conta dos trinta anos de trabalho na Biblioteca Nacional, foram mais de três milhões de obras. Nunca faltou leitura, nem ritmo de leitura, e os escritos ao serviço da língua portuguesa, dos escritores da língua portuguesa, foram muitos. Contam-se as biografias de Garcia de Orta, de Teixeira de Pascoaes, de Fernão de Magalhães, de Ferreira de Castro, (a tal de) Eça de Queirós e de José Rodrigues Miguéis. E nesta senda de investigadora de histórias de vida, esteve também a investigação de histórias da tradição portuguesa. Experimentem lá dizer depressa: ‘num prato de trigo, tragam três tigres’ ou ‘um limão, dois limões, mil limões’. Façamos o exercício para todos os trava-línguas portugueses e temos entretenimento, com humor, para os muitos dias que aí vem de recolha ao lar, alguns à família.

“Eu entrei para a Biblioteca Nacional para fazer a continuação de um livro sobre a História da Literatura Infantil em Portugal, foi por isso que eu fui para lá. Depois acharam que isso não interessava nem ao Menino Jesus, depois comecei a fazer exposições, depois, como sabia bastantes línguas, puseram-me numa informação bibliográfica a contactar com investigadores do mundo inteiro que me faziam perguntas de todos os assuntos possíveis de imaginar: era desde os mosquitos de Cabo Verde até à espada do Afonso Henriques, até à banheira da Madre Paula oferecida por D. João V, até a uma que me vi doida para descobrir – quem foi o primeiro escritor que escreveu sobre cangurus, para se chegar à conclusão se teriam, ou não, sido os portugueses a chegarem à Austrália antes dos ingleses. E tinha muitos investigadores que se interessavam por coisas folclóricas, até estranhamente muitos eram padres, padres da província. Tive de fazer muitas pesquisas sobre coisas folclóricas, comecei a interessar-me de tal maneira que, ao longo de sete anos, eu fui reunindo peças. Reuni trava-línguas, reuni lengalengas, imensíssimas, reuni histórias em verso, reuni anedotas porque também é uma forma de humor popular, que vem desde almanaques muito antigos. E, só com lengalengas, eu publiquei quatro livros.”

Entramos no mundo das lengalengas, de uma importância fundamental para as crianças. Também esta podia ter sido uma escolha de Luísa Ducla Soares, à semelhança das Nursery Rhymes, porque transportam a criança para universos imaginários, brincando, criando, sorrindo. “Algumas lengalengas são tão simples que têm que ver com movimentos e com o corpo. Há lengalengas que têm que ver com a cara, há lengalengas que têm que ver com os dedos da mão, lengalengas que têm que ver com os movimentos, o saltar, o correr. Há lengalengas exclusivas como esta: ‘Um-dó-li-tá/ Cara de amendoá/ Um soneto coloreto/ Quem está livre/ Livre está’ –, e isto faz escolher a criança que ficou livre, ou para ser ela no jogo da apanhada, ou outra coisa qualquer. As crianças apropriaram-se destas coisas para a vida de brincadeira. São também uma ligação de afetividade. E acho que é uma maneira de ligar a língua à afetividade, isso tem muita importância. Isto eram jogos antiquíssimos, mas que as crianças pequenas gostam bastante porque acham uma coisa engraçada. E é uma maneira também de as pessoas se interessarem ativamente pelas crianças. Ninguém sabe quem inventou as lengalengas, o que é certo é que elas entraram no ouvido das pessoas.”

Para uma menina que começou a escrever aos dez anos, cheia de vontade de escrever para adultos para superar o seu “estado de criança”, criou-se uma Luísa Ducla Soares rendida à arte de ser criança. É uma mulher sensível e consciente de que as crianças precisam que lhes sejam ouvidas as suas mágoas e as suas alegrias, que lhes sejam explicados os seus desentendimentos, que lhes sejam dissecados os grandes e os pequenos problemas dos seus mundos. Além do pai, figura incontornável da sua infância, da sua vida, e que sabia muita poesia de cor, e de uma professora muito especial de português, que fazia das aulas verdadeiras festas, com peças de teatro, a pessoa que levou Luísa para o universo infantil editado, logo após a publicação do seu primeiro livro Contrato (1970), um livro de poesia para adultos, foi José Saramago. A História da Papoila (1972), o seu primeiro livro de literatura infantil, valeu-lhe o Grande Prémio de Literatura para a Infância Maria Amália Vaz de Carvalho, que Luísa Ducla Soares recusou por motivos políticos, porque Portugal ainda vivia sob censura, o que agradou a José Saramago, desafiando-a a escrever mais. Até hoje, sem se cansar.

