Nunca nos acontece a nós. Sabemos sempre lidar com as situações e com as pessoas que achamos conhecer. Estava enganada. 

Costumo preferir ver as coisas positivas em todas as situações. Em tempos pandémicos e com uma casa em obras, uns trocos extra e aprender sobre novas matérias serviram de desculpa para abraçar um novo projeto. Gosto de chamar projeto às coisas: tira logo uma carga brutal às expectativas de todos os que me rodeiam e, afinal, já tinha encontrado o trabalho da minha vida. Estava só em pausa à espera que o mundo voltasse a uma normalidade aceitável. 

Não sabia ao que ia. Na minha cabeça as pessoas são sempre boas e espero sempre que respeitem os outros como a sociedade assim nos ensina: umas vezes melhor outras nem tanto, mas com o sentido apurado para o que é certo ou errado. Mas ali não era assim. Rapidamente descobri que não se tratavam de pessoas más, mas sim de pessoas sem limites. O que é completamente diferente. 

Os episódios de assédio moral são, na maioria das vezes praticados por indivíduos narcisistas. Estes são caracterizados por fantasias irreais de sucesso e senso de serem únicos e superiores. Exageram nas suas capacidades e talentos, têm necessidade de atenção, são arrogantes e falta de empatia pelos outros. Lidar com pessoas assim é, não só esgotante como ingrato. Por mais que nos esforcemos, nunca será suficiente. Por mais horas produtivas que façamos, depois do nosso horário, nunca somos valorizados. Mas se chegamos meia hora atrasados ou temos que sair uns minutos antes, por motivos pessoais, cai-nos o Carmo e a Trindade. 

Durante quatro meses assisti a isto na primeira fila da plateia. Ver colegas a ser rebaixados, a gritarem-lhes aos ouvidos sempre com o argumento “sou eu que te pago o ordenado”. Indignavam-me as faltas de respeito, o abuso de poder e invasões de privacidade. Achava, na minha inocente forma de ver o mundo, que se os chamasse à razão aquilo poderia parar. 

No entanto, e como já seria de esperar, nunca conseguia. O transtorno de personalidade narcisista trata-se de uma condição mental em que as pessoas têm um senso inflado da sua própria importância. Só eles têm razão e ai de quem disser o contrário. Não sabem ouvir críticas e tudo o que está mal feito é fruto da incompetência dos seus colaboradores. Ai! Colaboradores não. Trabalhadores! 

Em empresas geridas por chefes narcisistas não se trabalha em equipa. Porque se nos ajudarmos uns aos outros, aos olhos das chefias, somos moles e não nos sabemos impor. Assim, somos trabalhadores porque somos pagos para trabalhar. Nas mentes narcisistas não há espaço para colaboradores: pessoas que colaboram para um objetivo em comum; que se entre-ajudam e fazem do local de trabalho um lugar para onde queremos ir ao acordar. 

Foi assim que aprendi, da pior maneira, que já não queria ir para lá assim que acordava. Na verdade, já nem queria acordar. Chorei por ter que ir e chorei ao regressar porque as injustiças eram muitas e a incompetência passava, também, dos limites. Iniciou-se um Burnout seguido de uma baixa, sem nunca mencionar o principal motivo deste diagnóstico: eles. Pensei, por breves momentos, que talvez fosse eu a que não estava bem inserida, que estou habituada a métodos e processos de trabalho e que uma empresa com dois anos e com uma fraca liderança não têm - nem nunca irão ter. 

Tentei não deixar que a raiva ou ódio se apoderassem de mim. Afinal, temos que lidar com estes indivíduos como lidamos com os piropos na rua quando usamos um vestido: ignoramos. Por mais difícil que possa ser o não sermos compreendidos, depressa concluí que de nada vale gastar as nossas energias com esse intuito. Mas depois chegam as ameaças. 

Pessoas assim não admitem (nem entendem) que outras - como eu - saiam de lá por iniciativa própria. Ou mais até: que não seja o dinheiro o objetivo por que ali estão. Nem tudo gira em torno de dinheiro e a minha saúde mental não tem preço. Preocupa-me a quantidade de pessoas que PRECISAM de trabalhar para e com estes indivíduos. Munam-se do código de trabalho, força e coragem e não deixem que ninguém vos trate desta forma. Seja por uma mulher de 50 anos, seja por um jovem de 27. 

Assim, resta-me apenas alertar para o quão perigoso é tê-los por perto. Não gastemos as nossas energias com vergonha ou raiva, porque a única coisa que podemos sentir por estas pessoas, é pena. 

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Texto de Mafalda Costa
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