Agora que nos encontramos a poucos dias do término de mais um ano – como sempre (in)completo, complexo e (des)contextualizado – é o momento para muitos tipos de comportamentos, entre os quais a ativação da memória, a reavaliação de prioridades e a edificação de promessas. Afinal, enquanto seres humanos, a nossa espécie é composta por inúmeros ciclos que se intersetam e nos compõem de auroras e convicções.
Para oficializar esta finalização de 2023 gostaria de vos deixar com um poema que escrevi há mais ou menos três anos, em pleno período pandémico, e que se encontra registado no segundo livro de poesia que publiquei, em maio, denominado Mutações (Editora: Poesia Fã Clube). Esta ideia surgiu-me como maneira de valorizar aquilo que o meu amigo Paulo Dias, também escritor regular do Gerador, fez na sua carta “God Save (protected) The Queen”: Talvez por isso só te conto agora isto. A poesia é sempre uma totalidade, um modo de criação e de recriação, e naquele texto o amor de um neto pela sua avó é uma vívida arquitetura do funcionamento mais belo do mundo.
Como também me revejo nesta arte, nesta constante palete lírica de protagonistas, histórias e acontecimentos, nesta forma de viver intensamente, trago-vos um pouco de estrelas… ou dos seus pós. Quando um ano chega ao fim, pensamos nas derradeiras horas como uma espécie de redenção: o último momento para pormos em prática algo que procrastinamos até aquele ponto. Esse ritual faz parte daquilo que somos, da nossa profunda identidade; semelhantemente a um poema, que pode ser uma ponte entre o tudo e o nada e entre um ano e outro, também nós acabamos por aprender sempre quando nos mantermos e quando partirmos.
A todos, um Natal unido e um Ano Novo de discernimento!
O que Deixamos são os Nossos Pós de Estrelas
O último poema do ano…
A última oportunidade
Em que podemos extravasar,
Ressabiar,
Comer como nem loucos,
Rabiscar desejos
E fazer apostas pouco certeiras
Sobre as reservas do que é vindouro.
A última visão e a última ponderação
Antes do erguer do pé esquerdo,
Em sinal de superstição,
Para fazer a entrada-maravilha no ano novo.
Enfim, o último poema do ano…
O poema que, pretendendo dizer
Tudo de uma vez, nada diz
Que não tenha dito.
O poema que se declara absorto,
Tal como os outros, no pensamento
Ainda deste ano, mas que, na verdade,
Quer ser o diferente e partir.
À última oportunidade de estarmos juntos,
E à última palavra de apreço que podemos dar,
Que se junte o último verso,
E que se conquiste a última beleza em falta.
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