Na redação de um texto, crónica ou poema é importante ter em vista uma imagem. Pode ser uma fotografia, uma pintura, um simples desenho ou até uma memória. Esta representação gráfica que se esbate num tempo anacrónico guia o autor a um lugar fora de si mesmo. Leva-o pela sua mão até ao espaço onde nada mais se encontra para além da representação gráfica e do homem que o segue. O fenómeno da visada sobre a imagem é simultaneamente o caminho e a meta. Lá se encontram ambos.

A partir daqui geram-se as palavras. Primeiro algo abstrato, estranho e insensível, fora do panorama da linguagem onde somente aquele que se encaminha para a imagem compreende, sem se consciencializar de tal compreensão. Depois dá-se uma certa metamorfose e dactilografam-se no sentido subjetivo do homem as palavras, de tal modo que se incorporam na linguagem comum. Assim podem circunscrever-se nos textos, crónicas ou poemas – mas perdendo sempre uma determinada parte de si, o silêncio. Quando o fenómeno salta para o mundo e se compartilha com os demais, somente uma réstia daquilo que realmente se percutiu no caminho e meta da visada é que se cicatriza. Jamais um texto, crónica ou poema podem ser fiéis ao fenómeno.

Ainda assim sobeja a tentativa e aí dá-se o estilo. Colocar esta palavra ante aquela, ou outra. Tal frase cortada, ideias apagadas, cadernos no lixo... tudo isto faz parte do estilo. E toda a prosa se livra de determinados julgamentos se for verdadeira e fiel ao autor. Por exemplo, o amor redigido nunca será amor, somente um eco pobre do sentimento. Ainda assim a fidelidade deste eco para com as mãos que o calcaram na folha pode despontar o sentimento naquele que lê – mas nunca na folha, nunca nas palavras... inversamente chegam através da linguagem comum ao sem-lugar da imagem, fotografia, pintura, memória e despojam-se das palavras, volvendo ao fenómeno inconsciente.

A perseguição de génios, as buscas incessantes de deuses nas palavras são apenas “cultos”. O culto do escritor, da biografia do autor. Ou da amizade, da camaradagem entre “personas” literatas que trepam os muros às cavalitas uns dos outros. Para estes o estilo é o que menos importa. A reminiscência abstrata à imagem original é lavada num rio qualquer, até se desbotar a negritude das palavras e sobejar um borrão. Fica antes a fotografia ao canto, com o nome, semelhante a um túmulo e um epitáfio biográfico.

Os que podem ainda vir a salvar a tentativa efémera do autor de cair no borrão, ou na fama do túmulo, são os que realmente o leem. Pegam no texto, crónica ou poema com a delicadeza de tocar nas bordas de uma ferida ainda por cicatrizar, e cicatrizá-las em si, como uma tatuagem. Isto é, elevando o texto acima do nome do autor, viajando até uma morada sem indicações, encontrando o próprio grafismo que cicatrizaram em si outrora.

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Texto de Márcio Luís Lima
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