Atendeu a videochamada a partir de Itália, onde é neste momento estudante de doutoramento e investiga os corais de água fria e esponjas do oceano profundo. Beatriz Vinha, jovem bióloga marinha, abriu as portas da sua casa numa tarde de sexta-feira como tantas outras, ocupada pela investigação que tem em curso. Natural de Penafiel, soube que era isto que queria fazer “desde sempre”, e não houve nada que a demovesse – nem mesmo a surpresa dos professores que diziam que podia ser o que quisesse com as notas que tinha. Queria ser bióloga marinha, e o entusiasmo com que fala sobre o seu percurso até agora traz-nos a certeza de que não poderia ser outra coisa.

Beatriz mudou-se de Penafiel para o Algarve para seguir o sonho de ser bióloga marinha, mesmo que ainda não tivesse uma noção real do que a esperava – talvez tenha sido “intuição ou uma mensagem do universo”, diz-nos. Desde então, tem mergulhado no oceano profundo e procurado saber mais e partilhar o seu conhecimento. Há cerca de um ano, juntou-se ao, na altura recém-criado, Ocean Hub Portugal, um grupo de e para jovens líderes do oceano, do qual é vice-presidente atualmente. No trabalho que faz, o sentido de comunidade e a partilha são valores essenciais; quer levar a literacia do oceano onde puder, e aproximar os que já sabem muito e os que não sabem tanto assim sobre o assunto. O tom da sua voz e a calma com que fala sobre assuntos tão sérios já é um fator convidativo. Beatriz quer agregar, já que “todos fazemos parte da luta”. 

Numa conversa informal com o Gerador, falou sobre a importância da educação, o trabalho do Ocean Hub Portugal, o que é ser uma mulher na ciência, o que há além dos plásticos no oceano e a importância de termos espírito crítico. Do início ao fim, Beatriz deixou ciente que em tudo na vida, inclusive na preservação do oceano e na luta contra as alterações climáticas, é preciso recordar que nem todos partimos em pé de igualdade. Até estarmos, temos de fazer uns pelos outros. 

Gerador (G.) – Cresceste em Penafiel, que não é propriamente um lugar junto ao mar. Como é que surge esta relação com o oceano? Sempre tiveste consciência de que era um lugar rico e que querias explorar ou foi algo de que te foste apercebendo depois?

Beatriz Vinha (B.V.) – Essa é uma pergunta superdifícil e que toda a gente me faz, mas eu nunca sei responder [risos]. Lembro-me de sempre querer ser bióloga marinha, e as vezes em que disse que não queria ser foi um pouco porque em Penafiel não era um curso tão conhecido ou tão prestigiado como advocacia, direito, medicina, e os meus professores não conheciam e não me apoiavam muito. Diziam “mas tu tens boa notas, podes fazer o que tu quiseres”, e eu respondia “OK, se calhar vou ser veterinária e depois dedicar-me à parte marinha”; dava a volta para me enquadrar no sistema. Mas sempre foi uma ideia: eu tinha um golfinho desenhado na parede do meu quarto, porque sempre foi essa a vontade que tinha, de ser bióloga marinha. Na altura, acho que nem tinha bem noção do que era ser bióloga marinha, e toda a ciência que envolvia, era mais um fascínio. Fiquei com uma paixão às cegas – não sei se foi intuição ou uma mensagem do universo –, e cheguei ao 12.º ano com esses conflitos dentro do próprio sistema escolar, mas felizmente tenho uns pais que sempre me apoiaram no meu caminho e disseram “tu tens de seguir o que tu queres, tens de fazer o que gostas, se não vais ser uma adulta infeliz”. Aos 17 anos, fui para o Algarve, a 500 km de casa, estudar Biologia Marinha, e desde então tem sido uma viagem incrível, tem-me levado a sítios e a conhecer pessoas incríveis, e cada dia mais me apaixono e mais gosto do que faço. 

