Ultimamente dou por mim a pensar neste mundo estranho em que vivemos. Fugindo um pouco à denominação de “a nova realidade”, penso que estamos a vivenciar as consequências de uma despreocupação quase involuntária do “comummortal”, que age de acordo com o que o sistema lhe tem dado e proporcionado sem questionar – até porque o próprio tempo nos faltava antes, e hoje, parece quase sufocante. A palavra que mais tenho ouvido nos últimos meses é desafiador – que temos existido em tempos desafiantes e incertos. Certo! Perdoem-me, desde já, a redundância, porém, não é da incerteza que surge a inovação? Não é deste caos que surge um terreno particularmente fértil para a criação, para inventarmos e para reinventarmos o que já existe?

Licenciei-me em Mediação Artística e Cultural, um grupo emergente, numa categoria também ela emergente – a Mediação. Penso que boa parte dos profissionais culturais ligados aos serviços educativos de museus e outras instituições e de outros que estão também ligados à ação educativa como técnicos de museu, gestores culturais e, enfim, grande parte dos profissionais já se cruzou uma ou outra vez com esta palavra. Há, apesar das diferenças em objetivos e meios, um aspeto comum a qualquer profissional da mediação, seja ele cultural, artístico, ou ambos: o carácter pedagógico. O Mediador assume-se quase como um educador, que foge ao usual paternalismo da educação, proporcionando antes um momento de partilha e de experimentação. O mediador fornece ferramentas para a reflexão e para emancipação de comunidades, de indivíduos, de instituições e, enfim, da sociedade, procurando contribuir ativamente para a coesão social, imprescindível ao exercício democrático.

A cultura tem vindo, cada vez mais. a assumir-se como um elemento fulcral, tendendo a afirmar-se como uma linha de intervenção estratégica tanto para as instituições artísticas e culturais como governamentais e, cada vez mais, assumida como um órgão imprescindível à manutenção da sociedade. Não é então difícil compreender a razão pela qual estes órgãos concebem, hoje, orientações programáticas, ainda que vagas, onde a articulação entre a cultura e outras áreas, como a educação, a saúde e as políticas públicas está patente através do incentivo à participação cultural.

Estas questões demonstram o quão urgente é encontrar pontos de encontro entre os profissionais da cultura, promovendo e fortalecendo o espírito cooperativo que permita afirmar e dignificar a Cultura como um pilar basilar da sociedade sendo igualmente essencial deixar de a ver apenas como mero entretenimento: mais do que entreter, a cultura é um motor para o exercício da cidadania plena que não se limita ao voto, mas que fala e declama por todos, expressando necessidades e forças da população independentemente do seu contexto social, profissional, etc.

Creio que, mais do que nunca, é necessária a voz dos trabalhadores das artes e da cultura, não só através dos meios tradicionais escritos e orais e/ou manifestações públicas. É fundamental que sejamos ativos diariamente e que estejamos presentes, com iniciativa própria, e que nos apoiemos entre nós. Os polémicos despedimentos na Casa da Música e as dispensas na Fundação de Serralves e, possivelmente, tantas outros episódios semelhantes sem tempo de antena, tornam cada vez mais evidente que a nossa afirmação e defesa começa em nós, profissionais, recém-licenciados e desempregados.

Estamos num ponto de viragem, e esta viragem pode ser assustadora, mas é também ideal para pensarmos em soluções que podem passar por esta necessidade de cooperação e afirmação profissional e, consequentemente, a afirmação da própria Cultura. Foi-nos dada, e até forçada, uma oportunidade para parar e pensar. Restanos saber se vamos dar um passo em frente ou um passo atrás – e se for a segunda opção, que seja de forma a dar dois passos para à frente.

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Texto de Marta Louro
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