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Carta do Leitor: Quem quer comprar um imigrante?

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Helena Schimitz, que traça um paralelo entre a sua leitura atual e a questão portuguesa da imigração.

Texto de Leitor

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Em seu livro “Vamos comprar um poeta”, o escritor Afonso Cruz nos proporciona uma reflexão importante sobre um mundo onde cada pessoa é um número e pode-se também ter artista de estimação ao invés de animais. 

De imediato me ponho a pensar sobre o que atravessa meu corpo numa terra que dizem não ser a minha e que “migrante” é quase tudo que posso ser. 

E todo fim de ano, parece ser o mesmo por aqui: uma alegria sem fim de saber que posso ser, talvez, mais tolerada porque a contribuição daqueles outros que também carregam essa tarja fechou em positivo. 

É preciso comemorar, afinal contribuímos com “o valor mais elevado de sempre”, 1600 milhões de euros é o que está registrado. É quase um passe livre para um segundo de respiro mais aliviado. Segue-se a isso o registro interno do que pode vir a ser um argumento para as situações diárias de xenofobia.

Me incomoda precisamente isso, o fato de diariamente termos de guardar em um registro bastante grande possíveis argumentos de defesa que se inscrevem numa lógica utilitarista do nosso corpo e trabalho. Afinal, a necessidade de utilizar as contribuições financeiras realizadas no país para justificar a presença se inscreve precisamente no fato de que os novos colonialismos assumem uma forma de função e funcionalidade que anda de mão dadas com o capitalismo e transforma a mim e os meus em um produto. O meu valor não está em mim, ele reside no contributo económico que eu posso proporcionar para uma terra, já que tive a ousadia de nascer em um outro solo não tão valorado. 

O meu valor e reconhecimento sobre a dignidade que mora em mim, não está no meu processo, no meu caráter, nos possíveis valores humanos que compartilhamos. Reside no valor econômico que posso produzir.

É também esse argumento utilitarista que vende e submete nossos corpos a serviços cada vez mais precarizados, a lógicas exploradoras de nossa dignidade,  a discursos extremos que nos anulam enquanto pessoas mas que vão ao encontro da nova colônia indizível que se alastra e que flerta em nos anunciar ora como praga, ora como produto. Sobre o segundo, a lógica se alastra de maneira rápida em combinar valor econômico e exploração e quase indaga assim abertamente: Quem quer comprar um imigrante?

Nessa lógica que parece (?) distópica, fiz um exercício totalmente imaginativo e fictício de como seria esse anúncio.Seria  mais ou menos assim:

“Quem quer comprar um imigrante?”

Benefícios ao comprador:

- Salário 5% menos do que nacionais. (Essas condições só se aplicam se adquirir sujeito de nacionalidade não-europeia.);
- Idades ativas e férteis;
- Apoio para compreensão linguísticas (incluindo para aqueles que não fazem uso correto de nosso idioma oficial ou que possuem expressões idiomáticas inferiores a nossa);
- Possibilidade do adquirido possuir habilitações literárias avançadas (não implicando na recolocação ou salário adequado);
- Boa percepção sobre seu valor de retorno à sociedade. Estudos afirmam que 80% das pessoas veem como positiva essa aquisição. (Ver ponto 1 dos cuidados a serem tomados);
- Possibilidade de apoio estatal para a aquisição com um valor médio de 20 mil euros por unidade.  (Ainda em discussão e análise no Pacto do Eu de Aquisição e Macro Exploração);
- Pouca manutenção, colchão e sanita são o suficiente;
- Não é necessário espaço privado e as condições adequadas de saneamento e dignidade não precisam ser observadas;
- Não é necessário comprometer-se com as leis trabalhistas;
- Retorno financeiro anual comprovado. 

Cuidados a serem tomados:

1.  As pesquisas indicam que em termos de grau de prioridade na compra quando há opções entre um imigrante e um nacional (precarizado), é preferível que priorize o nacional. É importante haver equilíbrio entre exploração nacional e de terceiros uma vez que apesar de haver aprovação sobre o valor de pessoa externa, cerca de 60% de nossos inquiridos acreditam que pessoas exteriores ao país (não-europeias) tiram os seus trabalhos.