G. – Mudaste-te para 500 km de casa, e depois disso já passaste por Paris e Gent (no teu mestrado), por Toulon, pelas Ilhas Canárias, em Tenerife, e estás a fazer o doutoramento em Itália. Há uma reflexão em torno do oceano e da importância de olharmos para ele que é transversal a todos estes lugares, ou as especificidades de cada um trouxeram-te uma abertura ainda maior para pensar o próprio oceano?

B.V. – Todos estes sítios em que tenho estado, por norma, são sempre à beira-mar, e há sempre uma relação evidente das pessoas com o oceano. Mesmo em Portugal nós vemos isso: somos um jardim à beira-mar plantado. Do ponto de vista do trabalho, como tenho estado na academia, na parte científica, não sinto grande diferença porque há essa globalização e toda a gente pensa mais ou menos da mesma maneira, tem a mesma visão, a mesma missão. As formas de trabalhar podem diferenciar num ponto ou noutro, por algumas culturas serem um pouco mais relaxadas e outras mais rígidas, mas não sinto muita diferença. Tenho passado por países da Europa do Sul, e em brincadeira com uns amigos, dizíamos que éramos a América Latina da Europa [risos], por isso não há muita diferença.

G. – O Ocean Hub Portugal surge na tua vida há cerca de um ano, sendo um “um grupo criativo de jovens ambientalistas, estudantes e empreendedores que pretendem criar uma nova cultura do oceano em prol de um futuro sustentável em Portugal”, que é parte integrante de um projeto maior a nível internacional. O que é que vos motivou, num ano marcado pela pandemia, a querer agir e trazer este projeto para Portugal?

B.V. – Para falar do Ocean Hub Portugal, tenho de falar da Sustainable Ocean Alliance, que é uma organização norte-americana que tem várias missões e dois programas principais, em que um deles é liderança jovem pelo oceano. Dentro deste programa, eles criam vários grupos regionais em todo o mundo – se não me engano são cerca de 62 neste momento — e está cá em Portugal, também. Eu não estive no processo de formação, foi a minha colega de Biologia Marinha na Universidade do Algarve, a Eugénia Barroca, juntamente com a Ana Vitória Teresa, que é uma empreendedora superativa na área do oceano, e juntas criaram o Ocean Hub Portugal. Pouco depois da criação, eu entrei no projeto. Agora começam a surgir mais projetos assim, e ainda bem, mas, de facto, em Portugal fazia falta um projeto jovem, dinâmico, focado no oceano. O Ocean Hub Portugal tem sido bastante pioneiro, também muito apoiado nas campanhas da Sustainable Ocean Alliance, aplicadas à realidade do nosso país. Faltava essa comunicação da ciência em português; há muito conteúdo, mas muitas vezes em inglês, ou então vindo do Brasil, o que é incrível, mas não existia nada com o foco em Portugal. O Ocean Hub Portugal acaba por ser uma plataforma jovem, para os jovens que querem agir pela sustentabilidade do oceano, mas também para comunicar ciência e empoderar outros [jovens] através do conhecimento de uma forma acessível. Essa foi, e é, a nossa motivação. 

G. – Há pouco falavas da educação e de como nas escolas existe desconhecimento em torno do oceano. Fala-se cada vez mais nos plásticos, sobretudo nos meios mainstream, e vocês [Ocean Hub Portugal] deram, aliás, alguns números nas redes sociais: 4.3 milhões de tampas de plástico, 1.8 milhões de beatas e 1.5 milhões de garrafas de plástico. Quais são os principais entraves, neste momento, à preservação do oceano e das suas espécies?

