Misturavam-se com as montanhas que recortavam a paisagem. Desaguisadas, sem traço certo, deixavam as nuvens relaxar à sua passagem. As nuvens, essas, desfaziam-se pelos elogios da serenidade do olhar de quem já desistiu há muito de as tentar tocar. Permitiam-lhes refazer-se à vontade, sem a pressão de eternizar figuras. Trocavam o ar rarefeito, pelo horizonte de cortar a respiração. Não a sustinham, por estarem habituados ao incomensurável tamanho dos gigantes rochosos. Faziam-no de peito cheio e olhar vidrado de memórias a desafiar a altitude, à qual se habituaram a chamar casa. Telha por telha, fora construida de suor por laços de sangue, que com eles perduravam naquele sitio só seu.

Não prosperam pessoas altas. Em tamanho, diga-se. Não na força para vencer as intempéries imprevistas, a saltar de um boletim meterológico feito de dores nos joelhos. São baixos, a compensar os mil e tal metros a aproximarem-nos do céu e a tirarem-lhes o chão, só visto ao longe. Passeiam-se curvados com montes às costas, vendo a vida passar nos cumes de rochas, outrora paletes de côr. No topo da Serra, não há lugar a contemplações de distâncias. Palmilham-se trilhos tão conhecidos como as mãos esfoladas de horas de trabalho, o melhor relógio de todos. O tempo não acelera, nem mesmo querendo. São horas de vento a empurrar corpos já em movimentos rotineiros de molduras feitas. Imortalizam-se momentos com o olhar pesado, de vidas simples, sem a azáfama de um trânsito de almas, sem a urgência de mudar hábitos. Preocupam-se com o que lhes está perto do peito, largando o longe da vista para quem vive de desatinos.

Sem folhas, deixam-se florescer ao ritmo dos dias árduos de quem trata o frio por “tu”. Vivem a passo de subida, no íngreme caminho da pacatez. Não existem vales a valerem o esforço de se indignarem com o cansaço. Abraçam-no. De peito aberto e costas a acatarem a dor dos anos a subir. Não para um topo, mas para mais um dia de lavoura e da madrasta subsistência, que não permite férias. Permite a paz de uma simbiose quase perfeita com a natureza que os rodeia. E os trespassa. Com a pureza necessária de quem não tem segundas intenções.

Olham os vultos dos visitantes da Serra, com a brisa da novidade. Estranham o ritmo alucinante de carros a estragar o rugido do vento. Contemplam, parados, estas estranhas formas de vida que vêm pedir emprestada essa calmia, esse ar tão puro, que fere os pulmões encardidos da rotina citadina. Não negam ajuda, conhecem o mais fácil dos caminhos para quem tem pressa de chegar ao lugar onde não ficará. É tudo o que se procura: sítios de passagem, para lhe passarmos o carimbo do “estive sem estar”, para ser imortalizado numa fotografia tirada para outrém, não para nós. Para divulgarmos uma paisagem entendida pela metade, para receber uma validação que nos enche de menos a alma. Deviam trocar-se fotografias por minutos de ar puro, aquele a libertar pensamentos e a alargar horizontes.

As pessoas e as Serras vivem numa história de amor eterna. Quem lá nasceu – e por lá morrerá – aprendeu a respeitar gigantes, a viver deles e com eles. Não se intimidam, deixam a brisa constante encher-lhes o corpo de coragem e encaram a vida com o sossego de quem está em paz com o que o destino – ou falta dele - lhes trouxe. Estaremos sempre seguros, quando deixarmos o nosso futuro correr com a natureza.

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Texto de António Barradas
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