A infância carrega odores que não voltam nunca mais. São raras as vezes em que nos conseguimos transportar para momentos específicos no tempo e as vezes em que isso acontece, o estímulo tende a ser olfactivo. São também essas as vezes em que conseguimos recuperar pessoas, lugares e emoções.

Hoje é dia 11 de abril de 2021 e podia jurar que tudo perdeu o cheiro. Não é de agora, é uma ausência longa, já. 

Não sei o que é suposto acontecer daqui para a frente. E eu que sempre fui uma pessoa optimista e com muita imaginação. Talvez não queira construir cenários...

O facto de não conseguir detectar cheiros em lugar nenhum, preocupa-me. 

O que é do Hoje não tem lugar nem hora própria. Vive à sombra do que fomos antes e de onde íamos. Éramos capazes de ocupar espaço e de tomar como nosso tudo quanto nos apetecia. A liberdade era nossa. 

Para mim os conceitos não enchem medidas e as imagens por si só, não chegam. Já nada me consola. O barulho faz falta. O toque faz falta e o cheiro das coisas e das pessoas relembra-me de que estou viva. 

Quero sair desta bolha que me limita. Ainda que saiba que é a mesma que me protege. Essa ânsia de romper com as regras também me preocupa.
No passado fim-de-semana encontrei-me num jardim com um amigo de quem gosto muito. Já não nos víamos desde janeiro. Passados poucos minutos, perguntou-me:

- Qual é que vai ser a primeira coisa que vais fazer quando pudermos fazer tudo aquilo que quisermos?
- Eu? Eu vou abraçar a minha mãe com muita força.

Disse-o sem sequer pensar duas vezes. Esqueci-me dos bares, dos concertos, dos cafés, das festas de aniversário e dos almoços ao domingo.
Disse-o e apercebi-me do quanto preciso dos outros para me sentir viva.
A saudade mora comigo. Talvez esteja na altura de lhe começar a cobrar renda.

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Texto de Sara Isabel Loureiro