B.V. – Como dizes, o plástico é uma temática que chega muito ao mainstream, e isso não retira a importância do tópico, é importante que se fale nisso, mas é óbvio que não é o único problema que existe no oceano. Se formos falar de problemas e ameaças concretas, na minha opinião, as alterações climáticas são uma ameaça emergente, e temos de estar muito preocupados com isso – não só no oceano, mas também nos ecossistemas terrestres e a nível social. Aliás, já existe o conceito de refugiado climático, e há sobretudo pessoas de comunidades costeiras que estão a ser, ou irão ser, afetadas pelas alterações climáticas. A sobrepesca, esta nossa extração de recursos massiva e inconsciente ao ritmo de consumo tão acelerado que temos, resultante do crescimento da população e de uma série de outras questões, também é um problema. Nós, no Ocean Hub Portugal, temos falado muito da exploração mineira no fundo do mar, que ainda não está a acontecer, mas é uma ameaça que pode acontecer no futuro, motivada pelo nosso consumo excessivo. Precisamos de recursos minerais para fazer telemóveis, computadores, a chamada “tecnologia verde” como os painéis solares e os carros elétricos, mas como os recursos minerais em terra estão escassos, começa-se a pensar em minerar o fundo do mar, que é um ambiente bastante rico em recursos minerais. No meu caso, que estudo o oceano profundo, agora estou a fazer o doutoramento relacionado com corais de água fria e esponjas que estão por lá, e este ecossistema é muito desconhecido a nível científico, costuma-se dizer até que conhecemos mais da Lua e de Marte do que do oceano profundo. Estamos bastante preocupadas com esta questão da exploração mineira porque já se está a pensar avançar com uma exploração de que se sabe muito pouco. Estão agora a sair estudos sobre o impacto que causará no oceano profundo, e esses artigos já estão a dizer que provavelmente deixará impactos irreversíveis, ou que demorará imensos anos para recuperar. Estamos a falar de um ecossistema que é extremamente vulnerável com espécies que têm ciclos de vida muito lentos, que vivem muitos anos, e o que estamos a pedir, por parte do Ocean Hub Portugal, apoiado numa campanha da Sustainable Ocean Alliance, é uma moratória de dez anos para a exploração do fundo do mar, para que nestes 10 anos se possa avançar a nível científico e se possa realmente saber mais sobre o impacto desta atividade. Acho que estes são os problemas práticos que temos, mas, de forma geral, muito pode ser feito em termos de governação. A decisão política é superimportante. Agora fala-se muito de ter 30 % do oceano protegido até 2030, e eu acho que é superimportante que isso aconteça. No que toca às alterações climáticas, precisamos de políticos e decisores ousados e com vontade de ver a mudança. 

G. – Disseste uma vez, em entrevista ao Novum Notícias, que “para esta mobilização pública ser eficiente é necessária atuação política”. Sentes que as políticas públicas, em Portugal, estão adequadas às necessidades que existem no país ou estão, pelo menos, perto disso?

B.V. – É supercomplexo. Nós temos um ministro do Mar muito aberto ao diálogo, tanto que inclusive participou numa atividade nossa, no Ocean Hub Portugal, e é ótimo termos proximidade. Vejo uma evolução grande, não só a nível nacional, mas também a nível europeu e global. Este ano dá início à Década do Oceano das Nações Unidas, e eu vejo que Portugal tem uma intenção de avançar nesse aspeto. Claro que às vezes há coisas sem grande sentido, como a polémica construção do aeroporto, que não está diretamente ligada com o oceano, mas tudo se conecta. Sinto que realmente há uma intenção e estão a tentar avançar nesse sentido; e acho que nós temos imenso potencial para sermos líderes na conservação do oceano – e realmente somos um exemplo não só na Europa, mas a nível global. Acho que temos imenso potencial. 

G. – Vocês [no Ocean Hub Portugal] acabam por ter um papel de educadoras informais. Estive a ouvir o primeiro episódio do podcast Maré, em que falas da história da existência de fauna no oceano, a partir do Edward Forbes, e dizes o que me disseste também ainda há pouco: que sabemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o oceano profundo. É esse mistério e questionamento que te move enquanto investigadora?

