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Carta do Leitor – Desconstruir a Neuronormatividade: um chapéu de cada vez 

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Lua Eva Blue, que nos fala sobre a experiência de ser uma pessoa neurodivergente.

Eu sou autista. Tenho hipersensibilidades e uso os mesmos abafadores de ruído que  trabalhadores de obras pesadas, mas para ir ao supermercado – este é apenas um exemplo de  como algumas pessoas autistas se adaptam para navegar neste mundo. Felizmente, as pessoas  não se importam com a forma como alguém se veste para ir às compras. Outros autistas precisam usar chapéus por causa da luz. Aqui talvez já seja mais difícil navegar: ao nascermos somos  inseridos numa cultura que se desenvolveu a partir da experiência e ideias da maioria, e como tal  impõe as suas percepções sobre as nossas ações individuais - e algumas pessoas na nossa  cultura ainda vêm o uso de chapéus em espaços interiores como algo rude. Já vi testemunhos de  autistas que precisam de óculos de sol mas que têm receio de pedir permissão para os usar no  trabalho. 

Alguns autistas têm dificuldade no contacto visual. Parece um detalhe inofensivo, mas em criança  um professor disse que eu era “armada em boa” porque não olhava os outros nos olhos – uma  pequena gota de como é crescer com autismo na escola. A nossa forma de ser é vista como “agir  de forma suspeita”, o que pode levar a problemas. Até hoje, há contextos formais em que me forço para agir como se fosse “neurotípica” (termo que por vezes se usa para falar de pessoas sem  condições mentais – oposto de “neurodivergente”). Por exemplo, falo menos, ou fico calada, para  não me bloquear tanto nas palavras. 

Usa-se o termo “neuronormatividade” (neuronormativity) para definir a imposição de  valores e normas desenvolvidos numa sociedade feita para “neurotípicos” em pessoas cujos  cérebros não agem como as delas, semelhante à mais conhecida Heteronormatividade. Por  vezes o termo “neuroqueer” é usado quando se pensa a sua interseccionalidade. É importante  notar que alguns destes termos são usados com significados fluidos e tem discordâncias  associadas, mesmo dentro das comunidades. Outro exemplo é “Neurodiversidade”, um  movimento e paradigma pela aceitação da diversidade neurológica humana que vê as pessoas  neurodivergentes como parte dela e não como excepções. 

Como entendo ser vista como uma excepção? Não digo que medidas particulares que ajudam  pessoas com deficiência não devam existir, mas se eu fosse vista como parte da diversidade  humana em vez de uma excepção médica, pelo menos algumas medidas, como eu poder sair da  aula quando precisava de uma pausa, podiam ser logo realizadas sem eu ter de passar por um  processo burocrático (um entrave para recebermos ajuda). 

Por vezes, em meios neurodivergentes, usa-se o argumento de “em outras culturas é rude olhar  as pessoas nos olhos” de forma a validar a forma como nos é mais confortável ser. Eu concordo  com o argumento, mas não com a premissa do qual ele nasce: sabendo que as formas do corpo  humano, e por extensão a sua neurologia, são variáveis na construção da cultura das sociedades, porque é que temos de olhar para culturas que percecionamos como diferentes da nossa para  legitimar ações que tomamos? Um pequeno grupo de amigos tem a sua própria cultura, diferente  de outro grupo até na mesma vila: formas de agir, piadas internas, lembranças, lugares  importantes, interações. Cada gesto — dar as mãos, um beijo na testa, estar deitado encostado na  perna de alguém — apenas tem as pessoas que nele participam como autoridades para decidir o  que significa. Não pode ser algo imposto de fora por uma cultura dominante, o que chamamos de  normatividade. Assim, a personalidade e modo de ser de uma pessoa não é senão a sua cultura,  individual? Porquê forçar alguém a mudar algo que não magoa ninguém? 

Desconstruir a neuronormatividade faz parte do pensar da desconstrução do capacitismo e de  normas sociais. Em espaços pela diversidade, onde me sinto mais livre, em vez de não falar,  deixo-me bloquear nas palavras as vezes que for preciso. Não tenho de olhar as pessoas nos  olhos. Não estou constantemente a pensar em cada gesto ou palavra. E uso os chapéus que  costurei, dentro das salas.

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Texto de Lua Eva Blue

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