Ghosting, Caspering, Haunting, Benching, haja escolha. 

Todos estes termos baptizam uma prática cada vez mais comum no mundo das relações e que tem como ponto de partida desaparecer sem deixar rasto. A juntar a esta lista, o léxico do mundo das redes sociais fica ainda mais enriquecido: breadcrumbing (despertar o interesse de alguém sem intenção séria que é como andar ali a atirar migalhas aos pombos e depois logo se vê) ou submarining (aparecer do nada, depois de semanas de silêncio absoluto) são mais algumas expressões que descrevem este tipo de comportamento que se vem tornando um padrão nos dias que correm. 

Caspering – termo inspirado em Casper, o pequeno fantasma do mundo da ficção, é a mais recente aquisição, enquanto versão amigável de ghosting e que consiste em ser honesto e sair de fininho. 

Pensa-se que o International Business Times seja o grande responsável por trazer o assunto para cima da mesa e desde então, com a atenção que mereceu, muitas são as pessoas que se reviram no conceito e relatam situações semelhantes. 

Ghosting – já com entrada no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa – é um fenómeno que está a acontecer um pouco por todo o mundo e que se caracteriza por desaparecer como se de um número de magia se tratasse.  Sem que nada o fizesse prever, a pessoa deixa de atender as chamadas, responder a mensagens, seguir nas redes sociais, deixando inclusive muitas vezes, de existir nas redes sociais, o que normalmente significa que bloqueou aquele que, sem saber, já passou à história. 

A verdade é que a era das dating apps, dos recibos de leitura, dos bloqueios e desbloqueios e do stalking (perseguição) consentido, proporciona uma falsa sensação de pertença e proximidade, mas quando a coisa ameaça ficar séria, a maioria prefere ficar-se pela superfície a mergulhar em águas profundas e desconhecidas. 

A justificação de pessoas que já adoptaram estes comportamentos passa pela recusa a lidar com as próprias emoções, bem como com as da pessoa que abandonam e se existem casos em que o fenómeno ocorre passadas apenas algumas semanas ou meses, também acontece com relacionamentos mais longos. 

Ao contrário do que se possa pensar, não são só os homens que agem assim, embora o maior número de relatos aponte nesse sentido. Muitas mulheres também o fazem e muito possivelmente, não é sequer um fenómeno com tanto tempo quanto isso. O que acontece é que com o avançar da era digital, as coisas acontecem a um ritmo inacreditável e a informação é veiculada a uma escala muito maior do que até aqui acontecia, chamando, inevitavelmente, a atenção para coisas nas quais não se reparava tanto ou temas que não eram tão abordados. 

De um momento para o outro, sem que nada o fizesse prever, a pessoa deixa de responder a mensagens, não atende telefonemas, desaparece das redes sociais.  Os dias passam, transformam-se em semanas, a vida invariavelmente segue o seu rumo e aquela pessoa nunca mais volta a dar à costa. Ou volta? 

Não raras vezes, passado algum tempo, a pessoa volta a fazer likes nas publicações de quem abandonou e esse é outro destes fenómenos quase paranormais e que dá pelo nome de haunting ou toca a e foge, isto é, dar o ar da sua graça de quando em vez para ver se ainda pinga qualquer coisa. Picar o ponto, no fundo. 

Além de ser injusto e difícil de ultrapassar, o ghosting é de uma tremenda falta de respeito e de carácter, mas diz mais acerca de quem o pratica do que das suas vítimas e o pior é que já nem sequer é algo que nos faça desviar os olhos do que estamos a fazer, de tão normal que passou a ser. 

Por muito que se possa especular sobre este fenómeno, as razões que tem por base passam sempre por um desencontro de expectativas, medo do compromisso, traumas de situações passadas e regra geral, imaturidade reflectida em grandes doses de egoísmo, cobardia e ausência de empatia. 

Tenho para mim que a era digital nos traz a todos mais conectados e menos ligados. 

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Texto de Cláudia Cecílio
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