É de manhã. Não faço ideia que horas são. O telemóvel está na mesa de cabeceira, com o som desligado e o relógio de pulso está para lá mandado, também. O caos é do tempo. Todo por ali espalhado. Não sei que horas são.

O cérebro lembra-me de que tenho de me levantar e o corpo já dá sinais de que sabe o que tem de fazer. (Ele sabe o que tem de fazer mas não é compatível com o que quer fazer)

Talvez fosse melhor ter um relógio de parede. Daqueles antigos. Com pêndulos pesados a marcar o passo. Ou um relógio de cucu. Barulhento e bonito, ao mesmo tempo. Sem ser possível de ignorar.

Os meus olhos parecem arder e as mãos, dormentes, devem ter acordado há minutos. Os dedos dos pés são os mais acordados. Mas não quero correr. Nem tão pouco andar. Nem tão pouco sair desta cama.

O telemóvel vibra. O coração pula. Salta. Durante segundos parece que o perco. Também não sei cronometrar nada. Talvez tenha sido menos, ou mais.

Onde é que eu ia? Espera. Tenho de me levantar. Tenho de saber as horas.

Para onde é que eu costumo ir depois de saber as horas?

Consigo ouvir o meu gato a querer entrar no quarto. Não sei onde é que ele vai buscar tanta força. É nestas alturas que me lembro de que os gatos domésticos são parentes dos tigres e dos leões.

Já devem passar das sete da manhã. Deve estar na hora dele de tomar o pequeno-almoço. É hora de eu fazer o mesmo.

Consigo ouvi-lo impaciente do outro lado da porta.

Levanto o braço, afasto os lençóis, alcanço o telemóvel, marco o pin, e olho para as horas. São sete e um da manhã. De que me servem as horas, afinal? Basta ter um gato com um apetite voraz.

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Texto de Sara Isabel Loureiro
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