Tenho uma certa paixão pela rua. Não uma paixoneta findada num papel dobrado em quatro e deixado no canto da mesa com um: “sim/não/talvez”, que ainda coloca dúvidas. Esta é uma daquelas acabadas em tinta gasta, escrita com pedras, sem ponta que se lhe pegue, em tijolos partidos ou no alcatrão puro junto a um: “Ernesto + Lurdes = amor para sempre”. Não há nada mais eterno do que o cravado pelo caminho.

Na rua ouvia-se a palavra “pilantra”, da boca cheia de vida de quem ainda juntava as mãos aos lábios para nos fazer ouvir melhor. O adjectivo ecoava a galope, como a corrida de qualquer miúdo, calcorreando-a desalmandamente para emergir nas histórias inventadas por si, que lhe permitiam fugir da realidade, tão mais dura agora. Aquela imposta quando as quatro paredes nos definiam horários e nos forçavam a ser o António, o Hugo, a Mariana ou a Paula. Queríamos era ser o D’Artagnan, o Dom Quixote com o Sancho Pança ou o Simba, sem a parte triste do Mufasa. Não podíamos perder a oportunidade de pôr em prática o novo sítio das escondidas, ou de fazer aquele truque na macaca. Os vilões eram quem nos tirava dali, com as mãos à cintura e o tom de quem não sabe brincar e nos leva para a gruta à qual eles chamam casa. Para nós casa era ali, no T10 sem tecto que nos abrigava de tudo.

Hoje, o vilão é outro. Não se vê e impede-nos de ver quem queremos. Com olhos de abraços e dioptrias de beijos. Confinaram-nos a casa, quando a ideia era conquistarmos a calçada, levarmos de vencida o alcatrão e reunirmos na areia.

 Há estórias da história escritas a tinta invísivel – só possível de ser lida à luz das esrtrelas – em qualquer beco meio farrusco a dizer-nos que não chegámos ao fim. A rua, que ainda não mandámos ladrilhar, tem segredos fechados no cofre mais importante de todos: o tempo. O lá passado, sobretudo. Ou aquele que desejámos passar, quando a nossa maior responsabilidade era saber a tabuada dos 9 na ponta da língua. No sinuoso caminho já percorrido por índios, caúbois, piratas, polícias, ladrões, pais e mães inventados, não se contava o tempo. Não havia ponteiros a baterem certo na hora de acabar a aventura. Existia mais um segredo para ficar guardado, por quem nos conhece melhor do que nós mesmos.

Ali, naquela travessa transformada em Maracanã sempre que se faziam balizas com pedras, foram trocados pactos. Não com sangue, como nos filmes. Com todos os “para sempre”, ditos baixinhos, para ninguém se aperceber e nos estragar os planos. Não havia “depois de amanhã” na emergência de reatar uma brincadeira. Víamo-nos sempre “amanhã” e nunca equacionámos que assim não fosse.

Formaram-se risos de coisa nenhuma e levámos com assinaturas da rua escritas a tinta da china nos joelhos, cotovelos ou qualquer outra parte da pele destapada, que ficava esfolada fosse onde fosse. Assim não nos esquecíamos de nada, que será sempre o pior de viver.

Na rua, que hoje pisamos a ritmo TGV num labirinto rotineiro de pessoas sem cara; na rua, na qual fugimos uns dos outros; na rua, onde já não respiramos alegria; na rua, onde evitamos andar. Nesse sítio, entreolhamo-nos por cima de uma máscara com a saudade de quem a sente. De quem sente falta de a poder inspirar sem restrições de distância. Com a vontade de voltar onde fomos mais felizes do que julgámos ter sido. Com a ânsia de viver sem barreiras.

Hoje já não piso a rua com as mesmas solas que pisava. Os sapatos são outros, o pulso força-me a olhá-lo com mais frequência e o maldito do tempo não perdoa quem o tenta enganar. Por lá ficaram os meus segredos, as promessas não cumpridas pela inevitabilidade do destino padrasto e as juras feitas a moldarem o retrato que tenho dela. Um dia volto à rua com o mesmo sorriso singelo e torto de antes. Até lá, deixem-na continuar a ser a melhor contadora de histórias do mundo.

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Texto de António Barradas
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