Aprendi demasiadamente tarde: há adultos que não interessam aos jovens.

Não é só de bons pares que um jovem deve saber rodear-se. É, principalmente, insisto, principalmente, de bons adultos. De bons mestres. E há adultos, muitíssimos mais do que o desejável, que não servem este propósito.

Penso naqueles que cruzaram o meu percurso até hoje, ao dia em que já não sou assim tão jovem. Os mais sábios, mais capazes e mais competentes, jamais deixaram escapar pela voz o discurso de ignorância macambuzia sobre a insuficiência da idade, na tentativa camuflada de menosprezo de quem nem está bem a ouvir, nem quer bem saber das ideias, vontades ou do que se possa ter para acrescentar. Do que se carrega do presente, sementes em potência para o futuro, do poço astucioso de criatividade e vontade que, sim, a idade da juventude faz brotar.

Tenho que dizer-vos, mocidade, não vá isto sufocar-me: não se coíbam de contornar a opinião de alguém que cospe sobre a juventude, mesmo que de forma dissimulada, como se de um reino de tolice se tratasse. Na grande maioria das vezes, para não correr o risco de dizer de todas elas, é sobre eles que falam - das lembranças de si e dos seus. É sobre a sua história que, assumamos, é alheia à vossa que está em redação. Tolice é mal da Humanidade, não do jovem, compreende é diferentes formas de manifestação consoante a fase da vida. O grave é quando, na insegura juventude, porque na grande parte dos casos é um tempo inseguro, acreditamos que temos somente serventia à tolice. Quero dizer-vos que não há ligação entre idade e ideias geniais. Que o respeito é maior do que a agenda de vida medida em tempo. O respeito é pela pessoa. É, e deve ser, transversal, transgeracional, bilateral. De todos para todos. Respeitosamente, sempre, saibam no vosso interior excluir as opiniões dos adultos que não interessam à juventude. Um mestre que se preze sabe-se mestre-aprendiz a vida inteira. Até um bebé de colo é mestre, ao mesmo tempo, exatamente ao mesmo tempo, que é aprendiz. Todos os Homens sábios sabem beber daquilo que a diversidade tem para oferecer. Não se coíbam de, interiormente, selecionar o trigo e o joio do reino adulto.

Aos 47 anos faleceu Fernando Pessoa, um génio reflexivo de emoções escavacadas pelo pensar. Quanta sabedoria num mundo interno! Entregou-nos um legado inquantificável. Penso, agora, nos Homens de 47 anos com os quais privo. O óbvio: os adultos não são todos iguais, tal como os jovens não o são. Malala Yousafzai, paquistanesa, ativista pela educação e pelos direitos das mulheres desde os 11 anos. A sua voz ganhou tanta força que, aos 15 anos, foi baleada pelo grupo terrorista talibã. Volto a pensar nos Homens de 47 que conheço. Volto a pensar na Malala. Mark Zuckerberg ficou milionário aos 22 anos. Terá o Mark tido o privilégio de crescer entre mestres capazes de o orientar sem o castrar, de potenciar a sua força sem a amolgar pelo desprezo à jovialidade? Ou ter-se-á visto forçado a ignorar, respeitosamente, aquela espécie de adultos tolos que apreciam a frase encerrada do: não dá.

Seja lá como for, a verdade é que não bebemos todos da mesma fonte do privilégio, não temos todos a mesma sorte, os mesmos contextos e a mesma rede de contactos. Alguns jovens vivem entre perfeitos imbecis.

Atenção ao que vos digo, não lhes chamemos tolos que não é por mal que o são. Foi, também, carência de mestres. O respeito será sempre a arma da sabedoria, mas no vosso coração, se não vos ouvem e acarinham, se não vos guiam no pensamento ou ação, se não vos integram e não vos ensinam, não vos servem. Não guardem como verdade absoluta os comentários despropositados, deixem-nos estar no plano da opinião. Não permitam, por isso, que castrem uma beleza que vos é muito própria: ainda não se cansaram de tentar.

E se é bem verdade que, no meu caso, não servirei de grande mestre, pretendo, pelo menos, entregar-vos os ouvidos e falar-vos dos Homens que podem sê-lo para vós naquilo que são os vossos sonhos, inquietações ou vontades.

A verdade é só uma, os mestres estão por todas as idades, mas em nenhuma delas deveríamos deixar o posto de aprendiz.

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Texto de Gabriela Pacheco

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