2. Possibilidade de afastamento das funções devido a acidentes mortais ou não mortais mais elevados quando comparado aos nacionais, especialmente em áreas como a construção civil, Actividades administrativas e dos serviços de apoio,  Alojamento, restauração e similares, Agricultura e  Actividades artísticas.

Venha já ter conosco e tenha e comprove o valor mais elevado de sempre!Interessados mandar email para: valorimigratorio@colonia.eu

Bem, queria discorrer sobre algumas estatísticas importantes, mas me parece que o anúncio fica melhor colocado desse jeito. É que também me impacta perceber que nenhuma distopia é tão ficcional assim. Não é ficcional o que todo povo pobre e cada vez mais precarizado sofre diariamente. Não é ficcional os despejos diários, o choro das crianças e mães que perdem seu teto e ganham estrelas de coberta. Parece poético, mas a exploração também usa de recursos linguísticos pra embelezar o sofrimento e instigar a miopia. Esse abstrato todo que nos abraça e diz coisas cheias de prelúdios e burocracia e que afunda e coloca em confronto explorado com explorado. Que cria categorias de direito inclusive para todas as pessoas que aqui nasceram mas que tem de ser submetidas diariamente à inquisição do “Nasceste onde?”.

Eu ainda não terminei de ler o que acontece com o poeta que foi comprado porque, dentro das opções, não era caro e nem fazia muito barulho. Tô curiosa pra saber se a poesia subverte o mercado. Mas, tem um incômodo que não sai da minha cabeça, esse barulho incessante de que, para algumas pessoas,  o custo benefício de nos suportar por aqui vale a pena. É um incômodo cansado porque a distopia se cruza com pitadas de realidade ao lembrar das inúmeras vezes em que ouvi colegas de associações que foram abordadas para saber se sabíamos de alguns imigrantes que queriam ir para outras cidades, afinal, “precisamos de pessoas para servir e limpar nos restaurantes, os nossos já não querem”. A gente sempre olha incrédula pensando em que raios de mundo se vive onde a exploração e servidão passa a ser assunto corriqueiro.

Fico a pensar num Pacto Europeu de Asilo e Migração que se desenha de um modo horrível, sem escutar as organizações que gritam todo dia sobre as mortes no Mediterrâneo, os abusos dos Centros de Detenções, as deportações arbitrárias, as vidas que pouco são valorizadas. Mas, agora não, agora caminhamos para uma consenso europeu que diz que uma vida não europeia vale/custa cerca de 20 mil euros. Caminhamos cada dia mais para uma mercantilização de nossas vidas e de categorias de vida. Cada vez mais evidente, cada vez mais barata, mais transacionável, mais vendável. 

Tudo que é outro não está no escopo e precisa ser moldado, explorado ou deportado.

Ou, melhor, precisa ser transformado em valor econômico. Assim fica mais bonito e menos polêmico para encerrar. 

Alerta: Qualquer conexão com a realidade não passa de coincidência, mas pra não dizer que falei só dessas coisas impossíveis de acontecer,  anexo aqui uma pequena lista de dados que saiu no último Relatório de Indicadores de Integração Migrante:

  1.  80% das pessoas inquiridas para o Eurobarómetro 2021 concorda que “ fomentar a integração de imigrantes é um investimento necessário a longo prazo para o país. (pág. 28)
  2. Tradicionalmente são alunos de nacionalidade portuguesa a maioria matriculado na disciplina de Português Língua Não Materna, seguida de alunos nacionais dos PALOP que têm Português como língua oficial de seus países:   Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola, fora do ranking mas com 31 alunos, está o Brasil. (pág. 138)
  3. Em pergunta no European Values Studies 2017/02019 sobre “a quem deveria ser dada prioridade quando os empregos são poucos”,  60% dos inquiridos de Portugal indicaram que os portugueses teriam de ter preferência. (pág. 148)
Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o geral@gerador.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.

Texto de Helena Schimitz

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