Na rua, há um bicho-papão. Ninguém pode sair, ele apanha qualquer um, sem ver quem é, e assusta até os crescidos.

Esta é uma história igual à dos livros. E, como nos livros, há heróis. São pais-heróis. Todos os filhos têm um.

Os pais-heróis constroem montanhas dentro das casas, fazem rios e marés nos corredores. Têm os superpoderes da gargalhada e da certeza de amanhã.
E com isto de dizer pais-heróis, também queremos dizer mães, têm todos, pois claro, a mesma superforça e iguais supermúsculos!

Há ainda pais-heróis que saem, com a valentia dos poucos, para as ruas por onde anda o bicho-papão. É preciso ir. Os heróis fazem isto, há assim um puxão por dentro, um querer ajudar quem foi apanhado pelos maus.

Nem todos os pais-heróis têm filhos, mas todos eles salvam os filhos de alguém, os pais de muitos, os irmãos de todos. São pais e heróis, portanto, não há dúvida disso.

Nesta guerra que vai dar uma boa banda desenhada, a luta de espadas faz-se por dentro das pessoas, que têm de ficar muito sossegadinhas, até que o cientista venha dizer quem ganhou a luta. É sempre importante ter cientistas numa boa fita.

Estes pais-heróis têm mãos-espadas poderosas, capazes de adiar o bicho-papão, de lhe pôr freios nos dentes e amarras nos braços. Mas têm de o segurar durante muito tempo, nunca se viu um bicho tão teimoso assim.

Os pais-heróis, com filhos e sem filhos, vestem uma capa, sem ela não se pode ir à luta, mesmo que não seja tão leve e bonita como aquela que o super-homem usa. Serve para que o bicho-papão não os consiga ver ou agarrar com as suas mãos minúsculas pegajosas.

Mas estes pais-heróis com filhos e sem filhos não têm medo de ser apanhados pelo bicho-papão. Têm o superpoder de se esquecerem dessa possibilidade, o superpoder da vontade de ir buscar o bicho-papão dentro das pessoas e pôr-lhe mordaças na boca!

Mas, como nos filmes, os pais-heróis têm uma kryptonite. Chama-se pele. Ficamos fracos, tanto se tocarmos nela, como se não o fizermos. Com esta é que nos apanharam de surpresa, logo no início da trama.

A falta de pele afasta o bicho-papão, mas traz a doença da saudade. Na ausência de pele e de beijos, o bicho-papão não apanha as crianças, mas faz filhos-heróis.

Mas este superpoder não tem graça. As crianças não querem brincar à saudade.

Um pai-herói (ou uma super-mãe, claro está) chegará hoje a casa, depois de cuidar, muito valente, de muitas pessoas que estão na guerra por dentro com o bicho-papão. E não sabe se ele também já lhe deu um tiro, ainda invisível, enquanto o segurava pelos braços pegajosos.

Enquanto isto, o seu filho-herói contraiu a doença da saudade e quer curá-la nos braços do pai-casa. As peles têm isto de correr umas para as outras e o menino só seguiu o comando das pernas.

O pai-herói sabe que o bicho-papão se ri disto e é aqui que engana toda a gente, por isso, quando viu o filhote voar para si, pois já os pés não precisavam de chão, não deixou que os dois fossem tocados pela sua kryptonite. O pai-casa afugentou a pele de supetão!

E foi tal a força, porque tem o pai-casa muita força para proteger o seu filho, que afastou para longe o bicho-papão, mas também, sem nada disso querer, o filho-sem-pele.

O filho-sem-pele estarreceu, ficou confuso, porque os braços permanentes do pai-casa estavam agora encolhidos e cheios de medo. Os pais-heróis só disto, pois, têm medo: que aos seus filhos aconteça a doença ou a tristeza. E o pai-casa ficou, nesse momento, muito pequenino, da altura do chão. E também os super-heróis choram.

O pai-casa viu com clareza que, até esta história acabar, não pode emprestar o colo ao filhote-herói, tomá-lo pelos braços, dar-lhe todos os beijos em falta. Não antes de ter a certeza de que o bicho-papão se foi finalmente embora.

Foi aqui que ao pai-herói ganhou, por um pouco, o cansaço da luta injusta, porque o bicho-papão não tinha nada que se meter com filhos-heróis que deviam ter pele, a todas as horas de necessidade.

É como naquele outro filme, em que os super-heróis têm de esconder aqueles de quem gostam mais, para que o vilão não saiba onde estão e lhes possa fazer mal. Têm de ficar no esconderijo só mais algum tempo.

Mas já espreitámos o final da história e são os super-heróis que vão ganhar a luta contra o vilão-papão, que fugiu no fim, tantas peles não se tocaram.

E o pai-casa e o filho-sem-pele vão curar a saudade, pôr calor um no outro e os dois serão abraço e colo para sempre.

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Texto de Rute Simões Ribeiro
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