Os mais jovens falam do abril que não conheceram. Citam, recordam e rebobinam. Imaginam os pais pequenos e os avós adultos. 

A brincar com bonecas de pano, à macaca e ao pião. Muitos não tinham televisão, mas ouviam rádio com antena. Andavam de autocarro e a moeda era o tostão. As fotografias, a preto e branco, têm recordações de um tempo que não volta atrás. A mãe usava uma camisa de bombazine e o pai umas calças do irmão mais velho que ficou para ele. O avô talvez estivesse a trabalhar por turnos e a avó a fazer o que passámos a chamar teletrabalho. Podia costurar, ou fazer outra coisa qualquer, e cuidava de todos. 

O 25 de abril é a nossa cultura, que deixou um legado. É imaginar Salgueiro Maia e os seus capitães. Ler histórias antigas, que deram livros. É ouvir Paulo de Carvalho com a letra “E depois do Adeus”; é clamar o lendário verso de Sophia de Mello Breyner “Esta é a madrugada que eu esperava”; é cantar Zeca Afonso com voz pujante, corpo tenso, que traz uma emoção que não se explica, mas se sente… 

Esta é a data que cabe em todos os lugares. Lembra: Alentejo das planícies, com sobreiros e oliveiras; Lisboa em silêncio à noite, que vislumbra o Tejo a olhar para a Margem Sul, e o barulho do dia que se ouve no Terreiro do Paço; Porto, por onde se caminha, vê o rio com o resto do Norte, forte. Abril lembra: Centro, Trás-os-Montes e serras, onde se respira natureza; Algarve da areia quente e do mar calmo e a Costa Vicentina do rochedo. As ilhas aqui ao lado, que muito nos dizem. É Portugal e as terras que viraram cidades, as aldeias que ficaram mais singelas. 

Pressente-se a Revolução como uma parte nossa, porque podemos celebrá-la hoje. De janela em janela com músicas no ouvido e com o pensamento nas ruas vazias, que ficarão cheias. 

O abril da liberdade de 1974 é o abril da esperança de 2020. É acima de tudo recordação, vontade de dizer, fazer e ser. Coragem, momentos que se partilha em tela e famílias que se juntaram. 

Um dia, numa conversa que nada tem a ver com esta data, perguntaram-me qual era a minha flor preferida. Respondi que era o cravo. Surpreendido, como se estivesse à espera de ouvir o nome da rosa ou do girassol, perguntou porquê. Não me acanhei e afirmei: “Porque é a flor que está na campa do meu avô!” 

Este dia é dele, e de todos aqueles que gostariam de estar juntos e que hoje não podem estar. 

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Texto de Sara Mendes
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