B.V. – O que se passa no caso do oceano profundo também tem muito que ver com o investimento científico e a capacidade de investigação dos países. Começa a haver alguma informação na parte do Atlântico Norte, a nível de organismos ventónicos, que são organismos que vivem no fundo do mar, como é o caso dos corais e esponjas. Já começa a haver muito mais informação a nível de mapeamento, de conhecimento das espécies. A nível de genética, é incrível, porque sempre que se faz uma expedição no oceano profundo, provavelmente vai encontrar-se uma espécie nova para a ciência. É realmente algo em que estamos a avançar, mas é preciso mencionar que a investigação no oceano profundo requer tecnologias muito robustas. Não é só pôr um fato de mergulho e ir lá, precisas de robôs, muita tecnologia, e muito dinheiro. Sinto que estamos numa fase de transição superimportante, e eu, enquanto cientista jovem, sinto-me superfeliz por estar a fazer parte desta mudança e deste avanço, e acho que isso me motiva muito. Sinto-me superfascinada com estes organismos que estudo, e quando vejo fotografias destas formas de vida tão estranhas, esse fascínio é evidente. É a beleza do ecossistema e a diferença que me atrai. Claro que há vontades que vão além disso, como querer preservar e proteger, e reconhecer a importância do oceano para o planeta todo; mas há sempre um fascínio pelo oceano na base. 

G. – No Ocean Hub Portugal, o fascínio de todas as pessoas que integram o projeto acaba por se juntar, o que me parece ser uma das vossas maiores forças num projeto voluntário. Para passar esse fascínio coletivo pelo oceano a outras pessoas, têm o Maré como um dos vossos meios de informar, mas têm também outros eventos em que participam, como o webinar Rise Up-Juntos pelo Oceano, ou as próprias redes sociais. Dirias que o vosso interesse é chegar àquelas pessoas que não fazem a mínima ideia do que se passa no oceano, ou para já a vossa preocupação é unir a comunidade de pessoas que pensam esta questão?

B.V. – É incrível que digas a palavra “comunidade”, porque de facto acho que é o que o Ocean Hub Portugal é. O nosso interesse acaba por ser um pouco desses dois que mencionas: temos as nossas plataformas, em que organizamos os nossos eventos, mas também estamos a ganhar alguma visibilidade e estamos a ser convidadas para participar em vários eventos. O Rise Up foi no Dia da Terra, e fomos convidadas pela Fundação Oceano Azul, mas temos utilizado muito as redes sociais e o podcast [Maré], e a intenção principal é chegar a pessoas que não têm muito conhecimento sobre o oceano, fazer essa comunicação científica e trabalhar na literacia do oceano. Mas também queremos ser uma comunidade para pessoas que já sejam líderes, tanto que nós fizemos dois cursos, o primeiro chamado Caravela, que era para pessoas que não tinham muito conhecimento sobre o oceano e que queriam aprofundar, e no mês passado fizemos o Bússola, que era para líderes do oceano que já tinham um projeto pensado para resolver algum problema, e a intenção do curso era dar ferramentas para que se possam materializar. Foram seis dias de curso superintensos, com palestras de comunicação e branding, marketing, como encontrar financiamento, e até falámos de saúde mental. Traçámos o curso com base na nossa experiência de ter criado o Ocean Hub Portugal, trabalharmos nele e gerir com as nossas carreiras pessoais. No início, pensávamos que nos íamos focar só em jovens, mas agora queremos simplesmente chegar a toda a gente que tenha um interesse pelo oceano e que queira saber mais.

G. – Uma questão interessante do vosso projeto é que são cinco mulheres com diferentes valências e áreas de atuação pelo oceano. Lembro-me de, no Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, terem feito uma publicação na vossa página do Instagram que falava precisamente sobre isso. Como é ser uma jovem mulher na ciência, hoje?

B.V. – Sermos cinco mulheres foi ocasional, não foi planeado [risos], mas sinto sempre muita responsabilidade a falar sobre isso, porque é um tema muito importante. Eu só posso partilhar a minha visão, mas gosto de deixar claro que sou uma mulher europeia, tenho um certo privilégio e facilidade para falar enquanto mulher na ciência. Trabalhando nesta área da biologia marinha, sinto que há muitas mulheres na ciência, e eu, pessoalmente, nunca me senti discriminada; sempre me senti superapoiada por outras mulheres, tenho duas orientadoras no meu doutoramento, num grupo composto por três pessoas, já na minha tese de mestrado a minha orientadora era uma mulher, tenho muitas amigas na área. Há muita representatividade, e é muito bonito ver tantas mulheres a fazer coisas incríveis na Biologia Marinha. Mas se falarmos no geral sobre o que é ser uma mulher na ciência, se formos para outro tipo de ciência, já não há tanta representatividade, nem quero dizer que está tudo bem quando temos muita desigualdade no mundo, e muitas mulheres ou meninas que nem têm acesso à educação. E a educação é a raiz, é fundamental para elas um dia se tornarem mulheres na ciência. Quando eu falo nisto, tento sempre ter muito cuidado porque existe um viés na minha experiência. Se formos para o Brasil ou para a América Latina, poderá ser muito diferente, e entrar em casos mais complicados. 

