Entre a realidade e as ironias da realidade, quantas vezes nos salva o humor? Encontrei-me com Rui Zink por telefone. Apesar das interferências, andei atrás do Rapaz, dos seus autores, do sucesso próprio e alheio, de Lisboa, também do mundo, e não tínhamos ninguém atrás de nós, talvez só a fome, que era perto da hora de jantar. O que diria Molero sobre esta conversa, ou Dinis Machado, não saberemos. E ainda bem.

Não falta resposta certeira a Rui Zink. Nunca. Nem às perguntas previstas, nem às perguntas improvisadas, nem aos comentários, nem aos silêncios, nem nas entrevistas de vida ou nas de passagem. Não são respostas iguais: das mais intelectuais e conhecedoras às que metem asneiras e coloquialidade, pode distar um segundo. Também não falta a busca de resposta para o que o rodeia. Seja pelo conteúdo, seja pela forma, faz-nos parar, estar presentes. Como ele. É um homem completamente presente, adulto na sua época, com obras que irão além dela.

“Sempre me senti, desde muito pequeno, um artista, uma pessoa que estava no mundo. Um artista e cidadão. Estou cá. OK?” OK. Rui Zink apresenta-se-nos e ficamos preparados para os seus romances, as novelas, os contos, as peças de teatro, os ensaios e as ideias. Quantos são, interessa pouco, o que nos prova também a vida de Dinis Machado, com tanta palavra escrita e uma obra na proa, a tal, aquela que parece única, O que diz Molero. Rui, pioneiro, arrojado, provocador, criativo e criador com letra minúscula, escolheu um livro que lhe assenta bem, “um livro-bomba”, na opinião de Luiz Pacheco.

O que diz Molero é, para mim, o primeiro romance moderno português. É o primeiro verdadeiro romance pós 25 de abril. Porque é mesmo um livro que tem uma forma contextualmente nova de dizer as coisas. E eu acho que Dinis Machado quis lá pôr tudo. Este era o livro que ele tinha para escrever. É um livro escrito por uma pessoa que não é um intelectual, é um homem intuitivo, com leituras, é um gajo dos jornais, que, por acaso, trabalhou em redações, foi diretor da revista Tintin portuguesa, e é um indivíduo que é um desenrasca, como aquele mundo daquela época. O Dinis Machado tem aquela cultura livresca intuitiva, tem aquela cultura de BD impregnada e, de repente, o que é que aquele livro é, se nós lhe tirarmos a estrutura? São as memórias da vida dele. São as coisas a que ele assistiu, são uma rua e um dos prazeres espantosos que eu tive quando li aquilo veio por aquela rua ser a minha”, simbolicamente.

No meio do passeio pelas ruas da obra, surgiu o clássico americano Casablanca. Rui Zink compara O que diz Molero ao filme e evoca a opinião de Umberto Eco. “O livro de Dinis Machado é um pastiche. Eu comparo-o muito ao Casablanca. Não há uma ideia propriamente original no livro. O Casablanca, segundo Umberto Eco, tem todos os clichês e, isolados, os clichês são insuportáveis. E, pergunta-se Umberto Eco, por que é que a porcaria do filme resulta? Porque não tem só um clichê ou dois, tem todos. E a overdose de clichês transforma aquilo numa obra de arte. O que diz Molero é um clichê do princípio ao fim. A própria escolha daquelas duas figuras, o Mister DeLuxe e o Austin, vêm da banda desenhada. O Molero que está a estudar o Rapaz e não se percebe porquê também é banda desenhada, à qual o Dinis Machado chegou porque tinha lido o Mandrake [Lee Falk] e outras revistas, O Papagaio, quando era novo e porque, depois em adulto, era funcionário da Bertrand e disseram-lhe: ó Dinis Machado, tu que já leste meio livro é que podias ir trabalhar para a revista Tintin”. Abre-se o pano do enredo: Mister DeLuxe e Austin, os superiores do detetive, Molero, o detetive, e o Rapaz, que nunca tem nome. Dois nomes de carros, um nome aparentemente espanhol e a ausência de identidade ou presença, apesar das aventuras. E também se abriu o pano do teatro.

