Andando por cá, em terras bem portuguesas, o académico, professor e irmão na língua, Celso Augusto Conceição, fiz-lhe um desafio:

– Vamos aproveitar esta oportunidade e pôr algo no papel conjuntamente: uma portuguesa e um brasileiro. Mas vamos fazê-lo à nossa maneira, isto é, respeitando as nossas variedades, sem adaptação, ainda que escrevamos para uma revista editada em Portugal.

Não será conversa fiada (na versão portuguesa), nem vamos jogar conversa fora ou conversa para boi dormir (na versão brasileira), fica a promessa. Juro a pés juntos, enquanto o Celso jura dedo com dedo (ou seja, jura sobre a cruz formada pelos dedos).

E o que levou a tudo isto? Entretidos, à conversa, ouço:

– Tu viu?

Que erro de concordância feio! O Celso ia proferindo palavras e frases bem curiosas, como sempre acontece quando ouvimos atentamente um brasileiro. Ele foi-me contando que pensava escrever um artigo com o título «Tu falou ou você falaste?». Pensei tratar-se de uma brincadeira, mas não… Ele riu-se da minha expressão, que era de muito espanto. Então, pedi-lhe que falasse mais sobre esse título.

– É uma provocação didática. A finalidade é mostrar que o «Tu falou», que é aceito coloquialmente, poderia ter a construção «você falaste» como natural.

– Natural? Parece muito mais absurdo do que o «tu viu»… (risos)

– Gosto de fazer provocações linguísticas! Aliás, estou pensando em alterar o título para «Tu viu ou você viste?» para ficar bem adequado à sua indignação. Já lhe digo o final do artigo, que tem a ver com os estados brasileiros. Moro no Rio Grande do Sul, em que se utiliza predominantemente o «tu»; no centro do país é «você». Por quê? Porque, na ocasião da escravatura, os fazendeiros exigiam que seus escravos os chamassem de «vossa mercê», pronome de tratamento que exige o verbo na terceira pessoa do singular. Com a redução por síncope, passou a «vosmecê» e, hoje, temos o «você».

– Sim, estou a acompanhar-te.

– E como a mídia brasileira situa-se no centro do país, Rio de Janeiro e São Paulo, a flexão verbal mantém-se na terceira pessoa. Então, lá no sul do país, se utiliza o «tu» com a conjugação do «você».

– E como seria possível a utilização do «você viste», uma vez que, no centro do país, não se utiliza o pronome «tu»?

– Que pergunta mais oportuna! A resposta está no fato de que, se a mídia brasileira tivesse concentrado sua programação no meu Estado, a flexão verbal seria de segunda pessoa e seus ouvintes não teriam a terceira, continuando o centro do país usando o «você» com a flexão de segunda. O que acha?

– Em território pronominal, também me lembro do uso do «lhe». Ainda há uns dias, um brasileiro, meu conhecido, disse-me: «Eu lhe vejo sempre de manhã bem cedo.» O dito, no momento, teve a sua piada. Com a pronúncia brasileira e com toda aquela acentuação, eu julgava que ele tentava dizer-me que me beijava. «Eu lhe beijo…» foi o que entendi! Não, nada disso. Ele queria dizer que me via; em português de Portugal, «Eu vejo-a sempre de manhã.»

– O «lhe», a forma de complemento indireto por excelência, foi perdendo a sua função dativa e passou a ser empregue como complemento direto.

– Gostava muito que apresentasses esse tópico na Revista Gerador. O que achas?

– Lisonjeado com o seu convite, mas eu o aceito se escrever comigo em coautoria. Agora, serei sucinto. Numa outra oportunidade, envio-lhe o artigo completo.

E assim aconteceu…

O português do Brasil apresenta características que o diferenciam da variedade portuguesa. São essas mesmas diferenças que enriquecem este grande património que é a língua portuguesa. O português, chegado ao Brasil, entrou em contacto com várias línguas indígenas, africanas, com as que eram faladas por todos aqueles que iam emigrando para lá, e assim foi surgindo uma variedade – a brasileira.

-Sobre Celso Augusto Nunes da Conceição-

Doutor e mestre em Linguística Aplicada; professor de graduação e pós-graduação em Letras; professor-apresentador do programa de TV Não Tropece nas Letras; palestrante sobre o Acordo Ortográfico de 1990/2009; articulista e pesquisador; professor de Português Jurídico e de Filosofia da Linguagem para o Direito; Pós-doutorado em Direito na Universidade Nova de Lisboa, membro correspondente brasileiro da Academia das Ciências de Lisboa.

Esta crónica do Afiar a Língua saiu na Revista Gerador de março, que podes comprar aqui.
Texto de Ana Salgado com Celso Augusto Conceição
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