As ruas parecem enormes e os jardins são a perder de vista. As pessoas são gigantes e apenas a eles os sítios e as cadeiras servem; é tudo alto, não se chega com os pés ao chão nem com as mãos ao teto. Aos gigantes tudo parece encaixar e quando isso não acontece adaptam-se ou refilam com outros iguais a eles. A sua vontade prevalece sempre, ainda que a linguagem não faça sentido nenhum. Não vale a pena discutir com eles.

Há uns que parecem ter maior importância que outros mas ainda assim não há grande ordem nem coerência nesta distribuição de chefias e benefícios. Uns andam connosco dia após dia enquanto outros aparecem para dizer um olá e fazer uma festa na cabeça. Esses é raro saber quem são. Se o gigante do dia-após-dia sorrir, sei que está tudo bem.

Só há uma coisa que me incomoda: os gigantes não correm ainda que tenham pernas com metros e metros de altura e pés fortes e pesados. O porquê disso acontecer ainda não é claro. Lutam e empenham-se por nos levantarmos e andarmos pelos nossos próprios pés e depois ensinam-nos a não correr e a dar a mão. Talvez sejam eles quem tem medo das estradas, dos carros, das notícias, das pessoas e dos sítios diferentes. Talvez seja por isso que nos pedem para dar a mão; Os gigantes têm medo, não por nós mas por eles. Quando se cresce, cresce tudo. Até o tamanho do medo aumenta. Faz sentido. Coitadinhos dos gigantes.

A partir de agora vou contar-lhes histórias, pedir-lhes beijinhos e dar-lhes a mão sempre que me pedirem.

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Texto de Sara Isabel Loureiro
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