Deixem a morte tocar-me ao de leve, se ela assim o desejar. Chovia. Raúl saiu à rua. A roupa colada ao corpo, a água fria na pele. Momentos antes, deixara-o a dormir no sofá, colocara o gato enroscado no colo e tapara-os, carinhosamente. Antes de sair, regressara por uma última vez para compor o cabelo que tapava os olhos de Francis. Fechados, num rosto sereno, morto, pensou Raúl. Depois, desceu as escadas que conduziam à rua e caminhou pelo passeio. A chuva redobrava de intensidade. Sentia saudades dos dias em que Francis se deixava tocar, primeiro ao de leve, na ponta dos lábios, e depois na face, nos cabelos sedosos e, por fim, quando os olhos seguiam as mãos que contornavam o pescoço e paravam sobre os seus ombros, ele sorria. Nas casas alinhadas ao longo da rua, e nas varandas debruçadas sobre o passeio, Raúl via os rostos que o olhavam. Inexpressivos, atentos, mas sem ver, absortos na leitura de um livro talvez, ou simplesmente fechados, Raúl imaginava-os como os cegos que se colocam à janela para ouvir, mesmo sem escutar as vozes e os ruídos na rua. Mortos talvez, pensou Raúl. Francis despia-se lentamente e colocava a roupa dobrada nas costas da cadeira. Demorava uma eternidade, e depois sentava-se na cabeceira da cama. O corpo era fibroso como o dorso de um jovem potro. A água corria velozmente pela berma. Já não levava detritos nem folhas secas, os despojos dos veraneantes e das árvores que se despiam do verão, e corria límpida, com reflexos prateados de céu refletido. O desejo impaciente fazia-o tremer. Raúl sentava-se ao seu lado e abraçava-o. Ficavam ali, juntos, até sentir o calor do corpo passar de um corpo para o outro. Os dedos eram lábios e as mãos eram palavras. Um remoinho escondia a abertura no solo por onde a água descia para se juntar a centenas, a milhares de rios subterrâneos que seguiam na direção do mar. Raúl parou debaixo de uma árvore para se abrigar. Tocou no tronco liso e macio. Era como a pele de um jovem potro, pensou. Teria estado a caminhar durante quanto tempo, perguntou-se? Com Francis, as tardes eram sempre mais longas, parecia-lhe que as horas se atrasavam. Quando já só conseguia ver o contorno do corpo desenhado sobre o quadro das janelas abertas, Raúl imaginava que lá fora, no crepúsculo caindo rapidamente, talvez se vissem algumas estrelas. O casaco estava completamente ensopado e a roupa colara-se ao corpo. A água brilhava sobre a pele dos sapatos. Com as mãos nuas, Raúl puxou para trás o cabelo que lhe caía sobre o rosto. A visão de um homem que caminhava há horas debaixo de uma chuva intensa era seguramente estranha, mas quando Raúl olhou para as janelas das casas em redor, viu que os rostos não olhavam para ele. Eram inexpressivos, estavam atentos, mas sem ver, talvez absortos na leitura de um livro, ou simplesmente fechados. Eram como os cegos que se colocam à janela para ouvir, mesmo sem escutar as vozes e os ruídos na rua. Estão todos mortos, concluiu Raúl. Deixem a morte tocar-me ao de leve, se ela assim o desejar, disse em voz alta. Quando sentiu que lhe tocavam no ombro, estremeceu e voltou-se rapidamente. Francis olhava-o, sorriu e puxou-o para junto de si. Protegidos pelo guarda-chuva, regressaram a casa. 

Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o geral@gerador.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.
Texto de José Valério
gerador-carta-do-leitor