fbpx
Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

As fronteiras da política, e aqueles que ficam do lado de lá

Nas Gargantas Soltas de hoje, Miriam Sabjaly reflete sobre a participação dos jovens no mundo político.

Opinião de Miriam Sabjaly

Fotografia de Midan Campal

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Numa das minhas primeiras semanas enquanto assessora política na Assembleia da República, um agente da PSP disse-me, “aproveita enquanto podes.” Era abril de 2021, eu tinha 22 anos. Lembro-me que estava no 3.º piso do Palácio de São Bento, junto às portas de acesso às galerias da Sala das Sessões. Lembro-me que era quarta-feira, tarde de Plenário. Lembro-me apenas vagamente da nossa conversa, uma série de perguntas mais ou menos inofensivas, em tom jocoso (“há quanto tempo é que cá estás, afinal?” ou “és nova para isto, não?”), uma série de respostas evasivas e preenchidas de credulidade. Lembro-me da semi-gargalhada após o comentário, tão transparente e pontiaguda. E lembro-me da minha reação: nada. Um profundo silêncio coberto por uma vergonha espessa e sem fim. 

Do que tinha vergonha? Talvez apenas da minha existência, tão pública e observável, num espaço que, em abstrato, representa a participação popular em democracia, mas que a mim sempre me pareceu o palco do capital, da branquitude, do poder: tudo o que não tinha e não era. Aquela interação veio confirmar o que eu já sabia sobre mim própria e que tentava, em vão, contrariar: porque era uma mulher jovem, racializada, muçulmana, acostumada a trabalhar precariamente, politizada mas apartidária, o meu lugar não era ali. Se lá estava, era por acaso. O cruzar de uma fronteira por tempo determinado, até ser forçada a regressar à minha condição base, ao papel de objeto de análise, de espetadora. Inerte, silenciosa e nas margens.

Quando fui almoçar ao refeitório pela primeira vez, ainda sem um cartão que me identificasse como parte de um gabinete parlamentar, clarifiquei, apressada e desajeitadamente, a minha identidade e de onde vinha, pedi desculpa vezes e vezes por tudo e por nada. Por não ter comigo o cartão, por me demorar a explicar, por atrasar a fila, por ocupar espaço e tempo. A meio do meu discurso inadequadamente longo, o funcionário da cantina interrompeu-me, “a gente sabe quem é, menina”. A sua voz era atenciosa e paciente, mas lá estava a vergonha novamente, no substrato, a tingir até conversas leves e em bom-humor. Inquietava-me que fosse possível que as pessoas em meu redor soubessem quem era, porque, nesse caso, conseguiam ver-me. Que eu era uma impostora parecia-me uma evidência partilhada. 

Mesmo de dentro do mundo político, sentia que ele se fechava para mim. E raramente celebrei o nosso trabalho, raramente senti prazer em percorrer os jardins de flores frescas e quietude, ou os corredores imponentes do Palácio, onde bastava descer um lanço de escadas e virar uma esquina para me encontrar perante o meu quadro favorito de Malangatana, todo ele pinceladas vermelhas de um mundo pós-colonial que ainda não existe. Raramente aproveitei. 

Não será original o sentimento de não-pertença na esfera política. Habitará no mundo interior de vários jovens Portugueses, ainda que a esmagadora maioria vote, pelo menos para ter mão no futuro. Mas a intervenção jovem expande-se – ou deveria expandir-se – para além do voto. Há coisas a dizer. Há uma vontade quase indomável de as dizer, de moldar com as próprias mãos, de expandir os limites estáticos das estruturas e organizar um novo mundo, coletivamente. E se parece existir consenso relativamente à necessidade de representatividade da juventude na política, nos órgãos de soberania, nos espaços de comentário, os esforços que surgem para colmatar essa ausência são, no mínimo, insuficientes, palatáveis, um contorno sem essência. Falham aos jovens trabalhadores, aos jovens pobres, aos jovens não-brancos e migrantes, aos jovens de identidades não normativas: aqueles para quem fazer política não é um caminho viável ou, na verdade, concebível, aqueles que, quando evocam o conceito de “juventude”, não imaginam um corpo homogéneo, um monolítico. Aqueles a larga distância do privilégio.

Subsistirá sempre um grau de alienação, de desamparo, de ausência de reconhecimento, se a representatividade que nos é oferecida for inócua. Se se acomodar às estruturas e às instituições que sistematicamente fazem lembrar: “aproveita enquanto podes, o teu lugar não é aqui”.

-Sobre Miriam Sabjaly-

Miriam Sabjaly é jurista. Trabalhou como técnica de apoio a pessoas migrantes vítimas de crime em Portugal e a pessoas vítimas de crimes específicos, como os crimes de ódio, tráfico de seres humanos, discriminação, mutilação genital feminina e casamento forçado. Foi assessora da Deputada não inscrita Joacine Katar Moreira entre março de 2021 e março de 2022. Atualmente é mestranda em Direitos Humanos, dividindo o tempo entre Gotemburgo (Suécia), Bilbao (Espanha), Londres (Reino Unido) e Tromsø (Noruega). 

Texto de Miriam Sabjaly
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

13 Junho 2024

Ansiedade Política: Como Lidar com a ascensão da Extrema Direita?

11 Junho 2024

Sobre o Princípio de Reparação do Dano Ambiental (e a Necessidade de Tutelar o Direito ao Ambiente)

6 Junho 2024

Em voz alta: Medo em tempos de ódio

6 Junho 2024

Sobre o novo aeroporto e a sustentabilidade do setor da aviação

4 Junho 2024

Paz

30 Maio 2024

Sem ensaios de ciência: Viagem decisiva – entre ciência e humanidade

30 Maio 2024

Contra os capo regimes em ciência

28 Maio 2024

Discurso de ódio e liberdade de expressão: os pactos inconscientes

23 Maio 2024

Observação de baleias: O novo sol azul ou a procura da paz por todas as formas possíveis

21 Maio 2024

Miradouro da Lua, colonialidade crua

Academia: cursos originais com especialistas de referência

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online e presencial]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Introdução à Produção Musical para Audiovisuais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Práticas de Escrita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Planeamento na Comunicação Digital: da estratégia à execução [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Planeamento na Produção de Eventos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Soluções Criativas para Gestão de Organizações e Projetos [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Narrativas animadas – iniciação à animação de personagens [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

O Parlamento Europeu: funções, composição e desafios [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online ou presencial]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação à Língua Gestual Portuguesa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Viver, trabalhar e investir no interior [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Pensamento Crítico [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

5 JUNHO 2024

Parlamento Europeu: extrema-direita cresce e os moderados estão a deixar-se contagiar

A extrema-direita está a crescer na Europa, e a sua influência já se faz sentir nas instituições democráticas. As previsões são unânimes: a representação destes partidos no Parlamento Europeu deve aumentar após as eleições de junho. Apesar de este não ser o órgão com maior peso na execução das políticas comunitárias, a alteração de forças poderá ter implicações na agenda, nomeadamente pela influência que a extrema-direita já exerce sobre a direita moderada.

22 ABRIL 2024

A Madrinha: a correspondente que “marchou” na retaguarda da guerra

Ao longo de 15 anos, a troca de cartas integrava uma estratégia muito clara: legitimar a guerra. Mais conhecidas por madrinhas, alimentaram um programa oficioso, que partiu de um conceito apropriado pelo Estado Novo: mulheres a integrar o esforço nacional ao se corresponderem com militares na frente de combate.

A tua lista de compras0
O teu carrinho está vazio.
0