Hoje, algures durante a tarde, faltou a luz. É um golpe baixo fabricado pelos Deuses, dado que, neste momento, recorremos à escapatória da televisão ou da Internet para acautelarmos melhor a passagem do tempo.

Só durou alguns minutos, mas a verdade é que foi um desígnio apetecível e engraçado de vivenciar.

Nos dias que correm, ficar em casa desprovido de eletricidade alavanca ainda mais o estado psicadélico do ser humano. Se a maioria da população foi obrigada a ficar em casa, efetuando algo parecido com a alegoria da caverna, de Platão, pelo menos que não falhe a luz.

Para mim, esta investida dos Deuses malditos não acarretou qualquer consequência singularmente deprimente.

Se os Deuses queriam fazer este jogo comigo, e encostar-me à parede com o intuito de sabotarem as minhas opções, acho que acabei por fazer-lhes xeque-mate. E eu nem sei jogar xadrez. 

Comecei a folhear o livro que estou a ler. Lá fora, o vento fazia ainda mais barulho que o normal. Pirraça dos Deuses.

Eles tinham dado permissão aos gladiadores para lutarem entre si. O som das espadas a colidir, ecoava através das rajadas que embatiam contra as muralhas das minhas janelas.

Mas era desnecessário. Eu já estava concentrado na mensagem de Mia Couto, e não havia muito que eles pudessem fazer para cativar a minha atenção.

Momentaneamente, podem ter forjado meia dúzia de armadilhas para que os fatores de ordem natural ficassem adormecidos. Porém, era impossível terem controlo nas páginas.

Por muito poder que comportem, os Deuses não têm acesso aos livros. Por muito que possam desligar-me do mundo durante alguns minutos ou horas, não estão aptos a saquear histórias.

A luz faltou. A ligação à Internet foi interrompida. As notícias de última hora sobre o vírus, que passavam na televisão, desapareceram. O meu telemóvel estava com pouca bateria, e já nem sobrava tempo para inventar alternativas.

O único sobrevivente ao temporal era o livro. Estava em cima da secretária, exatamente no mesmo sítio onde o tinha deixado na noite anterior.

As letras não tinham desaparecido das páginas. A história continuava lá para mim. Os Deuses barafustavam lá fora, e eu mergulhava de novo naquele universo de Mia Couto. Não havia nada que eles pudessem fazer.

E o livro vai continuar por cá. Vou poder revisitar a história sempre que quiser. E os Deuses vão continuar a assistir do trono.

E é por isso que, às vezes, os livros têm a ousadia de enfrentar os Deuses. Os Deuses não podem sabotar os livros, mas os livros, as histórias e os autores podem sabotar os Deuses.

Eu não gosto que tentem sabotar os Deuses, mas também não aprecio que eles me roubem a Internet.

Deuses, façamos então um acordo de cavalheiros. Vocês suspendem os temporais neste período de quarentena, e eu tento prestar mais atenção ao planeta quando sair da minha toca. De acordo?

Vocês é que sabem. Eu tenho vários livros para ler.

Já não bebia um cimbalino há um mês. Nem sequer estou a escrever do Porto, mas, na minha modesta opinião, é mais perspicaz constar que estou a beber um primogénito da La Cimbali, do que confirmar que, de facto, o café caiu em bica da máquina.

O cimbalino é da velha guarda. O sabor reativa a mente, e proporciona um certo alento. O cimbalino pode estar para nós como João da Ega está para Carlos da Maia.

É um velho amigo. É nosso confidente. Acima de tudo, o cimbalino é um revolucionário, realçando a fidedigna faceta de Ega. Ajuda-nos a seguir caminhos ardilosos, e é ateu, porque não quer entrar em conflito com quem possa escolher a sua companhia.

Eu estava com a pulga atrás da orelha, só que essa bebida dos Deuses até vem servida num copinho de plástico. É beber e desinfetar logo as manápulas.

Enfim, até dizem que as bebidas quentes ajudam a arruinar o bicho. Então, às duas por três, um cimbalino por dia nem sabe o bem que lhe fazia.

Também fui visitar os avós. Vislumbrei-os da rua. Eles estavam à janela, esperando pela nossa chegada. Uma Páscoa improvisada, mas alegre.

A avó acha que eu agora leio por dá cá aquela palha e, portanto, decidiu reunir várias obras e coletâneas que tinha lá em casa, para eu poder levar. O importante é aprimorar o meu nível de cultura geral.

Ela tem os cabelos às ondas, e até usa uns óculos. Por isso, enquanto ela apresentava aquelas sugestões, não pude deixar de efetuar o paralelismo entre a sua pessoa e o Nuno Rogeiro.

Ainda pensei que iria abrir ali um debate à janela, para analisar toda a conjuntura internacional, ou então para dar a notícia de que o “Luisico” tinha ajudado a salvar o Boris Johnson.

Em tempos, houve quem insistisse demagogicamente para que os nossos enfermeiros abandonassem a pátria de Camões, e fossem entregues ao “Deus dará”. E agora, um deles tem a mestria de salvar uma das figuras principais das terras de sua majestade, a pátria de Shakespeare. É curioso.

Adicionalmente, seguindo a tal linha de recomendações, também pensei que a avó ia sugerir o trabalho de alguns cantores, para que me pudesse entreter no que resta da pena a cumprir.

Sei lá, ainda ponderei que, num momento de pura liturgia, fosse aconselhar alguns trabalhos daquela juventude da década de 1960, como Os Tártaros, os Ekos, os Espaciais, Os Conchas ou até os Conjunto Mistério

Foi tão bom poder vê-los hoje. Tenho a certeza de que toda esta privação vale a pena. Que raio. Quando comparado a este jejum de afetos, o da carne nem se compara.

E pronto, lá regressamos a casa. Vamos continuar a viver esta aventura contra o relógio. Ao fim e ao cabo, quem até deve estar bem lúcido é o Tozé Brito. Afinal, há muitos anos atrás, adivinhou as peripécias que podemos ter de enfrentar durante a madrugada.

“Uma da manhã

Um toque, um brilho no olhar

Duas da manhã

Dois dedos de magia

Às duas por três

Quem sabe onde isto irá parar

Quatro da manhã caindo

Um luar de lua lindo

Uma gota a mais

E o chão ia fugindo”

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Texto de Manuel dos Reis
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