Oiço a última chamada para embarcar e dou um passo firme. Já sentado naquele espaço onde a expectativa dança ao sabor da curiosidade e se mistura com o nervosismo, começo a falar. Costuma ser assim nos aviões, mas estou apenas na primeira aula de escrita de viagens. Há palavras ditas apenas para nos assegurarem que fazemos mesmo parte desse lugar. Confirmo-o:

“Sou o Francisco e as minhas paixões são viajar e escrever. Tenho um blogue sobre o assunto: descoolando.”

Ideias tão banais que apenas um professor cordial se poderia fingir interessado. Prometer que tornará milionário o aluno ou que no final do semestre será publicado em algum lado, já poderá ser apenas o nervosismo do professor a transbordar para as nossas mesas.

Acredito como Afonso Cruz que “as paixões não se devem profissionalizar”, apesar dele próprio ser apaixonado pela escrita e viver dela. A viagem como paixão utópica fascina-me. A escrita como necessidade para esclarecimento terapêutico ou como um caderno amador que tatua as ideias do próprio autor, penso que seja essencial a toda vida humana, que numa perspectiva aristotélica, merece ser vivida apenas se for analisada.

“Toda a viagem parte de um plano. Se não programarmos motivos para interagir com o estrangeiro a viagem torna-se mero passeio.”

Perante esta afirmação do professor tornou-se obrigatório abandonar esta viagem logo no seu início. Porquê? Porque a viagem se quer livre. Livre de planos, de esquemas e de objectivos. Pois tal como António Tabuchhi defende, “sou um viajante que nunca fez viagens para escrever sobre elas, o que sempre me pareceu estúpido. Seria como se alguém quisesse apaixonar-se para escrever um livro sobre o amor.” A liberdade encontra-se no acaso, no inusitado e na possibilidade concreta de nem haver texto para escrever. É contra essa forma de viajar que se posiciona a perspectiva da viagem como trabalho. E essa etimologia que mente unindo viagem a trabalho (travel-travaille) mata a paixão de podermos fazer o que gostamos esquecendo a produtividade que nos é inculcada desde o início.

Pleno, parto vivo na descoberta da minha própria cidade.

No meio do caos urbano que me atravessa, consigo encontrar a paz no silêncio das linhas invisíveis de Calvino. Não preciso de conversa, não preciso de vozes apenas da companhia de uma chávena de café Delta que me desperte os sentidos.

Os sons podem acompanhar uma viagem literária? Creio que sim, pois leio sobre Tello na Ler Devagar e surge o tango electrónico dos Gotan Project. Na Mouraria, esbarro em Cesária a cantar “Besame Mucho” de forma morna, enquanto África aquece o nosso coração europeu.

Os becos matinais respiram Fado pelas pedras que silenciam esta voz de saudade, talvez tenha fugido para as periferias, talvez a melancolia se encontre no silêncio de uma cidade que apenas se permite ser interrompida pelas carruagens de pássaros, pelas conversas das vizinhas que rasgam o panorama. Os eléctricos mais vazios não descansam, as obras não param e a cidade continua a não ser das pessoas.

Lisboa tem várias cidades dentro. Lisboa tem escadinhas e arcos que escondem outros sítios. Mergulha-se e encontram-se vidas inteiras transformadas e vendidas como experiências típicas. Há pessoas que nunca saíram daqui e agora vêm-se com a vida já perto do fim, a contar histórias que ouviam das suas avós.

As línguas entrelaçam-se, o francês sobe, o castelhano desce, eleva-se o inglês. Cidade penetrada pelos variados movimentos internacionais, Lisboa será sempre capital. Onde vivia um casal português dormem agora dez asiáticos. A mutação desta cidade em diferentes latitudes.

Deambulo pelos estreitos do Intendente, onde cabem a imagem dos bairros de Bangalore, os aromas de Peshawar ou as cores de Bombaim. Há anos que não passeava pelo submundo de quarteirões que nos transportam para outro continente. É imediato. Desço um quarteirão sem gastar um euro e viajo para a Ásia.

Será que os xenófobos têm noção do que perdem neste luxo acessível a todos os lisboetas?

A estreita rua nos indica pelo nariz onde chegámos. Os azulejos árabes misturam-se agora com os restaurantes que usam o caril como base (substituíram as parreirinhas), talhos halal, lojas que vendem tecnologia a cêntimos, agências de viagens e de envio de dinheiro. Os barbeiros que prometem cortes ocidentais arrojados. Um homem de barbas longas de chéchia na cabeça, pés ao relento, bebe o chá que fumega, e à porta de um destes negócios diz-me com o ar mais pacífico que encontrei: salamaleico. Respondo, seco e sem salamaleques: bom dia.

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Texto de Francisco Mouta Rúbio
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