Assinalando a sua estreia no dia 25 de novembro, Arena é o segundo espetáculo que Outro, uma estrutura de investigação e criação artística multidisciplinar, apresenta na Garagem do Chile até 19 de Dezembro.

Sem palavra. Com a premissa introduzida, Arena nasce em 2019, ainda antes da 'pandemia se instaurar'. Sem fala, mas com uma expressão sonora e corporal evidente, o espetáculo de Outro, escrito por Sílvio Vieira, transformou a Garagem do Chile num equipamento que se revela em constante camuflagem, quer no espaço quer nos corpos que nele habitam.

É na antiga oficina de automóveis no centro de Lisboa que o chão acinzentado, a piscina de pedra, as paredes que se despem de pedaços de tinta e na porta que se transporta durante o espetáculo, que tudo se veste de palco. A música, o cinema mudo e o Foley foram as três artes que inspiraram Arena.

fotografia de Leonor Fonseca, Arena

Os corpos movem-se. Os jogos replicam-se e o belo constrói-se em pontos centrais, ainda que sem narrativa delineada. Nada se ouve além de uma melodia transversal que se diversifica e propaga ao longo da peça. Quando o Jan se move; quando a alienígena se expressa; quando o espaço assim o pede. É com cerca de quatro "peças no tabuleiro" que o espetáculo se constrói com interpretações de sete atores - Anabela Ribeiro, André Cabral, Catarina Rabaça, Inês Realista, Miguel Galamba, Miguel Ponte e Pedro Peças.

A cena teatral, que parte sem um sentido narrativo, dá asas a um campo experimental e a uma experiência narrativa que, segundo Sílvio, se vai diluindo. "Essa postura foi pensada com base em diferentes coisas que fomos explorando e o belo acabou por ser o critério que a moveu", explica.

Inicialmente, a proposta teórica era ser um espaço convencional, no entanto, o caminho seguiu outro rumo. Com a ajuda de alguns apoios, como foi o caso da Câmara Municipal de Lisboa, permitiu que a companhia pensasse um espaço, uma vez que não tinham um local com programação. Foi então que Sílvio ativou as notificações no OLX para espaços como garagens e armazéns em Lisboa e "chegamos a esta garagem."

fotografia de Leonor Fonseca, Arena

É através dos corpos que se movem retratando uma linguagem singular que a repetição constrói uma ponte de comunicação, onde o som se mostra primordial, assim como toda a cenografia e construção visual que acompanham o espetáculo. Não há bem? Não há mal? Há o belo. Sílvio partilha que não há uma busca pela moral de forma implícita, mas um deslumbramento pelo belo, a imagem e a descoberta. O Jan reconhece um espaço e o "astronauta" explora o mesmo. "As figuras ganham maturidade ao longo do espetáculo e é este caminho que se constrói e revela."

"Não há um sentido político. Há um risco. Os espectadores estão habituados a procurar uma história, uma mensagem e é normal. É o que estamos habituados e acaba por nos condicionar enquanto espectadores, mas de certa maneira será um dispositivo aberto onde, através da imagem, podemos criar leituras. Creio que é uma proposta que me agrada", afirma ainda o fundador do Outro.

Há luz, som, Platão, ritmo e outras características que elucidam o espectador, assim como os intérpretes para que entendam o seu propósito a partir do momento em que se "desligam". É Jan a figura central." Talvez não seja uma figura composta por uma pessoa, mas nós trabalhamos sempre para que assim fosse", explica.

fotografia de Leonor Fonseca, Arena

"Um risco absoluto." É desta forma que Sílvio assume as expectativas para a estreia da peça. Num local central, ainda que precário na oferta cultural, a Garagem do Chile é um espaço temporário que abraça Arena, o Outro e todos os que caminham até si.

Sílvio reconhece que "é um espetáculo que não se vê acontecer em muitos outros equipamentos, isto é, fazê-lo num espaço não tão convencional e, isso, é também o que partilhamos com muitos amigos e, nesse aspecto, tem criado um certo burburinho em torno do projeto que inclui o espetáculo." Acrescenta ainda que " por outro lado a quebra nas bilheteiras e de público é uma realidade que também os acompanha", mas que não espanta os curiosos.

O Outro, quem é (são)?

Nascida em 2017, a estrutura de investigação e criação artística multidisciplinar dirigida por João Leão e Sílvio Vieira surgiu como clube de leitura e reflexão, constituindo-se associação cultural em 2018. Ao longo do período inicial de pesquisa assinou os seus próprios textos e materiais, posteriormente indexados num corpo autoral que deu origem aos primeiros trabalhos: o website outro.pt e o espectáculo as árvores deixam morrer os ramos mais bonitos.

A necessidade de dar corpo ao pensamento e partilhá-lo numa plataforma próxima do público através de textos, ilustrações, um dicionário etimológico e um armazém com materiais de outros autores foi parte de algo que ainda tem muitas linhas por escrever.

Texto por Patrícia Silva
Fotografia de Leonor Fonseca

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