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Carta do Leitor: Porquê estudar os clássicos da literatura?

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Miguel Correia, que nos fala sobre o respeito ao cânone e a democracia no sistema de ensino português.

A Escola não se esgota na preparação para o trabalho, devendo proporcionar aos estudantes a descoberta de diferentes conhecimentos, alicerçados em leituras informadas, e a construção paulatina do pensamento crítico. 

Por isso, os alunos devem estudar os clássicos da literatura. O contacto dos estudantes do Ensino Básico e Secundário com o património literário do país é uma obrigação da Escola, a não ser que defendamos uma sociedade em que apenas alguns tenham acesso a bens culturais, os mesmos que, no passado, estiveram reservados aos privilegiados.

Esta reflexão não é possível sem considerarmos o conceito de «cânone escolar», que remete para o conjunto de textos que os programas curriculares consideram de estudo obrigatório, por serem representativos do património literário nacional. No sistema de ensino português, esta seleção adquire visibilidade a partir do programa de Português do 9.º ano, que inclui o texto dramático de Gil Vicente e a epopeia de Luís de Camões.

Nos anos 80, a influência do discurso teórico na restruturação curricular dos estudos literários motivou que o cânone das grandes obras fosse perspetivado como um instrumento de repressão ao serviço de interesses dominantes, reivindicando a abertura do cânone a textos representativos de classes e minorias tradicionalmente excluídos.

No entanto, esta preocupação crítica com a reestruturação do cânone não é mutuamente exclusiva de uma leitura do currículo escolar, no que concerne às obras do programa de Português, enquanto conjunto de conteúdos que não causem estranhamento ao aluno. 

A reflexão sobre o ensino do Português deve inspirar-se nos contributos dos estudos literários, linguísticos e da história literária. Ora, a dimensão de estranhamento é fundamental na formação de bons leitores e reveste-se de uma grande utilidade pedagógica, permitindo detetar as variações linguísticas, as alterações de valores e as expressões próprias de uma época. É um erro reduzir os textos aos seus valores implícitos ou explícitos, suprimindo acriticamente a sua dimensão estética e contexto histórico.

É evidente que, a título de exemplo, o universo da lírica camoniana é diferente do atual, por isso o papel do professor passa, também, por promover leituras comparativas. Existem alunos a quem as palavras de Camões ressoam imediatamente. Para outros, é necessário que o professor os ajude a descobrir alguma beleza nos versos. Um soneto canónico não tem de ser universalmente ou obrigatoriamente amável. O mesmo se aplica a outros clássicos da literatura, que possuem especificidades e um contexto próprio. 

De facto, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas, não sendo apetecíveis ao gosto dos estudantes, mas podem ser formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, termos de comparação e escalas de valores.

Mas por que, então, ler as obras de outras épocas, tidas como clássicas? Porque elas retratam não só o período a que pertenceram os seus autores, mas, muitas delas, são dotadas de um valor universal, abordando temas inerentes ao ser humano. A cortina de fumaça serve para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários, como afirmava Calvino. É no confronto com os textos que nos construímos como cidadãos numa sociedade democrática. A leitura de um clássico deve oferecer-nos surpresa. E a Escola não deve suprir esse estranhamento, mastigando os textos para degustação fácil pelos alunos, mas deve fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão. É preciso ler.

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Texto de Miguel Correia

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