*Esta é uma crónica do Carlos Manuel Pereira, inicialmente publicada na Revista Gerador 35.

Já não tenho paciência para o politicamente correto na boca de humoristas. Pronto, está dito. Ufa! Os meus colegas que me perdoem (ou não!), mas já não há pachorra para este combate que dizem travar com um putativo monstro que habita no Twitter. Ah, para quem não sabe, o Twitter é uma rede social, onde, entre outras coisas, pessoas privilegiadas julgam conseguir mudar o mundo com 280 caracteres e adultos mal-intencionados conseguem transformar qualquer debate em recreio de uma escola secundária. E aqui entre nós, também há quem diga que o Twitter não gosta de humoristas, mas são os próprios que o dizem, por isso não sei o que pensar sobre isso.

Tornou-se habitual ouvirmos falar do politicamente correto em Portugal. Por exemplo, na política, a direita acusa a esquerda de ser puritana, politicamente correta e com a intenção de controlar e censurar todo o tipo de discurso com qual não se identifique. Enquanto a esquerda devolve as acusações à direita. E apesar de ter surgido em movimentos de esquerda, o politicamente correto foi cooptado pela direita, inclusive, existe uma direita ultraconservadora que o usa e ao tão afamado cancel culture muito bem. Ainda me lembro de quando o Nuno melo (exemplo de um adulto que transforma qualquer debate em recreio de escola secundária) encabeçou uma campanha contra uma série infantil da RTP 2: As Destemidas. Por não concordar com o conteúdo, exigindo a sua remoção do ar.

Já no humor, alguns humoristas passaram a recorrer com frequência ao termo como resposta sempre que visados pela crítica. Quando alguém põe em causa o trabalho de um humorista ou a qualidade de uma piada sua, prontamente, o humorista puxa da carabina que dispara uma só munição: “politicamente correto”. E ao fazer isso o humorista está a impedir que o debate se centre na qualidade do seu trabalho (muitas das vezes quem critica também opta por colocar em causa, num primeiro momento, o carácter do humorista, quando o que importa discutir é o produto que apresenta), e passa a centrar-se no direito a ofender e a ser ofendido, raramente é isso que importa.

Discutimos vezes e vezes se se pode ou não fazer piadas com tudo, se se pode ou não ofender e ser-se ofendido, mas nunca se uma piada está bem ou mal construída, se é básica ou preguiçosa. Sonho com o dia que o debate se faça por aqui.

O que o humorista não sabe, ou se calhar até sabe, mas interessa-lhe pouco, é que ao insistir na cartada do politicamente correto está a perpetuar a ideia de um inimigo imaginário e está a abrir caminho para um universo onde não existam maus comediantes ou más piadas, apenas vítimas. Somos todos vítimas de coisa nenhuma. Somos todos potenciais mártires. Se a montanha pariu um rato, o politicamente correto pare mártires que são perseguidos e silenciados por um papão que vive no Twitter e, parece-me, na cabeça de alguns. Aliás, não deixa de ser irónico que o humorista use da sua voz para dizer que está a ser silenciado. Tem graça e dá para rir.

Este é um discurso recorrente, mas verdadeiro, as redes sociais trouxeram até nós um sentimento de comunidade, mas muitas vezes estas comunidades traduzem-se em pequenas bolhas, onde nos habituamos a falar para aqueles que nos querem ouvir, e que nos validam constantemente, independentemente do que tivermos para oferecer. Desses podemos esperar tudo. Apoio total e incondicional. Dificilmente encontrarão falhas no nosso discurso. Eles gostam de nós e nós deles. São o nosso público. Mas não podemos nos esquecer nunca de que não existe apenas um público, que é o nosso. Por isso, é que não entendo porque é que, mais uma vez, quando criticado o humorista defende-se dizendo que, se quem o valida e apoia, que é para quem ele se dirige não vê mal no que diz (muitas vezes esse tipo de comentário é feito com uma certa sobranceria e arrogância, com o humorista gabando-se da sua vasta plateia digital e da quantidade de salas que esgota, como se isso o tornasse imune ao escrutínio), quem são os outros para o fazer. Os que optaram por ficar do lado de fora da bolha. Se quem está de fora não pode reagir, e se para quem está dentro da cerca parece tudo bem, caminhamos por um caminho demasiado estreito. A ausência de crítica perpetua a mediocridade e parece que alguns estão confortáveis com isso. Eu não.

Dir-me-ão vocês – «mas, Carlos, eles vivem no Twitter e atuam de forma concertada sempre que não gostam de algo e fazem-no para prejudicar o outro». – Tenho sérias dúvidas que seja assim, não se pode ficar chocado pelas pessoas se mobilizarem contra algo que as incomode mesmo que seja uma piada. É uma das consequências de vivermos numa democracia liberal com leis liberais no que toca à liberdade de expressão. E perante a crítica existem vários caminhos possíveis, e surpreende-me que o humorista escolha sempre o da vitimização. Temos de ser mais exigentes connosco, querer mais e melhor, e aceitar quando falhamos, ou quando, de forma fundamentada nos dizem que falhamos. Porque falhar é humano e um humorista é humano, ainda que às vezes pareça um arrogante insensível capaz de ver o mar a arder.

Há dias falava com um grande amigo e colega de profissão sobre o tema, e ele respondeu-me: «Não rir exige mais esforço do que rir. Não rir implica expor um desacordo ou abrir um conflito. E quer me parecer que alguns humoristas levam a peito quando o seu produto não atinge o seu devido propósito. É verdade que existe uma espécie de policiamento de bons costumes, feito por gente paternalista que muitas vezes não capta o contexto e as nuances, também é verdade que há quem simplesmente não consiga achar piada a nada, para o desassossego do comediante que contra-ataca com a desculpa de que está a ser vítima de um boicote, ou, pasme-se, do lápis azul. Pode dar-se o caso de não teres acertado, ou simplesmente haver alguém que não goste de ti, e está tudo bem.» Não podia concordar mais. Tenho pena que alguns prefiram a história que existe uma conspiração. É mais fascinante, admito. E o papel de vítima talvez nem fique mal, uma vez que complementa com o lado frágil que chega a ser uma condição de artista.

-Sobre o Carlos Manuel Pereira-

É um estafeta do humor. Entrega piadas em forma de texto, vídeo e áudio. Tem uma rubrica de humor na RDP África - "Na corda bamba" -, faz coisas para o 5 para a meia-noite, já atuou no palco comédia do NOS ALIVE enquanto o AGIR fazia soundcheck no palco principal. E agora escreve aqui.
Tem 29 anos e assina com três nomes para fingir ser, entre os amigos, um pequeno burguês. É o autor da crónica "Caderno de encargos".

Texto de Carlos Manuel Pereira
Fotografia de portuguesegravity
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
gerador-cardernos-de-encargos-carlos-manuel-pereira