Pus-me a trautear memórias. Não sabia dar-lhes corpo de outra forma. Faltava sempre uma orelha a compor a fisionomia pouco adulta da vida que me ia na cabeça. Depositei a esperança num “na na na”, saído fora de tom, sem letra, sem sal, com as imagens a esfumarem-se e o toque da irresponsabilidade lá ao longe, fora de qualquer alcance vocal.

Tentei de tudo, mas a reminiscência não me deixava alterar o tempo verbal. Estava encravada no passado. Presa, a inflamar o que podia ser uma cura. Arregacei as mangas, peguei no ferro e aticei-lhe fogo para ser mais fácil puxar por elas. Mãos à obra, deitei eu com a crença de a soltar no universo. De lhe dar a prescrição certa para me sanar a momentânea angústia de saber que nada volta.

Por fim, cantei. Cantei essas memórias que de repente eram um Verão à torreira do sol, sem sestas a meio da tarde e um lanche reforçado de areia a rodos, envolto nuns dedos pequenos de mais para apontar erros.

Era sábado e o dia parecia eterno. Entardecia e eu só amanhecia. Minuto a minuto, era cada vez mais um pássaro da madrugada a anunciar a chegada da fria luz matutina. Naquela altura era eu o despertar azul a fazer contraste com a negritude do céu. Nesses tempos, que de mortos só tinham a impaciência de quem assistia. A madrugada era quando quisesse. Emergia tal e qual a bandeira de desejos impossíveis, hasteada com a inocência de um futuro sem fronteiras.

Um solidó fora de tempo e os males não voaram na mesma. Agarrados à taça dos sonhos, grudados nas rachas cada vez mais demarcadas pelo anos gastos, os males fincaram o pé. É um erro não deixar os pensamentos diluir até espelharem apenas laivos de dias eternos. Há sempre uma veia saudosista mais saliente a destruir este castelo de cartas, criado com recortes bonitos da nossa gaveta de recordações  

Não saíam por nada.  Colavam-se ao desespero da poeira levantada pelo apaziguamento ido. Tic-tac e lá acordavam eles. Ouvem o ruminar do cérebro, para começar a medir a meta dos falhanços. Não se espraiam facilmente na meninez de uma lembrança. Ziguezagueiam para nos obrigar àquele esforço hercúleo de interpretar a música toda e deixá-la ser esse dia de Verão de 2001 ou aquele serão pincelado de bocas sujas e cotovelos esfolados num qualquer vale onde as gargalhadas eram o pêndulo.

Quando, ao custo de um vergonha palpável, sai a letra a compasso, os males perdoam a dívida e os juros da desilusão pagam-se com os sonhos. Vão para cima, como esse ar quente. Sumidos tal e qual o fumo de um cigarro longo e demorado, fumado numa janela onde o que se faz mais é reviver.

Resta-me alimentá-los, aos sonhos. Cantando. Quem canta, terá sempre uma arma a mais na hora de enfrentar os males.

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Texto de António Barradas
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