Não há escola, não há gritos, não há carros. Há vazio a ser preenchido? Há Kadinsky na casa de banho, há Vincente Guedes no sofá, há Sophia no pensamento. O silêncio estimula a criação, pede para ser preenchido por palavras que não sejam ocas. Quem vive na cidade cada vez mais percebe o luxo de uns momentos de silêncio. Porque não construímos cidades mais silenciosas?

A música dos vizinhos de baixo não faz parte da minha playlist musical. Não tem Julinho KSD, Phoebe Bridgers ou António Carlos Jobim. Sim, a combinação de músicas que mais oiço pode ser analisada como eclética ou incoerente. Mas cá por baixo, não é o estilo que mais interessa mas o barulho que tanto reverbera. Tolerância é aceitar até o mau gosto e exagero sonoro do outro.

Aproveitei a pandemia e o teletrabalho para estacionar de vez o carro. Menos poluição na cidade, menos tempo perdido em deslocações e menos recursos não renováveis a serem poupados. Obrigado, teletrabalho. Eficiência, produtividade e ecologia podem rimar. Os carros ainda poluem o centro da cidade e perfuram a calma da minha rua penetrando as janelas de qualquer habitação. Tolerância é compreender a bolha de privilégio que habitamos e aceitar outras bolhas.

Vivo ensanduichado por duas escolas. Uma primária, outra secundária. Gritaria de cima abaixo que me recorda os intervalos a chutar a bola, a correr atrás dos meus amigos e sem pensar noutra coisa que não fosse pensar em nada e gastar energia. Da janela, na calma do café matinal, busco a infância em cada rosto energético destes que perpassam a minha rua. Esqueço o silêncio, abraço o caos urbano e irrompo a escrever. Silêncio continuamente interrompido pelas andorinhas que sobrevoam o céu cristalino de Lisboa, a uma velocidade que ainda não perceberam poderá ser demasiado rápida. Quando se aperceberem disso terão trinta anos e estarão a escrever uma ode ao silêncio e ao sossego. Que palavra mais triste: sossego. Pessoa deixou escrito em linhas mestres como o desassossego é a ponte para vivermos inteiros. Desassosseguemo-nos, portanto.

Hoje de manhã, os meus vizinhos de baixo, por algum motivo, decidiram não ouvir música. Hoje de manhã, os carros aqui na rua meteram férias de Natal, Fim de Ano e Próspero Ano Novo. Hoje de manhã, apercebi-me que terminou o primeiro período das escolas portuguesas. Agora estou só eu, o silêncio e a liberdade para poluir esta folha que estava branca há uns minutos atrás. Agora vou aproveitar este silêncio.

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Texto de Francisco Mouta Rúbio
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