A sua veia ativista e de defesa dos direitos humanos, de valores universais de liberdade, de igualdade e de paz, começou num livro infantil de Adolfo Simões Müller que falava sobre a vida da grande cientista Madame Curie, A Pedra Mágica e a Princesinha Doente, integrado na coletânea Gente Grande para Gente Pequena. E, com esta obra e com este autor, entramos na terceira referência que Luísa Ducla Soares nos trouxe. “Ele [Adolfo Simões Müller] narrava a história de uma pessoa que, de certo modo, foi para mim uma heroína e, ao mesmo tempo, ela não era propriamente uma feminista. Ela era uma pessoa que tinha interesses científicos, lutava por aquilo que lhe interessava, sofreu imenso ao longo da vida dadas as circunstâncias sociais da época.” Para a menina mulher natural de Lisboa, ter acesso a esta história de vida ainda adolescente foi a concretização de que se pode sonhar e conseguir, mas que isso comporta muito trabalho e muita luta. “A escrita dele [de Adolfo Simões Müller], hoje, não me agradaria porque acho que o estilo dele está um pouco ultrapassado, mas as mensagens que ele me passou foram muitíssimo importantes. Ela [Madame Curie] podia ter ficado milionária porque os laboratórios americanos ofereceram-lhe fortunas pela sua descoberta, e ela disse que pertencia à humanidade, que nunca iria vender a fórmula de radioatividade. Eu acho que estas coisas também formam as pessoas.”

Foi muito interessante perceber que Adolfo Simões Müller e Luísa Ducla Soares têm muitas passadas em comum. Mais interessante se tornou quando a própria Luísa não se tinha apercebido das semelhanças. Adolfo Simões Muller começou por entrar na Faculdade de Medicina e desistiu, optando por uma carreira literária dedicada ao público infantojuvenil. Luísa Ducla Soares também gostava muito de Ciências Naturais, mas acabou por escolher Filologia Germânica. Adolfo fez uma coletânea de biografias de várias pessoas marcantes na sociedade, dirigidas a crianças e jovens. Luísa fez biografias de outras tantas pessoas e adaptação de contos de autores consagrados para crianças e jovens. Adolfo Simões Muller e Luísa Ducla Soares foram ambos vencedores do Grande Prémio de Literatura Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian. Adolfo Simões Müller recebeu o Grande Prémio de Literatura para a Infância Maria Amália Vaz de Carvalho, Luísa recusou-o. Conheceram-se, mas já Adolfo era muito velhinho (“eventualmente da minha idade!”), e Luísa guarda-lhe uma imagem de extrema gentileza, de uma delicadeza cortês, e de encantador. Mas continua a sentir mais a marca do escritor, pois foi esse que a bem formou ainda muito nova.

O olhar atento sobre o que a rodeia permitiu que Luísa Ducla Soares se debruçasse também sobre questões sociais, sobre a pobreza e sobre a injustiça (O Sultão Solimão e o Criado Maldonado, 1982), sobre a guerra (O Soldado João, 1973), sobre descobertas (A Cavalo no Tempo, 2003). Destaco o livro Meninos de Todas as Cores, integrado na coletânea Oito Histórias Infantis (1975), que resultou de um episódio a que Luísa assistiu numa visita a uma escola, onde um menino forçava a cabeça de outro contra a parede e, porque era preto, a professora não julgava que fosse motivo de repreensão. Horrorizada com tamanha injustiça e discriminação, escrever foi o ato que esteve ao seu alcance. Meninos de Todas as Cores foi traduzido para várias línguas e correu mundo através do trabalho da UNICEF e da OIKOS, que organizaram uma maleta pedagógica baseada nesta obra.

Esta ligação aos seus leitores e leitoras, às suas crianças, com o tamanho respeito que lhes dirige, faz de Luísa Ducla Soares uma escritora com uma doçura fora do comum, com uma proximidade familiar a crianças que desconhece. Imagina-se que a ligação acontece porque a naturalidade da infância está presente em Luísa independentemente da idade que foi tendo, mas foram os muitos anos a escrever histórias para o irmão dez anos mais novo, quando Luísa ainda era adolescente, que a preparou para a pessoa que se veio a tornar. Veja-se a entrevista que dá à Rádio Escolar do Colégio Bernardette Romeira ou a entrevista que dá à VISÃO Júnior, feita por entrevistadores selecionados na iniciativa Conheço Um Escritor, que a VISÃO Júnior promoveu em 2011. Vejam-se também as fotografias que Luísa tirou para o Gerador, mostrando alguns dos presentes que foi recebendo e que guarda numa sala exclusivamente dedicada às ofertas “das suas crianças”.

“Eu até me sirvo das crianças, eu vou às escolas e as crianças pensam, e os professores pensam também, que isto é uma dádiva que o escritor faz a uma escola ou a uma turma, levar a sua palavra, a sua obra. Na realidade, nós também aprendemos muito com eles, não só vemos como eles reagem às nossas coisas, como pelas ideias que eles nos dão. Muitos dos meus livros são baseados em cenas e frases que eu ouvi nas escolas, imensas.” O poema “Abecedário Sem Juízo”, do livro Poemas da Mentira e da Verdade (1983), é um exemplo que Luísa tem bem marcado, tal como o livro O Rapaz e o Robô (1995). Depois de assumir que a sua inspiração vem maioritariamente das crianças, nas visitas que faz às escolas, depois de assumir também que chegam a ser as crianças a escolher alguns títulos, porque Luísa Ducla Soares tem muita dificuldade em fazê-lo e porque são elas que escolhem os melhores títulos, a nossa conversa termina na emoção de partilhar o que as crianças lhe permitem: “Elas ajudam-me muito!” Fiquei com a certeza de que, para Luísa de Ducla Soares, a sua vida foi e é sobre as crianças, acima de tudo as crianças.

Texto de Rita Dias
Retrato de Cláudia M. cedido por Luísa Ducla Soares

Se queres ler outras crónicas d'A palavra doutro, clica aqui.