Não é bem um barco. Talvez um navio. Daqueles do filme do qual todos ouvimos falar. Com compartimentos distintos para cada carteira e estatuto, com almofadas e sabonetes de diferente fabrico. Não vá a coisa correr mal com a mistura. Do mais despojado ao cúmulo da quantidade de apetrechos. E agora que se adivinha o naufrágio queremos todos os igualíssimos botes salva-vidas.

Há instantes atrás sabíamos já do infindável número de zeros da acumulação de riqueza e do seu paralelo na escassez. A política do consumo desenfreado e estéril. A precarização dos vínculos de trabalho, num abuso claro de quem emprega. A inacreditável realidade dos lares, que enfrentamos como avestruzes de cabeça na areia. Trabalhadores agora da máxima importância que em muitos casos sobrevivem com salários quase simbólicos. Empresas pequenas e médias que só têm apoio lá pela altura de outro tipo de summit. Profissionais de saúde que têm uma salário muito inferior a todas as palmas que agora recebem. A habitação como um luxo. Cidades cheias de gente ofegante que se atropela para sobreviver ou sobressair. Pessoas que pagam demasiado por uma qualidade de vida que não têm, o que contrasta com a falta de investimento e planificação noutros territórios esquecidos. Lideranças que se desdobram em cargos e chefias reflectindo, na maioria dos casos, uma inoperância constrangedora. Uma democracia representativa resultante de uma abstenção demasiado alta para que o seja verdadeiramente. Grande parte da comunicação social cada vez mais refém também ela de lucro, sensacionalismo e falta de informação credível.

Falta de interesse que resulta, em grande medida, da falta de transparência dos sistemas, de uma educação cada vez mais padronizada, orientada para resultados, que apela pouco ao pensamento crítico, à reflexão. A cultura que não é levada a sério, bem como as ciências sociais que quase têm de pedir para ainda existirem. Falta de planificação estratégica que ajude a formar um modelo verdadeiramente sustentável. A saúde mental como um dos aspectos cronicamente mais descurados, estigmatizados e ignorados, agora comentada com honras semelhantes às da falta de cálcio nos ossos. Produção para uso frenético e descartável de tudo o que a muitos ainda continua a faltar. Desespero pelo imediato, o pronto-a-consumir. Frustração e impaciência.

Guerras e conflitos que se eternizam. Instituições com dinâmicas demasiado opacas que operam um espectáculo de marionetas há muito em cartaz. Solidariedade e empatia só em último recurso. Falta de voz para quem de facto vive um dia a dia que mais não é que a espera pelo fim do mês. Um mundo que apregoa exactamente o contrário do que teima em fazer e cuja incoerência e desresponsabilização dos seus representantes políticos é evidente. Comportamentos que adoptamos sem questionar, na lógica do come ou sê engolido. Política de circunstância, de reacção, modas e interesses.

A urgência da nossa capacidade de reflexão sobre o significado prático de democracia até aqui tem acabado, invariavelmente, encolhido entre ombros mais musculados numa multidão de temas. A sua subjacência, não raras vezes, é tida como pretexto para que se fale sempre à sua volta e jamais a tomemos, empenhadamente, como tema principal. O desafio de cumprir a democracia em meio de um capitalismo cada vez mais voraz, exige que esta seja não apenas base ou fundo mas também superfície, à tona.

É verdade que as premissas gregas há muito se instalaram somente em imaginário. Verdade também que os direitos e liberdades que lhe acrescentámos como conquistas são muitos e imperativos. Mas que não nos devem distrair nem ausentar dos desafios e desequilíbrios que ainda regem a forma como nos relacionamos e como agimos em sociedade.  Amarrados à ideia de que a relação de poderes terá sempre de acontecer nos moldes vigentes, reclamando justiça e igualdade em jeito de suspiro. Para onde, de facto, queremos ir quando sairmos de casa? Quem nos leva o leme e com que motivações e escolhas se guia? São precisas respostas. Para que não nos lamentemos repetidamente do que escolhemos ser, para que o descaso e a incompetência não sejam, interminavelmente, uma fatalidade.

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Texto de Tatiana Azevedo
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