No casario rasgado pela rua estreita, as casas nascem do chão, são árvores de pedra. Subitamente, uma palmada de chuva na janela. As paredes estremecem. Cordilheiras de nuvens desabam sobre as serras. O vento assobia nos beirais. Braços de luz rasgam as cortinas que tombam do céu. Serpentes de água correm pelas ruas empedradas, nascem turbilhões na praça da aldeia, o rio avança e engole as casas. Estremunhado, Raúl acorda com o sabor de lodo na boca. Uma procissão de destroços flutua em redor da cama. Os móveis e os tachos andam às voltas nos remoinhos, são cadáveres tontos. As portas e as janelas perdem o braço de ferro contra a correnteza. Mais lixo invade a casa, são agora roupas – e se for alguém conhecido? Raúl avança, tateando as paredes, empurra coisas moles e sai para a rua. As casas são ilhas. A chuva parou. Onde estão todos, questiona-se Raúl? A aldeia invadiu o rio. As novas margens cercam o tronco das árvores na floresta. Exausta e turva, a água desliza lentamente, a superfície bassa trespassada por ramos, patas e volumes. Raúl ergue os olhos para os farrapos de nuvens que passam velozmente numa tela de cinza. Pombos riscam o céu, vêm de todas as direções e pousam nos telhados. Raúl hesita. Quem fará o velório aos afogados? Quem escreverá os seus nomes? Em vão! O rosto coberto pela mortalha líquida, os corpos afundam-se no útero da morte. 

 Já o rio leva os mortos para o mar quando Raúl chega à cidade. 

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Texto de José Valério
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