A carta como meio de transporte para um mundo imaginado. Ando, por estes dias, perdido no meio de cartas. As de António Lobo Antunes para a sua jóia querida, as de Rilke para os jovens poetas e as que Agualusa imaginou triangulando Eça, Ana Olímpia e Fradique Mendes, num esclarecimento acerca do Portugal esclavagista, esquecido por tantos. No cinema, a relação epistolar mantém-se intemporal. Basta olharmos com atenção para a lente de Ophuls, Truffaut ou Lubitsch.

Ainda escrevi cartas e só tenho 32 anos. Sim, pasmem-se, o antigo ofício da tinta no papel tatuando o sentimento que mais folhas gasta (e gastará): o amor. Não me posso esquecer a quem as escrevi e como as entreguei, tão envergonhado que estava. Nesse espaço, entre as linhas onde os adjectivos se esgotavam, havia um imaginário sincero que nos permitia dizer tudo. Mesmo o que sonhávamos e não podíamos verbalizar, no meio do grupo de amigos. Lá em casa, sempre houve cartas para ler — perdidas entre livros. As antigas, que a Avó recebia dos pretendentes, as que serviam para reportar o quotidiano e tranquilizar quem seguia ao longe noutros continentes e, claro, as contas mensais para pagar. Hoje apenas recebo das últimas. As minhas cartas, agora, costumam ser aqui para o Gerador, qual posto de correios multicultural. Através da folha vou escondendo o branco, o aterrador vazio, junto toscamente umas palavras do nosso tempo e, talvez, serei lido por outros leitores atentos, como eu, neste refrescante projecto cultural lusófono. Aqui geram-se as pontes para um chão comum da Lusofonia, entre quem escreve e quem lê. Atravessamos milhares de quilómetros de distância e quebramos barreiras com a ajuda das palavras. Lá está, a carta como meio de transporte para um mundo imaginado.

Como leitor estou como Camilo Castelo Branco: «sinceramente, não sei corrigir-me do vício das divagações». Assoberbado pelo síndrome das múltiplas abas, tento responder a todos os pedidos que vou recebendo. Apesar de possuir toda a informação para combater estas formas de multitasking que nos reduz, acabo por cair na armadilha das prácticas do nosso tempo e que acaba por nos moldar. Leio o editorial que um amigo me pede, uma crónica breve do The Intercept brasileiro, persigo umas edições da Bazarov, oiço uma Garganta Solta sobre o hip-hop, abro o Clepsydra de Camilo a meio e paro. Leio, em voz alta, o seu poema: Branco e Vermelho. Será isto um leitor? Um viajante desorganizado que se permite habitar imaginários tão diversos. Leio e anoto, sublinho e penso, junto e termino a jornada a escrever. Leitor e escritor misturam-se, transformam-se e surge um outro leitor. Levado por uma mão a viajar pelo mundo mais espesso e privado de tantos autores. Escrever é coisa séria, como diria Matilde Campilho. E ler coisa séria é, acrescentaria eu.

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Texto de Francisco Mouta Rúbio

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