Os mestres clamam: escreve todos os dias! Aqui estou eu para acrescentar mais um ponto. As tais rotinas saudáveis. Escrevendo e cumprindo o conselho dos mais experientes que fazem a pena levitar. Um dia mais a escrever, mas o texto de hoje tem de ser encarado como o primeiro do resto da tua vida. A maré cheia torna-se maré vaza, não será assim? A necessidade de uma rotina, da repetição e da harmoniosa ordem, quando vista de longe, pode assustar qualquer um. A rotina da criatividade pode matar-nos o próprio músculo da criatividade se, de quando em vez, não o desconstruirmos todo. Não será essa a fórmula da vida, construir, destruir e no dia seguinte repetir o processo?

Escrevemos, exercitamos ou cumprimos diariamente uma rotina seja ela qual for para conseguirmos o epíteto de nos cumprirmos, como nos querem: felizes. Felizes da vida. Felizardos como um raio, porque no nanossegundo que virá, surgirá novo desafio, novo objectivo e nova proposta. Incessantemente insaciados nos aceitamos. Todos temos desejos a cumprir nem que seja beber um copo de água, diria Kurt Vonnegut. Não paramos, nem desejamos parar e não há vírus devastador que o consiga. Slow J naquele refrão cantava “Nunca pares”. Não pararemos, estejam descansados, nem com o planeta para lá de destruído. A tecnologia e toda a sua parafernália — pareço um velho ludita aqui a lamentar-se, noto agora — são já uma extensão dos nossos membros, e com isso a noção contemporânea do tempo alterou-se. Imediato. De repente, não me lembro da última vez em que me aborreci. A efemeridade das nossas acções pode tornar-nos demasiado exigentes. A insatisfação. Isso deveria ser bom, ensinam-nos desde pequenos, mas apenas se soubéssemos parar e desfrutar. Burnout é uma palavra esquisita. Um estrangeirismo que invadiu as nossa casas à boleia de um ecrã e tão cedo, parece-me, não vamos deixar de ouvir falar “nele”.

O tédio, como exigência para cada um de nós. Obrigo-me a vestir essa inércia de quando em vez. Uma ideia que facilmente é aceite se falarmos de dietas alimentares, a desintoxicação. Transformar solidão em solitude, abrir um espaço para um jejum de estímulos, o tempo de rejeição ao acesso imediato e fácil para conseguirmos mergulhar nas camadas da dificuldade.

Dificuldade de quê? Esquecer os movimentos mecânicos dos cliques e dos baits, fechar as abas, os vídeos e os algoritmos das redes e abrir as folhas profundas para mergulhar num livro, pois claro. Ler um livro que exija de nós tempo, concentração e desconforto. Jogar no xadrez analógico das peças pretas e brancas de um livro que nos faça levantar a cabeça, como sugeria Barthes. “O queijo é leite parado. É tempo parado”, levanto a cabeça. Assim escreve Afonso Cruz a meio de uma viagem profunda, poética mas dolorosa ao coração do Médio Oriente. Desbastar um calhamaço de setecentas páginas pode valer uma viagem literária onde confirmamos que “não há nada melhor do que os programas televisivos para ficarmos sem pensamentos, vazios como um recém nascido”, compreendermos o desrespeito que ainda existe pela mulher numa sociedade tão distante da ocidental, entre uma multiplicidade de pensamentos universais que resumem a vida de qualquer ser humano neste planeta. Respiramos melhor quando há obras que nos convencem e nos levam a alma Para Onde Vão os Guarda-Chuvas. Fechados em casa até sei lá quando, os privilegiados, claro, sonhamos com liberdade para admoestar o medo. Afugentá-lo em cada palavra. Falar com um amigo e oferecer-lhe uma óptima notícia. Sobre a vida. Juntar a um livro sobre o Oriente, o pão naan, um incenso e a vontade de nos enriquecermos com cultura. Tentemos cultivar a distância higiénica dos hábitos demasiado tecnológicos que nos sobrealimentam. Até terminar este terceiro acto pandémico, e essa liberdade não chegar, obriguemo-nos a ler os livros.

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Texto de Francisco Mouta Rúbio
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