G. – A educação é um tema que tem surgido por várias vezes ao longo da nossa conversa. Em que sentido é que cada um de nós pode ser, de certa forma, um líder do oceano? Tendo em conta que nem toda a gente tem acesso a essa literacia do oceano, como é que cada um de nós pode ter um papel ativo?

B.V. – Eu acho que há uma forma de ser um grande líder, que muitos temos por garantida, mas que é fundamental: votar. Falámos há pouco da importância da tomada de decisão política para a conservação do oceano e da natureza, e isso sem dúvida é importante, portanto devemos escolher bem os nossos representantes políticos. É fundamental para tudo. Depois há pequenas mudanças que podemos fazer, que se calhar no início podem custar, mas com o tempo tornam-se parte do nosso estilo de vida. O plástico é um assunto que está muito na moda, mas realmente é importante substituí-lo nas coisas mais simples, como as garrafas de água; depois na moda, podemos pensar no consumo de segunda mão ou até na utilização de materiais sustentáveis; e mesmo nos produtos que utilizamos no dia-a-dia, como computadores ou telemóveis, podemos comprar recondicionados. No que toca à alimentação, sei que é um pouco mais complexo e que nem toda a gente consegue, mas podemos pensar na origem dos produtos que nós comemos. Na verdade, isto serve para tudo: pensarmos no ciclo dos materiais, de onde vem o que comemos, o que vestimos, os produtos que utilizamos no nosso dia a dia. Repensar o nosso consumo é superimportante, e se conseguirmos fazer isso já somos uns grandes líderes do oceano, na verdade. Grande parte das soluções para o oceano estão em terra, na nossa forma de viver e de nos relacionarmos com o planeta. Saiu agora um documentário, o Seaspiricy, que acabou por trazer o assunto para a discussão.

G. – Esse documentário tem sido muito partilhado ao longo das últimas semanas, de facto. Lembro-me de que já quando saiu o Cowspiricy muita gente disse que ia deixar de comer carne e que aquele conteúdo teve um impacto na sua vida. Como é que olhas para o Seaspiricy? Pode ser uma boa forma de alertar um público mainstream?

B.V. – O Seaspiricy gerou uma polémica enorme, toda a gente que está ligada ao oceano está a falar desse documentário. Eu pessoalmente acho que documentários deste género são importantes, porque trazem as preocupações para uma plataforma mainstream, como dizes, mas ao mesmo tempo temos de ter muito cuidado, porque estamos num mundo onde tudo é preto ou branco – vemos isso na política, por exemplo, nas fake news, nos terraplanistas e negacionistas da covid-19. Acho que não podemos ser sensacionalistas. Apesar de o documentário ter mensagens superimportantes, apesar de trazer a questão da pesca legal, a violação dos direitos humanos que é real, acho que é preciso ter muito cuidado com o rigor científico. Há uma questão muito complexa que não gostei de ver no documentário, quando no início se critica a atividade que algumas ONG estão a fazer; isso custa-me um pouco, porque estamos todos juntos na luta, não vamos criar divisão numa luta em que precisamos de estar todos juntos e a lutar pelo mesmo. Há ONG que têm feito um trabalho político e a nível de regulação, e ninguém é perfeito ou faz um trabalho perfeito, temos consciência disso, mas não faz sentido desvalorizá-lo. A conclusão de “temos de deixar de comer peixe e carne”, que acaba por surgir, parece-me ótima se as pessoas puderem fazê-lo; eu, pessoalmente, não como, porque tenho a possibilidade e oportunidade, porque o meu corpo também se sente bem com esse tipo de alimentação, mas tenho noção de que nem toda a gente consegue dar esse passo. Uma das críticas ao documentário é que dá uma perspetiva muito ocidental, com essa narrativa de que não existe pesca sustentável. Isso não é verdade. Há comunidades que dependem há imenso tempo da pesca, e não sou eu ou alguém dos Estados Unidos [da América], ou da Europa, que vamos à Ásia ou a África dizer “deixa de pescar” a pessoas para quem a pesca é o principal meio de sobrevivência, por vezes. É interessante a questão do que é sustentável, e de facto há pontos interessantes no documentário, mas há outras que não têm uma base científica e que surgem para chocar a pessoa que vai ver o filme. Acho que temos de ser críticos e fazer o que podemos dentro da nossa realidade. Cada um tem de olhar o que pode fazer dentro do seu contexto, acho que é esse o caminho. 

