Quando era pequena, escrevia cartas. Escrevia cartas por tudo e por nada. Quando era por tudo, era para pedir desculpa. Ou então para pedir alguma coisa. Ou até mesmo para agradecer. Era pequena e não sabia falar. Sabia sentir. E sabia escrever. Não sabia falar sobre o que sentia. Era pequenina, então escrevia. Escrevia cartas ou pequenos papéis. Talvez a minha mãe se lembre de uma destas vezes. Poderá mesmo rir ao lembrar-se de alguma pequena nota deixada na cómoda à entrada de casa. Provavelmente para pedir alguma coisa, ou avisar que tinha tido má nota no teste de matemática. Era pequena e sentia assim. Quando era para pedir desculpa, escrevia. Escrevia e deixava a carta à porta do quarto de quem me dirigia. Era pequenina e só assim fazia sentido. Escrevia por tudo, para tudo, sentindo tudo. Mas também escrevia por nada. Essas cartas nunca foram lidas, talvez nunca tenham sido escritas. Quando era pequena, imaginava muito e ficava dentro do meu mundo. As cartas do nada, nada mais eram que pequenos desabafos de criança. Uma criança pequena, com a vida pela frente. Com pouca vida ainda vivida. Mas mesmo assim escrevia, por tudo e por nada, como se soubesse tudo o que a vida me esperava. Dor, amor, desespero, saudade, alegria, tristeza, medo. Quando era pequena, escrevia cartas sobre o medo. Mas era pequenina e tinha medo de as escrever. Tinha medo de alguém as ler e ficar a saber o segredo que o medo esconde. E escrevia sobre o amor, sem saber o que era. Era pequena, e não sabia o que era o amor. Se alguém souber, por favor escreva-me. Sou crescidinha e ainda não sei. Era pequena e escrevia sobre o amor, sem saber bem o que era. Inventava o que poderia vir a ser. O que poderia vir a sentir. E talvez seja isso, o amor. Uma invenção nossa. Uma carta de criança. Sincera e inocente. Quando era pequena, comunicava por cartas, pequenos papéis, pequenas notas que deixava pela casa. Mas só quando queria falar sobre tudo. E sobre nada também. Quando tudo o que sentia era desconhecido à minha fala, e só na escrita se encontrava. E quando nada sentia e isso me assustava. Era pequenina e tinha tanta emoção dentro de mim. Já sou mais crescida e continuo a escrever. Já não deixo pela casa mas arranjo outros sítios para me expressar. Sou crescida e quero que me sintam. E quero que me escrevam. E quero escrever a quem pedir. A quem for ainda pequenino. Ou já crescido. Quando era pequena, escrevia cartas. Agora sou grande e continuo a escrevê-las. Cartas sobre o Tudo e sobre o Nada. Poesia de criança, livre e pequenina. Como eu fui quando escrevia à luz do dia na minha escrivaninha.

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Texto de Catarina Mendes
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