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Bitaites da resistência: Nem eu. Nem tu. Nem ninguém.

Na Revista Gerador 38, na crónica Bitaites da Resistência, que agora partilhamos contigo, Carolina Pereira fala-nos sobre a lentidão da mudança para quem dela precisa.

©Ricardo Silva

*Esta é uma crónica do Carolina Pereira, inicialmente publicada na Revista Gerador 38.

No mês passado, escrevi uma crónica para o Gerador online que começava com a frase: «A mudança é sempre demasiado lenta para quem mais precisa dela.» A crónica chamava-se «Humildade preta» e falava sobre o facto de a humildade preta ser bonita, mas ter muitas camadas de uma opressão feia.

Uma conversa honesta sobre as consequências do colonialismo é difícil de se ter, principalmente quando falamos sobre como é que essa herança psicológica se desdobra de maneiras – obviamente – diferentes para pretos e para brancos. Este texto também não pretende ser a resposta, mas, pelo menos, o mote. Teremos a humildade para assumir que o mérito é muito subjectivo quando temos em conta as verdadeiras consequências do colonialismo? Teremos a abertura para entender como o colonialismo ainda se reflecte no mercado de trabalho, na estrutura da sociedade, na educação, na liderança, na cultura? Quanto tempo falta para que o normal seja termos as lentes de descolonização até nas nossas conversas corriqueiras?

Lembro-me perfeitamente do momento em que pensei sobre este tema um bocadinho mais a fundo pela primeira vez — não no colonialismo, claro, mas na herança psicológica colonial.

Depois de Os Condenados da Terra, de Franz Fanon, fui a uma livraria procurar mais «livros relacionados», e rapidamente me cruzei com o Escritos Políticos e Psiquiátricos, do mesmo autor, que dá a conhecer artigos científicos, textos originais e escritos dispersos que versam sobretudo, nas palavras do seu editor francês, François Maspero, sobre a «alienação colonialista vista através da doença mental». Não o comprei. Lembro-me de me sentar e, à medida que lia alguns dos textos, parava para pensar e assimilar tudo o que tinha acabado de ler. Várias vezes, no mesmo texto. Não conseguia evitar pensar em tudo – e quando digo «tudo», era mesmo tudo: porque é que eu penso como penso? qual será a herança colonial que tenho quando penso desta forma? no que é que esta herança se traduziu e traduz na minha vida? como é que se pensa diferente?

E depois, claro, pensar nas pessoas que me são queridas: será que A ou B não falaram daquela vez porque acreditavam que não era o seu espaço? Fui eu que fiz com que pensassem assim? Foram os seus pais e avós que lhes passaram essas ideias? Porquê?

Na crónica que escrevi para o Gerador online, inspirada nos discursos que ouvi durante o evento da Power List 100 Personalidades Negras Mais Influentes da Lusofonia, organizado pela Bantumen, escrevia: «Muitos foram os discursos que lembraram os avós, que ainda pertenceram a gerações escravizadas, e passaram sonhos às próximas gerações. Sonhos tão ousados quanto terem o direito à liberdade de viverem a sua vida.

Avós que transmitiram sonhos, mas também muitos medos e castrações: a ideia de que alguns lugares não eram acessíveis, a ideia da não-pertença, de não-reivindicar o seu espaço, a ideia de auto-silenciar a sua voz. São gerações e gerações de famílias que crescem no medo de serem vistos, de aparecerem, de serem condenados, punidos e perseguidos.

Talvez esta seja a conversa mais difícil de se ter. Em algo tão profundo e entranhado como o racismo, podemos mesmo mudar sistemas sem consciencialização e mudança de mentalidades? Não é possível dizermos que vivemos numa verdadeira democracia enquanto existir racismo estrutural.

Fanon aborda este tema da psicopatologia da colonização também num outro livro, Pele Negra, Máscaras Brancas (de 1952), no qual escreve: «O negro é um homem negro, é um homem que, em virtude de uma série de aberrações afectivas, se instalou no seio de um universo de onde será preciso retirá-lo. O problema é importante. Pretendemos libertar o homem de cor de si mesmo. Avançaremos muito lentamente, porque há dois campos: o branco e o negro.»

Dois campos, que, na obra e pensamento de Fanon, não se esgotam na cor da pele e que podem ser ilustrados pela dicotomia opressores versus oprimidos.

Fala-nos das consequências psicossociais do colonialismo nas comunidades racializadas, a alienação do negro através da eliminação, por parte do colonizador, das suas referências sociais e culturais, o condicionamento do negro (do seu papel, da sua identidade, da sua acção, da sua realidade) pelo branco, alicerçado em séculos de escravidão e colonização.

Para além das óbvias consequências económicas e culturais que o colonialismo trouxe, muitas vezes passam-nos despercebidas todas as consequências psicológicas que teve, e continua a ter. Só iniciando esta conversa, com base numa bonita vulnerabilidade, é que podemos ter real consciência destas consequências. Neste momento, não temos. Nem eu. Nem tu. Nem ninguém.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Carolina Pereira-

Carolina Salgueiro Pereira é uma ativista na área dos direitos humanos, feminismo e media, tanto no terreno, como fazendo uso das histórias para motivar a mudança e organizar movimentos grassroot. É a fundadora do movimento da ONU Mulheres HeForShe em Portugal, que mobiliza os jovens para promover a igualdade de género e os direitos das mulheres e das comunidades LGBTQI+. É a Co-Diretora da Sathyam Project, na Índia, uma organização que apoia raparigas e mulheres através da educação, ajudando a quebrar ciclos de pobreza. Carolina é também uma Global Shaper do Fórum Económico Mundial, liderando campanhas LGBTQ+ e estando envolvida numa série de outras iniciativas com instituições como as Nações Unidas, o Parlamento Europeu ou a Right Livelihood Foundation. Sempre a tentar fazer o mundo um pouco melhor. E sempre melhor a fazer isso.

Texto de Carolina Pereira
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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