Portugal não é misógino ou machista é até um paraíso em muitos temas relativos à igualdade de género. Assuntos problemáticos noutras latitudes são ilusão neste jardim à beira mar plantado. O problema surge apenas quando se abre uma pequena válvula de escape, um vídeo de sexo em público, e de certas cabeças ululantes, afinal tão tolerantes durante todo o ano, brotam as mais pífias frases sobre o papel da mulher e a hipersexualização do seu corpo: “Então ela não queria ser famosa?” ou “Estava mesmo a pedi-las”.

O que diferencia os humanos dos outros seres vivos é o progresso. Há 100 anos, os macacos utilizavam as mesmas técnicas de sobrevivência que utilizam hoje. Há poucas décadas, a mulher não representava mais que apenas um apêndice do homem. Desde o tempo em que a mulher não podia votar, trabalhar fora de casa ou que a violência doméstica nem sequer era reconhecida, muito menos criminalizada, o ser humano evoluiu e alguns direitos foram conquistados. A convivência entre a sociedade melhorou, no entanto, ainda temos de conviver com a influência de mentes reaccionárias que educam e modelam mentalidades que se pretendiam renovadas.

Por vivermos momentos de linchamento público, sugiro que quem nunca fez um disparate na adolescência atire a primeira pedra. Se, por algum acaso, não teve o azar de ser filmado, partilhado entre milhões de desconhecidos nas redes sociais, ter sido identificado, tal como os seus familiares, e a sua vida destruída, bem isso já é outra história. Isto, claro se for uma mulher, porque os homens que também fizeram sexo naquele vídeo nem sabemos quem são e, pelos vistos, não interessa.

Não pretendo fazer a apologia do sexo em público nem tão pouco promover o atentado ao pudor perante uma plateia tão púdica como parecem sentir-se alguns portugueses, esses que estão na esquina do café e mal veêm uma saia mais curta disparam algo bárbaro. No entanto, devo referir que a adrenalina misturada com a dopamina que resulta do sexo em público talvez fosse o anti-depressivo para muitos desses que, continuam a atirar pedras, necessitariam para resolver as suas frustrações sexuais, ou a solução para substituir a dopamina injectada por tantas horas nas redes sociais para destruir a vida do próximo ou para resolver alguma dor escondida.

Pergunto ainda se quem atacou de forma tão vil a jovem em questão não tem mãe, irmã, filhas ou companheira? Será um exercício assim tão distante conseguir colocar-se nos sapatos do outro?

Já sabíamos como as redes sociais podem ser tóxicas. Agora descobrimos um pântano habitado por mentes que já não distinguem as pessoas dos algoritmos. Vale tudo neste país de falsos moralistas, até estar escondido por trás de um ecrã a destruir vidas.

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Texto de Francisco Mouta Rúbio
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