*Esta é uma crónica da Carolina Pereira, inicialmente publicada na Revista Gerador 36.

Sim, ainda é tema. Infelizmente. E parte do nosso dever é garantir que continua a ser tema, até poder deixar de o ser, quando o povo afegão for livre.

O Afeganistão, as consequências da invasão talibã, da ocupação dos EUA, o que podemos fazer, quem tem culpa, é um assunto complexo e com conteúdo para uma trilogia. Mas vou tentar usar este nosso espaço para reflectirmos sobre uma das questões que considero mais importante: almoços grátis.

Vamos por partes. Tendo em conta o discurso que os talibãs têm tido, num esforço de se apresentarem numa versão mais «moderada» para não levantarem grandes ondas enquanto se impõem no país, é preciso relembrar quem são e o que os move. Os talibãs são um movimento islâmico fundamentalista, extremista e nacionalista, que surgiu na década de 90 no contexto de Guerra do Afeganistão. No início, eram um grupo pequeno, liderado por Mohammed Omar, com o objectivo de combater o governo socialista e a invasão soviética no país. Estávamos na altura da Guerra Fria, ou seja, tudo era dividido e disputado por superpotências, e alguns desses movimentos começaram a ser armados, financiados e treinados por países ocidentais, especialmente os EUA, numa operação chamada Ciclone.

Com esse apoio foram crescendo, invadiram Kandahar, Herat e, em 96, a capital do país – Cabul. Esta última invasão, politicamente, significava que eles estavam no poder, e para o reforçar invadiram uma sede da ONU, onde se encontravam vários políticos (incluindo o ex-presidente socialista que foi capturado, assassinado, e pendurado em praça pública, juntamente com o seu irmão). A partir desse momento, governaram por cinco anos, estabelecendo um estado teocrático, onde as leis religiosas passam a ter poder absoluto, e com aplicação da xaria (lei islâmica).

Proibiram música, televisão e qualquer ligação ao Ocidente, e as mulheres viram quase todos os seus direitos civis destituídos (como estudar, trabalhar, sair de casa sem um homem) com aplicação de castigos como apedrejamentos, amputação de membros e condenação à morte.

E alguém pergunta: «Mas então os talibãs perderam o poder em 2001 porque os EUA se sentiram mal por os terem financiado? Viram que não estava a ser bom para as pessoas e, para se redimirem, foram lá salvar as pessoas afegãs?»

Pois, não.

Em 2001, com o 11 de Setembro, o Afeganistão passou a ser um alvo por «abrigar» os Al-Qaeda (e outros grupos terroristas) a troco de dinheiro. Foi então que os EUA lideraram uma invasão ao país, aprovada pelas Nações Unidas (e internacionalmente por vários países), com três objectivos: retirar os talibãs do poder, devolver um projecto politico de democracia ao país, e capturar Osama bin Laden.

Feitas as contas: meio check, não check e não check. Serviu apenas para anunciar que conseguiram retirar os talibãs do poder (que é só meia-verdade uma vez que não foi «definitivo»). Inclusive Osama bin Laden só é capturado 10 anos mais tarde, no Paquistão. Mas enfim.

O Afeganistão, antes de 79, era tido como um país progressista dentro do mundo árabe, e tudo isto que vos contei foram consequências de invasões e «tentativas de ajuda» (invasões mas do lado «dos bons»). No caso dos EUA, após expulsarem os talibãs de várias zonas do Afeganistão (também – ou maioritariamente – por interesse próprio), nunca existiu um grande esforço em reconstruir o país, e sem isso, já se previa que mal os EUA saíssem do país, os talibãs iriam recuperar o poder e ocupar o território.

E, com o regresso dos talibãs ao poder, voltamos a assistir a políticas que põem em causa direitos humanos básicos, especialmente para mulheres e minorias.

Se valeu a pena essa presença estrangeira durante 20 anos? É difícil dizer que sim ou que não. Todo o processo para o Afeganistão chegar à posição em que está hoje é complexo e antes da presença estrangeira, o Afeganistão teve prosperidade. O país não foi sempre como agora o vemos. As mulheres eram livres, a burca era opcional, frequentavam escolas e universidades, tinham cargos de liderança, etc. É importante relembrarmos isto porque estamos habituados, por tudo aquilo que vemos, a uma imagem de guerra, pobreza e terror em vários países do Médio Oriente e Norte da África e confundimos erradamente a fé e religião com movimentos políticos extremistas que a usam como forma de poder, controlo e opressão.

Ainda é cedo para dizer exactamente tudo o que está em causa para as pessoas afegãs, a quem sempre foi demasiado cobrado um pequeno-almoço que nem sequer escolheram. Vai depender da estratégia dos talibãs, da resistência da população e da solidariedade internacional, que não pode ser como a que temos visto.

Mas o que são bons exemplos? Qual devia ser a abordagem? Quem devia controlar o processo (quem ajuda ou ‘os ajudados’)? Claro que esta não se limita a ajudar e ser-se ajudado, mas o que está a acontecer no Afeganistão deveria fazer-nos reflectir sobre estas dinâmicas de poder, supostamente, colaborativas.

Em tudo o que tenho tentado fazer, umas vezes melhor do que outras, parto do princípio de que a mudança que as pessoas que estou a servir querem ver, é a mudança para a qual devo contribuir – e não a arrogância de achar que sei sempre o que é melhor para os outros.

Por vezes, formas diferentes de fazer as coisas não são necessariamente erradas. E, no percurso da humanidade, temos algum «historial» em impor a nossa visão como a única universalmente correcta. Claro que uma «visão» que viole direitos humanos não é para ser promovida (okay, Karen?).

Os EUA exploraram o Afeganistão e «seguraram» estes últimos 20 anos, mas a troco de uma opressão que os beneficia. Não existiram almoços grátis. Será «segurar» sem deixar um país prosperar para a sua independência realmente solidariedade? Se impedirmos as comunidades de encontrem os seus mecanismos de crescimento, da forma que lhes é sustentável, estaremos de facto a contribuir para a solução?

Empoderamento não é impor cultura, nem o que consideramos progresso.

Empoderamento é oportunidade de escolha.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Carolina Pereira-

Carolina Salgueiro Pereira é uma ativista na área dos direitos humanos, feminismo e media, tanto no terreno, como fazendo uso das histórias para motivar a mudança e organizar movimentos grassroot. É a fundadora do movimento da ONU Mulheres HeForShe em Portugal, que mobiliza os jovens para promover a igualdade de género e os direitos das mulheres e das comunidades LGBTQI+. É a Co-Diretora da Sathyam Project, na Índia, uma organização que apoia raparigas e mulheres através da educação, ajudando a quebrar ciclos de pobreza. Carolina é também uma Global Shaper do Fórum Económico Mundial, liderando campanhas LGBTQ+ e estando envolvida numa série de outras iniciativas com instituições como as Nações Unidas, o Parlamento Europeu ou a Right Livelihood Foundation. Sempre a tentar fazer o mundo um pouco melhor. E sempre melhor a fazer isso.

Texto de Carolina Pereira
Fotografia de Ricardo Silva
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
gerador-bitaites-da-resistencia-carolina-pereira