É primavera e o céu está azul. O sol toma balanço para nos encher de luz, dança por entre as mesas vazias da esplanada em retângulos de sombras. São as horas mais bonitas do dia, não as perco por nada. Ele chega a passos largos, numa coreografia descoordenada, um sapateado que só não me envergonha porque vem seguido de um sorriso que de tão feliz, contagia. Depois de um abraço demorado e uma piada antiga, deixa-se cair, antes que eu consiga sequer verbalizar qualquer pergunta e proclama como se fosse apenas uma sílaba: hoje fiz um amigo.

A sintonia é inevitável, cantarolamos dois ou três versos do Sérgio Godinho que fazem eco nas conversas vagas e nos cabelos despenteados pelo vento ameno. “E coisa mais preciosa no mundo não há”. Acreditamos seriamente nisso e repartimos a felicidade que vem desta nova amizade.

São assim os que se querem bem. Vivem as nossas alegrias sem lhes sugar o sabor, as nossas vitórias sem delas se apoderarem e carregam no coração os nossos dias mais escuros. Chamam-se amigos e vêm de todas as formas.  

Uns são as memórias mais antigas, as de criança. Com estes partilhámos a escola, a bola, a casa dos nossos avós, a rua…uma asneira, que de tão grande, morreu em segredo atrás da porta da despensa. A maioria não seguiu connosco. Às vezes voltamos a cruzar-nos, contamos os anos e suspiramos. Se nos abraçarmos quase que podemos sentir o cheiro daquele caderno perfumado, das torradas do lanche e do pó de giz. Alguns voltam para nós.

Depois chega o tempo das tardes infinitas, dos filmes de domingo, das férias longas, as pequenas angústias, as primeiras decisões. Trocam-se os dias pelas noites e voamos em bando. Inquietamo-nos pela descoberta, ao mesmo tempo que dançamos inebriados numa nuvem de fumo. Por ser intenso, difícil e pateticamente bom, levamos estes amigos pela vida fora. Muitos estarão na plateia dos nossos momentos mais importantes. Serão testemunhas das nossas juras, ouvintes de todas as inseguranças, comparsas nos maiores desvaneios, exigentes, frontais e pacientes, na certeza que vão fazer troça de nós na primeira oportunidade. Só porque podem, só porque deixámos.

Na vida, juntam-se outras amizades, que chegam de outros caminhos. Pela profissão, pelo ócio, pelos filhos, pelo acaso, pela química, porque tropeçaste nas escadas e alguém te deu a mão. E quando já pensávamos que não seríamos capazes de as construir tão profundas, tão fortes e robustas, somos surpreendidos por uma emoção que não se detém, um conforto, um peito aconchegante, essa inexplicável magia que nos liga a um amigo.

Nessa tarde, entre gargalhadas e copos, continuamos em coro a letra que dá lógica à melodia …  “hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a tanto”. E “com um brilhozinho nos olhos”, brindamos aos antigos e aos que chegam, aos que foram e aos que ficam, aos que insistem e aos que desistem, aos que perdemos e aos que acolhemos, aos que nos escolheram. Brindo a ti, a nós! 

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Texto de Patrícia Alves Fernandes
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