*Esta é uma crónica da Carolina Pereira, inicialmente publicada na Revista Gerador de setembro.

É muito mau que a segunda crónica desta nova rubrica seja um desabafo?

Este não é um texto «apenas» sobre igualdade de género, direitos humanos, e outras questões relacionadas. É um texto sobre o que é normal, e sobre as coisas que acontecem «naturalmente».

Estou sentada a pensar no que escrever e sinto-me completamente perdida. Não sei qual é «o tema mais importante» para falar neste momento. Existem tantas coisas às quais queria dar voz, tantas frentes urgentes de serem trabalhadas.

O que é que as pessoas estão à espera de ler? O que é que será que não tem sido falado e eu poderia amplificar de alguma forma?

Estive aqui uns trinta minutos a pensar, a murmurar, a fazer listas, e a tentar ser o máximo racional possível: fui rever textos que escrevi, ler alguns dos comentários, analisar o retorno que tiveram das pessoas, e depois repeti o processo e fui ler e analisar artigos de colegas ativistas, bem como os comentários ou o retorno que tiveram aos seus textos. Pensei no que tem acontecido politicamente (por «politicamente», diga-se, na vida) e, entre outras ilações, reparei num certo padrão que surge quando escrevemos, seja sobre aquilo que for: muitas pessoas acham sempre que tudo se resolve «naturalmente».

Existe esta ideia de que as coisas, falando de direitos humanos e de progresso (seja esse progresso diferente para cada um), acontecem espontaneamente. Ou seja, para muitos, nem seria preciso falar delas. Para muitos, este nosso exercício de reflexão, contextualização e consciencialização sobre um problema é completamente obsoleto.

Cisgénero (Cis) é o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspetos, com o seu «género de nascença», e este título não é – em nada – uma crítica a essas pessoas. Estou a manipular esta referência em tom de trocadilho para aquilo que se acredita acontecer «naturalmente», em todos os aspetos, na sociedade.

Se há coisa que acredito que posso falar em nome de muitos ativistas, empreendedores sociais, ou qualquer pessoa que se dedique a gerar mudança, de várias ideologias diferentes, é que a igualdade e a conquista de direitos humanos não acontecem naturalmente. Lamento. Falo a sério quando digo que lamento.

Quem nos dera que fosse tão natural quanto parece!

Os direitos humanos, infelizmente, não são – naturalmente – garantidos por sistema.

Quando falamos de conquistas de direitos humanos, todos os anos são importantes.

A sociedade tende a sobrestimar o que deveria estar a acontecer a curto prazo e subestimar os resultados da consistência a longo prazo.

Ou seja, nada daquilo que milhares de pessoas estão a fazer faz diferença (porque deveríamos estar a ver muito mais resultados) mas, depois, «de repente» e «naturalmente», as coisas mudam.

Assustam-se quando falamos em mudar sistemas. Na visão de quem «vê de fora», falar de mudar sistemas ou olhar para os problemas de uma forma sistémica, é forçar uma mudança. Não há necessidade de se falar tanto sobre determinados temas porque, se os problemas são gradualmente mais pequenos, é porque as coisas têm evoluído espontaneamente.

Acredito que mudar sistemas e olhar para as causas de uma perspetiva intersecional, é uma boa forma de criar condições para que a igualdade surja «naturalmente». Para que os diferentes progressos sociais aconteçam, é preciso mudar sistemas que não estão a permitir que isso aconteça por si só.

As soluções surgem de mobilização, de garantir que os temas continuam nas agendas nacionais (e internacionais), de ouvir quem sofre diretamente diferentes opressões ao invés de «continuar» a silenciar esses grupos, de desenhar propostas em conjunto, de fazer pressão nas lideranças, de entender os bloqueios no sistema que permitem e alavancam desigualdades. Para isso, é preciso continuar a falar e consciencializar.

Outro dos argumentos que algumas pessoas usam para embatucar quem trabalha nestas áreas, sempre que escrevemos sobre alguma coisa que nos preocupa, é o argumento 'Whataboutism' (que é uma variante da falácia formal 'tu quoque' em que se tenta desacreditar a posição do argumentador ao acusá-lo de hipocrisia sem refutar o seu argumento). Ou seja, quando tentamos amplificar e fortalecer os movimentos pelos direitos das mulheres, argumentam que, «por exemplo», deveríamos estar a falar de antirracismo, mas se falarmos de antirracismo argumentam que nos deveríamos estar a preocupar mais com a justiça climática. Sempre sem entender como é que as três coisas estão fortemente ligadas, sistemicamente.

A mudança não é individual, é coletiva. Todos os dias, de todos os anos importam.

Este ano, de 2021, vai ser mais um ano em que é preciso tudo ao mesmo tempo.

É preciso sair às ruas, mas também educar. É preciso denunciar, mas apresentar soluções.

É preciso mostrar qual é o caminho que podemos fazer todos juntos, garantindo que não deixamos ninguém para trás.

Porque, se não o fizermos, vai ser sistematicamente a mesma coisa.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Carolina Pereira-

Carolina Salgueiro Pereira é uma ativista na área dos direitos humanos, feminismo e media, tanto no terreno, como fazendo uso das histórias para motivar a mudança e organizar movimentos grassroot. É a fundadora do movimento da ONU Mulheres HeForShe em Portugal, que mobiliza os jovens para promover a igualdade de género e os direitos das mulheres e das comunidades LGBTQI+. É a Co-Diretora da Sathyam Project, na Índia, uma organização que apoia raparigas e mulheres através da educação, ajudando a quebrar ciclos de pobreza. Carolina é também uma Global Shaper do Fórum Económico Mundial, liderando campanhas LGBTQ+ e estando envolvida numa série de outras iniciativas com instituições como as Nações Unidas, o Parlamento Europeu ou a Right Livelihood Foundation. Sempre a tentar fazer o mundo um pouco melhor. E sempre melhor a fazer isso.

Texto de Carolina Pereira
Fotografia de Ricardo Silva
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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