Em 1994, Nuno Artur Silva, António Feio e José Pedro Gomes adaptaram O que diz Molero, com cenografia e figurinos de António Jorge Gonçalves e música de Nuno Rebelo, e estreou-se a peça no Teatro Nacional D. Maria II. “O livro é a celebração dos vários registos da linguagem, porque não era só um rapaz que nasceu em Lisboa, no Bairro Alto, nos anos 30/40, e a vida dele, como ele cresceu e perdeu a inocência, como é que ele viajou pelo mundo, não é só isso. É, sobretudo, a mistura das linguagens. A melhor definição do livro que vi foi do Eugénio de Andrade, que dizia: ‘este livro é uma alegria’. E, no fundo, é a alegria da linguagem, a euforia da linguagem, que mistura o poético com o calão, a linguagem de bairro popular com a linguagem literária. Eu nunca tinha visto isso em português, desta maneira, e a falar de uma coisa que me era tão próxima, que é a cidade de Lisboa”. Palavras de Nuno Artur Silva, quase vinte anos depois, em 2013, no programa Magazine Literário, em que Nuno foi convidado a escolher o livro da sua vida e escolheu o mesmo que Rui Zink.

Em 2007, novamente no Teatro Nacional, estreou-se O que diz Molero em português do Brasil, com encenação e adaptação de Aderbal Freire-Filho, o propulsor daquilo a que designou “romance-em-cena”, uma encenação de um texto não teatral, integralmente transposto para o palco. “Não me coibi de usar todas as formas de humor que estivessem ao meu alcance, caricaturais ou do domínio da farsa. Pareceu-me importante explorar a graça do texto, e, ao mesmo tempo, manter todo o potencial lírico, aproveitando o maior número possível de aventuras, episódios e personagens”, disse Aderbal numa entrevista ao D. Maria II conduzida por Ricardo Paulouro. Não foram necessárias traduções para as peças, mas a obra de Dinis Machado encontra-se traduzida para castelhano, francês, romeno e checo, contou com muitas edições e reedições, e na época de lançamento, em 1977, contou logo com dezassete, revela o próprio em entrevista de vida à Clara Ferreira Alves, no programa Falatório, em 1997.

Mas não nos percamos de Rui Zink, que ainda está ao telefone. São pelo menos oito as peças de teatro que escreveu, uma delas O Sol da Terra, do grupo de teatro inesperado “Felizes da Fé”. Felizes da fé: o que é? “Existem desde 1985. Parece mentira, mas é verdade. Têm trabalhado a animação de rua com espetáculos umas vezes sem rede, outras sem mãos. O núcleo duro dos felizes da fé é composto por Gilberto G., Paula C., Leonor A., Eugénia M., Rigo 93, Rui Z., Nuno A., Luís A. E muitos, muitos outros prémios”. E querem (ou quiseram) que compreendamos (ou compreendêssemos) que “a literatura está à nossa espera” e que “o fim do filme está próximo”. Vale ver o filme deles, está próximo. Chama-se Geração Feliz, foi realizado por Leonor Areal e está disponível no YouTube. O Zink também o aconselha. OK? OK.

Documentário Geração Feliz, de Leonor Areal, sobre os Felizes da Fé

Para terminar a literatura no teatro, não no sentido literal, apenas nesta crónica, à semelhança de Dinis Machado, Rui Zink viu uma obra sua ser adaptada e levada à boca de cena. “É muito agradável ver que A Instalação do Medo esteve agora, em 2019, seis meses em cena em Bona, Alemanha, para um público que não é de todo constituído por familiares e amigos. É bom ver que pessoas que não têm nenhuma imagem minha marcada, seja por simpatia, seja por antipatia, apreciam o romance autonomamente”. Cinco anos antes, em 2014, em Lisboa, a peça Instalação do Medo esteve no São Luiz Teatro Municipal, com encenação de Jorge Listopad.