G. – E fazer uns pelos outros.

B.V. – Totalmente! Há um termo para o que sentimos quando estamos a tentar fazer tudo da forma mais sustentável possível, mas dentro de um sistema que nos está sempre a pôr a prova, ecoansiedade. Eu tento ao máximo: ando de bicicleta, quando vou ao supermercado compro o menor plástico possível, mas há coisas que são maiores do que nós e que são difíceis de evitar. Obviamente, o nosso papel enquanto consumidores é superimportante, e não podemos subestimar isso, mas é sistémico e cada um está no seu caminho pessoal e com as suas lutas pessoais. Quando acabei a universidade tinha muito essa visão de que toda a gente tinha de agir da mesma forma – toda a gente tinha de parar de comer carne e peixe, de parar de consumir plástico –, até que fiz uma atividade de educação ambiental com crianças de famílias carenciadas, em Paços de Ferreira. Eu senti-me superridícula a dizer “quando fores ao supermercado, diz aos teus pais para não comprarem embalagens de plástico e verem a origem dos produtos”. Depois disso, senti-me ridícula a pensar que estava a falar com pessoas cuja preocupação era pensar no que vão comer e ainda lhes estava a dizer para escolherem o que vão comer. Essa situação foi um clique para mim, porque me fez perceber que precisamos de uma mudança estrutural para depois, juntos, podermos pensar nestas questões e haver uma mudança. É muito mais complexo do que simplesmente deixar de comer carne ou peixe. 

G. – De facto há ações básicas que todos podemos fazer – e essas ensinam-nos na escola, por norma, como evitar os banhos longos, não deitar lixo para o chão –, mas há outras que precisam dessa visão interseccional que trazes. Há projetos ou pessoas que te inspirem que aches que podem também inspirar outras pessoas que eventualmente estejam a ler esta entrevista?

B.V. – Antes de mais, sou uma sortuda porque tenho gente à minha volta que me inspira muito. Mas a nível de projetos que as pessoas possam seguir e ver, há alguns fantásticos como o Ocean Alive, que trabalha com mariscadoras da zona do Sado; o Ocean Hub Portugal, claro [risos]; a Sciaena, que é uma organização que começou na Universidade do Algarve e tem feito muito trabalho na questão das pescas e dos plásticos (estão agora com uma campanha chamada Mar, Usar, Recuperar); uma organização do Brasil, mas que também está em Portugal, que se chama Youth Climate Leaders, e que trabalha na área da liderança climática jovem; e há um outro projeto incrível que é a Escola Azul, que pretende levar a literacia do oceano às escolas. Quanto a pessoas que me inspiram, eu sou superinspirada por autores como Mia Couto, que não se relaciona diretamente com o oceano, mas que também é biólogo e os livros dele têm essa conexão com a natureza, ou o Aílton Krenak, em toda sua a obra, mas em especial o livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, que tem sido uma grande referência no Brasil e que nos dá a perspetiva dos povos indígenas. Acho que devemos procurar conhecer pessoas fora da nossa realidade; é superrico conhecer escritores e cientistas de outros países, mesmo que seja para aplicarmos o conhecimento a nível local. 

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia de Beatriz Vinha

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