Instalação do Medo, 2014. Créditos: Luís Gouveia.
Instalação do Medo, 2014. Créditos: Luís Gouveia.
Instalação do Medo, 2014. Créditos: Luís Gouveia.
Instalação do Medo, 2014. Créditos: Luís Gouveia.
Instalação do Medo, 2014. Créditos: Luís Gouveia.

Seja qual for o sucesso, afinal, nas suas palavras, “o sucesso mais nobre somos nós que o definimos”, Rui Zink escreve aquilo que quer dizer e não aquilo que querem que ele diga. Mas reconhece que escrever é uma dança a dois, entre o ele e o mundo, em que a realidade, o humor, a linguagem e a forma da linguagem assumem um papel fundamental (ou não tivesse sido um grande ativador da escrita criativa em Portugal), por isso deixa que os seus textos ganhem asas. “No meio dos meus trinta e tal livros, e mais não sei quantos happenings de rua, de teatro, etc., há coisas que eu vejo, até às vezes pelo gosto dos outros, que viajam um pouco mais. Para mim, é fácil de ver isso em A Instalação do Medo (2012), O Suplente (2000), O Anibaleitor (2010)”.

“O curso de escrita do Dinis Machado foi trabalhar nos jornais, ter mentores que lhe diziam ‘opá, lê este livro, que este gajo é porreiro’, foi ver muito cinema naqueles cornos nos cinemas piolho, nos cinemas de reprise, e foi trabalhar numa revista de banda desenhada. Nós não teríamos O que diz Molero se ele não tivesse trabalhado na revista Tintin”. E nós não teríamos Rui Zink e o seu comboio de obras, primas, irmãs, as recentes filhas das antecessoras, se não tivéssemos os carris da sua vida para dar suporte: os projetos de juventude, como o Pornex, os Felizes da Fé, a colaboração em revistas, várias, da política à cultura, a publicação do primeiro livro online (quando ainda não era moda, e isso é estar à frente do seu tempo, no que agora é nosso) e do primeiro romance gráfico ilustrado, a participação no célebre programa A Noite da Má Língua, tudo combinado com a academia, com ser professor na universidade e, antes, em escolas secundárias, com fazer teses de mestrado (sobre José Vilhena) e de doutoramento. É um jovem consciente e um adulto disponível para viver.

“Estou cá”, recordo o acrónimo da sua apresentação. “E esse estar cá, sempre com um sentido lúdico das coisas, mas ao mesmo tempo um apetite moralista e pedagógico escondido, eu encontrei-o sempre nos meus mentores e nas pessoas que admirei. Eu não sou um produto raro”. Ou talvez seja. Uma coisa é certa, Rui Zink não está desaparecido e não é preciso ver nada para decretar a sua existência. Basta procurar e encontrar todos os buracos em que ele já plantou.

En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão, desde que neles me possa en­fiar. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão, desde que neles me possa en­fiar. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão, desde que neles me possa en­fiar. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão, desde que neles me possa en­fiar. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão, desde que neles me possa en­fiar. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão, desde que neles me possa en­fiar. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar. Eu gosto muito de bu­racos no chão desde que neles me possa en­fiar. E, assim con­for­tado, assim con­for­mado, des­con­fiar. De tudo e todos porque «são todos os mesmos» e eu, eu sou o outro. En­con­trei um bu­raco no chão onde me en­fiar.

O Outro, 2014

E se Rui Zink for o outro, encontra-se no Rapaz? Ou no Molero? Ou no Austin, ou no Mister DeLuxe? Não, em Lisboa. É essa a melhor personagem. É o que vos digo, na palavra doutro.

Texto de Rita Dias
Fotografia de Humberto Mouco/CML-ACL

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